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26 GONZALEZ, Lélia. Beleza Negra, ou ora yê-yê-ô. jornal Mulherio, Ano II, nº06, março./abril. p. 04, 1982.



27 GONZALEZ, Lélia. Racismo por omissão. In: Folha de São Paulo, Primeiro caderno, 13-08-1983. p. 02



28 Carta de desligamento do PT/RJ, datada de 10 de novembro de 1985 (Acervo Lélia Gonzalez).



29 Odara Dudu = Beleza Negra. Folder de Campanha de Lélia Gonzalez para Deputada Estadual pelo PDT/RJ, em 1986 (Acervo Lélia Gonzalez).



Tomando partido

Com o fim do regime militar, na década de 1980, os movimentos de resistência social encontraram um terreno fértil para colocar em prática suas agendas. No campo político, novas alianças partidárias surgiram, dentre elas: o Partido dos Trabalhadores (PT) e o Partido Democrático Trabalhista (PDT).

Lélia era uma militante que buscava apoios e parcerias, nacionais e internacionais, para colocar em prática as agendas dos movimentos negros e feministas, nos quais estava engajada. Sua aproximação com os partidos de esquerda não foi aleatória; ela almejava ações afirmativas em benefício da população negra, sobretudo na educação. Filiou-se ao PT em 1981 e já no ano seguinte, candidatou-se ao cargo de deputada federal por essa legenda, alcançando a primeira suplência.

Sua campanha política tinha como ponto chave os sujeitos dos novos movimentos sociais: as mulheres, os negros e os homossexuais. No entanto, sua bandeira de luta tinha uma ênfase maior na situação da mulher negra na sociedade brasileira.

No jornal Mulherio, do qual foi uma das editoras, Lélia sempre que podia publicava um artigo denunciando essa situação de exclusão, sobretudo no campo do trabalho. Segundo ela, havia um processo de marginalização da trabalhadora negra, desde o período colonial. A reportagem “E a trabalhadora negra, cumé que fica?”, de sua autoria, trouxe esse triste cenário ainda vigente na década de 1980.

Não foi fácil para Lélia, assim como para outros(as) estudiosos(as) e ativistas, afirmar a existência do racismo no Brasil, uma vez que o mito da democracia racial estava no imaginário da sociedade. Inclusive, dentro do próprio movimento feminista, inicialmente, as assimetrias entre as mulheres não eram contempladas. No entanto, conforme o avanço das agendas políticas desse movimento, as diversas demandas foram introduzidas, incluindo as especificidades das mulheres negras.

Com grande emoção, Lélia aceitou o convite para participar da I Noite da Beleza Negra, do Grupo Afro Agbara Dudu, no Rio de Janeiro, como integrante da comissão julgadora. Para ela, esse evento tinha um significado socioeducativo importante, tendo em vista que: “o que estava em evidência não era o corpo da mulher negra, mas a dignidade, a elegância, a articulação harmoniosa do trançado do cabelo com o traje, o dengo, a leveza, o jeito de olhar (...)”.26

Cabe ressaltar que, desde a década de 1940, a valorização da estética da mulher negra estava em pauta. O Teatro Experimental do Negro promoveu, por três anos, os concursos: Rainha das Mulatas e Boneca de Pixe. Segundo seu principal porta voz — Abdias do Nascimento — as mulheres negras eram excluídas dos Concursos da Miss Brasil, um país cuja mestiçagem era o símbolo da brasilidade. Posteriormente, o Clube Renascença, fundado em 1951 por uma classe média negra, organizou o concurso da Miss Guanabara.

Em 1983, Lélia fundou com Pedrina de Deus, Jurema Batista, Elizabeth Viana, Ana Garcia, Rosália Lemos, dentre outras, o Grupo Nzinga — Coletivo de Mulheres Negras. Quando viajou para Baltimore, com uma bolsa concedida pela Fundação Ford, um de seus objetivos era angariar recursos para essa entidade.

Lélia sabia das dificuldades encontradas por essas mulheres para execução de suas agendas, sem um suporte financeiro mínimo. Estar articulada a um partido político poderia ser um caminho possível, para aquisição de tais recursos. No entanto, ela se decepcionou ideologicamente com o PT e expressou publicamente sua insatisfação:

(...) Para não fugir à regra, o PT na TV não deixou por menos: tratou dos mais graves problemas do País exceto um que foi “esquecido”, “tirado de cena”, “invisibilizado”, recalcado. É a isto justamente que se chama de racismo por omissão.27 E este nada mais é do que um dos aspectos da ideologia do branqueamento que, colonizadamente, nos quer fazer crer que somos um país racialmente branco e culturalmente ocidental, europocêntrico.

