+ SAIBA MAIS



3 O Colégio Pedro II, fundado no Brasil Império, em 1837, durante 90 anos não permitiu o ingresso de estudante do sexo feminino. Conta-nos a história que, até o ano de 1883, a instituição foi exclusivamente masculina, até receber as filhas do professor de Medicina Candido Barata Ribeiro: Cândida e Leonor. No entanto, em 1885, o Ministro da Instrução deu por encerrado o ensino misto e as poucas alunas foram transferidas para a Escola Normal, para o Liceu de Artes e Ofícios ou para o curso gratuito feminino do Externato do Instituto Nacional de Instrução. Em 1927, Yvone Monteiro da Silva obteve uma autorização para ingressar no Colégio Pedro II, concluindo o curso após 6 anos de estudo. Fonte: SCHUMAHER, Schuma. Um Rio de Mulheres: a participação das fluminenses na história do estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: REDEH, 2003.


Os Anos nem tão dourados de Lélia

Com o falecimento de seu Acácio, os/as irmãos/ãs mais velhos/as assumiram o sustento da casa. Fato, ainda comum, nas famílias menos abastadas. Elisa, a primogênita do casal, praticamente educou e cuidou dos/as irmãos/ãs mais novos/as, auxiliando sua mãe. Lélia foi praticamente filha desses/as irmãos/ãs e esse fato contribuiu para que ela pudesse se dedicar aos estudos. Mas, não foi fácil não. Dados estatísticos comprovam que no Brasil de 1940, menos de 1/3 das crianças entre 7 e 14 anos frequentava a escola e a situação era ainda pior para as negras de baixa renda. Lélia estudou com muita dificuldade. Contou com a ajuda da família e amigos/as próximos/as. De todos/as os/as filhos/as de seu Acácio e dona Urcinda, ela foi a única a concluir uma faculdade.

Quando ainda em Belo Horizonte, Lélia havia iniciado o jardim de infância com o apoio de uma família italiana. Dona Urcinda era ama-de-leite de uma criança dessa família, cuja mãe falecera no parto. Lélia acompanhava a mãe em suas idas à casa dos italianos, que acabaram se afeiçoando a ela, oferecendo-se para financiar seus estudos.

Desde criança, Lélia demonstrava grande interesse pelos livros, o que contrariava dona Urcinda, uma mulher conservadora que almejava para as filhas a mesma vida que teve: dedicada ao lar. Quando percebeu que a filha era firme em suas convicções e perseverante, acabou cedendo e aprovando seu desejo.

No Rio de Janeiro, Lélia começou a frequentar o primário na Escola Manuel Cícero, localizada no bairro vizinho, na Gávea. As instituições escolares, na década de 1940, baseavam-se no humanismo (Escola Nova), proposta idealizada pelo então Ministro da Educação Gustavo Capanema. Em 1945, com o fim da era Vargas, floresceu a perspectiva de democratização do ensino público, mantendo-se os princípios humanistas.

Os avanços no âmbito da educação foram contemplados na Carta Magna de 1946, a qual restabeleceu o estado de direito e garantiu a gratuidade do ensino primário, principalmente para os menos abastados. Nesse aspecto, Lélia foi beneficiada e pôde dar continuidade aos seus estudos.

Do Leblon, posteriormente, Jayme comprou uma casa no bairro de Ricardo de Albuquerque, Zona Norte do Rio de Janeiro, e a família se mudou para lá. Lélia foi então estudar na Escola Rivadávia Corrêa. Nessa época, o trem tornou-se o principal veículo para o deslocamento de Lélia até a escola que se localizava próximo à Central do Brasil, principal estação ferroviária da capital que liga o Centro aos bairros da Zona Norte e a outros Municípios. Os bondes também circulavam pela cidade ligando diversos bairros.

Neste vai e vem, Lélia concluiu o ginásio na Escola Rivadávia Corrêa, em 1951. Um lugar de memórias e recordações registradas em seu Caderno de Lembranças, um diário que guarda diversos depoimentos de professores/as sobre a aluna Lélia.

Com forte base adquirida na escola primária e ginasial, Lélia ingressou no tradicional Colégio Pedro II,3, no ano de 1951. As instituições públicas eram de excelência e não era fácil ser aluno de uma delas. Havia certo glamour em pertencer ao Instituto de Educação e/ou ao Pedro II. O ensino rigoroso garantia a entrada dos/as estudantes nas melhores universidades. Além da dedicação individual de cada um/a.

Essa virtude, Lélia tinha de sobra. Aos dezenove anos concluiu o científico e entrou para a Universidade do Estado da Guanabara atual Universidade do Estado do Rio de Janeiro, onde se formou em História e Geografia, no ano de 1958, e Filosofia, no ano de 1962.

A vida não era e não é feita somente de obrigações. Lélia sabia disso. Gostava de viver, ter amigos, conversar e, porque não, namorar. Na Faculdade de Filosofia, seu coração bateu mais forte por um estudante de psicologia, Luiz Carlos Gonzalez.