Lélia estava vivenciando, com isso, as várias faces do racismo à brasileira, que de forma muito velada reforça a supremacia da raça branca em detrimento da negra. Ela não aceitava esse jogo político e se desligou oficialmente do partido em 1985:

Caro companheiro. Pelo fato de discordar das práticas desenvolvidas pelo PT/RJ (expostas em carta dirigida ao companheiro Lula, datada de 07/11/85), sobretudo no que diz respeito ao estreitamento de espaços para uma política voltada para as chamadas minorias, peço meu desligamento do PT, declarando ao mesmo tempo, que estou encaminhando minha filiação ao PDT, onde acredito poder melhor trabalhar em termos de implementação da política supracitada. Declaro, por outro lado, que não é sem dificuldades que tomo esta decisão. Afinal, foi graças ao PT (às suas propostas) que me decidi a entrar na vida político-partidária, acreditando na possibilidade de inovação dentro da mesma. Disso, não poderei me esquecer; embora sabendo que os caminhos são tortuosos e que a luta não pode deixar de continuar junto com e em favor dos explorados, oprimidos, discriminados. Com respeito de sempre, as saudações cordiais de quem sempre buscou estar nas lutas dos discriminados. Lélia de A. Gonzalez.28

Entretanto, sua militância em prol dessas minorias foi reconhecida por outros órgãos do governo. Não foi à toa, que o Presidente José Sarney a designou para compor o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM) — órgão vinculado ao Ministério da Justiça, criado com a finalidade de “promover em âmbito nacional, políticas que visem eliminar a discriminação da mulher, assegurando-lhe condições de liberdade e igualdade de direitos, bem como sua plena participação nas atividades políticas, econômicas e culturais do país”, conforme versa o decreto de 1985.

Com Ruth Escobar na presidência do órgão, Lélia foi uma das 17 conselheiras nomeadas, dentre elas: Ruth Cardoso, Maria da Conceição Tavares, Rose Marie Muraro, Marina Colassanti, Tisuka Yamasaki, Carmen Barroso, Jaqueline Pitanguy, Benedita da Silva, Maria Betania Ávila e outras expoentes da luta pelos direitos das mulheres. A poucos meses de findar o seu mandato, desligou-se, com as outras integrantes, do CNDM, em protesto ao esvaziamento do órgão por parte do governo.

Possivelmente influenciada por Abdias do Nascimento, Lélia filiou-se ao Partido Democrático Trabalhista (PDT) e por essa legenda candidatou-se à deputada estadual, alcançando a primeira suplência no pleito realizado em 1986. Sua plataforma eleitoral reafirmou o seu compromisso político com a mulher negra e com a descolonização da cultura brasileira.

Em seu folder de campanha, elaborou um texto denominado Odara Dudu = Beleza Negra no qual enalteceu o Bloco Afro-Ilê Aiyê/Salvador e o Agbara Dudu/Rio de Janeiro, como territórios de resistência sociocultural negra, uma vez que suas atividades tinham um cunho pedagógico e político. Segundo ela: “(...) da maneira mais didática e prazerosa, fazem com que a nossa etnia tome consciência do seu papel de sujeito de sua própria história e de sua importância na construção não só deste país, como na de muitos outros das Américas”.29

Lélia era uma admiradora dos afoxés, do maracatu, do carnaval e do samba — manifestações populares brasileiras que tiveram uma forte influência africana. Por isso mesmo, ela queria refletir sobre essas expressões culturais numa perspectiva política, tendo em vista o fortalecimento desses espaços de luta e enfrentamento contra o racismo. Ou seja, era preciso politizar o discurso da questão racial no Brasil.

Todo este pensamento culminou com a publicação do livro, de sua autoria, Festas Populares no Brasil, em 1987. Essa obra adquiriu reconhecimento internacional, sendo premiada na Feira de Leipzig, Alemanha Oriental, na categoria “o mais belo do mundo”. Sua iconografia traduzia o folclore, a festividade e a pluralidade cultural brasileira.

Nessa ocasião, ela foi convidada para o cargo de diretora do Planetário da Gávea, instituição vinculada à Prefeitura do Rio de Janeiro. No espaço acadêmico, ela se destacava com suas pesquisas na área das relações raciais. Com isso, foi convidada a integrar o corpo docente do Departamento de Sociologia e Política da PUC-Rio, no qual permaneceu até o seu falecimento.