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12 CEAA – O Centro de Estudos Afro-Asiáticos da Faculdade Cândido Mendes, Rio de Janeiro, foi instituído, em 1973, por José Maria Nunes Pereira. É uma instituição de referência para assuntos ligados à África, Ásia e suas relações com o Brasil nas áreas econômica, política e cultural. Desde 1995, o CEAA ministra uma pós graduação lato sensu em História da África e do Negro no Brasil.



13 A sergipana e canceriana Maria Beatriz Nascimento nasceu em 12 de julho de 1942. Migrou com a família, na década de 1950, para o Rio de Janeiro, onde se formou em História pela Universidade Federal. Uma grande conquista para uma mulher negra e pobre, cujas oportunidades eram mais restritas. Militante engajada no movimento negro, desde a década de 1970, esteve à frente da criação de alguns grupos de estudos. Na Universidade Federal Fluminense fundou o Grupo de Trabalho André Rebouças, em 1974, para discutir com estudantes a questão racial no Brasil. Autora do Filme ‘Ori’ e grande estudiosa da temática dos quilombos foi assassinada, em 1995 — um ano após o falecimento de Lélia — ao defender uma amiga de seu marido violento. Maria Beatriz Nascimento deixou uma filha e um legado para a academia e para a militância.



14 IPCN — O Instituto de Pesquisa das Culturas Negras foi fundado em 08 de junho de 1975 por um dos grupos que se reuniam no Teatro Opinião, em Copacabana/RJ. No estatuto do IPCN, constam como objetivos da entidade: 01. Denunciar e combater o racismo representado nas suas mais variadas formas, contra quem quer que seja e em todos os locais onde aconteça este crime de lesa humanidade. 02. Lutar pela igualdade de direitos entre as pessoas, independente do sexo, cor da pele, grupo étnico, credo religioso, classe social e posição política e ideológica ou partidária.



15 Marlene Ferreira Frias, mais conhecida como Lena Frias, nasceu em Niterói, Rio de Janeiro no dia 04 de junho de 1943. Formou-se pela Escola de Comunicação da atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Lena Frias era uma exímia pesquisadora da Música Popular Brasileira (MPB), em especial do samba e choro, seus gêneros preferidos. Seu vasto conhecimento da cultura popular brasileira levou-a várias vezes ao júri do Desfile das Escolas de Samba do Rio de Janeiro. Na década de 1970, Lena Frias foi trabalhar no Jornal do Brasil, um veículo impresso de grande circulação, onde contribuiu por vinte anos. Em 1980, nasceu seu filho e único herdeiro Pedro James. No ano de 2004, Lena Frias faleceu em sua casa no bairro de Vila Isabel, berço do samba, vítima de um câncer de mama.



16 Entrevista da atriz Zezé Motta concedida à RevistaRaçaDisponível em: http://www.culturanegra.com.br/zezemotta.htm



17 Todo o processo de mobilização e criação do MNU pode ser lido na íntegra no livro: GONZALEZ, Lélia & HASENBALG, Carlos. Lugar de Negro. Rio de Janeiro: Marco Zero, 1982.

Negritude de corpo e alma

A década de 1970 foi uma reviravolta na vida de Lélia Gonzalez. Vivia com Vicente — seu segundo marido —, ministrava suas aulas, se aprofundava na psicanálise lacaniana e trabalhava na Editora Rio-Sociedade Cultural Ltda, onde publicou um artigo sobre estruturalismo e história.

A militância começou a fazer parte de seu cotidiano quando o amigo Januário Garcia, convidou-a para as reuniões do Centro de Estudos Afro-Asiáticos12 (CEAA) da Universidade Cândido Mendes (UCAM), em 1973–1974. Além de Lélia, outras mulheres participavam desses encontros, como a historiadora Maria Beatriz Nascimento,13 uma referência nos estudos sobre quilombos. O cenário político da época ainda era de controle e censura. Portanto, as reflexões tinham um caráter mais acadêmico, com leituras de textos e debates sobre a questão racial no Brasil.

Nesse contexto, o Teatro Opinião, com boa projeção na mídia, divulgava a dramaturgia brasileira e protestava contra a ditadura. Para o regime militar, essa resistência representava uma ameaça à ordem instaurada. Coincidentemente ou não, o teatro sofreu um atentado a bomba em 1968. Anos depois, um grupo de dissidentes fundou o Instituto de Pesquisa das Culturas Negras14 (IPCN), do qual Lélia foi integrante da Assessoria Política.

O Black Rio invadia a vida cultural carioca, uma mistura de funk, soul americano, samba e jazz. Os bailes ferviam nas favelas e no subúrbio carioca ao som da música negra, de James Brown, Tim Maia e outros. Era um espaço de encontro de uma negritude carioca, mas também, um espaço de resistência e afirmação de uma identidade negra. A jornalista Lena Frias,15 conhecedora e admiradora da cultura popular, foi uma das principais divulgadoras desse fenômeno, publicando uma matéria de quatro páginas no Jornal do Brasil, em julho de 1976. A reportagem “O orgulho (importado) de ser negro no Brasil” visibilizou uma juventude negra organizada, com códigos, modos de vestir semelhantes ao da resistência negra norte-americana.

Nesse bojo de mobilização política, Lélia encontrou um terreno fértil para iniciar o primeiro Curso de Cultura Negra no Brasil (1976), na Escola de Artes Visuais (EAV) do Parque Lage, Rio de Janeiro. Para ela, o conceito de cultura devia ser pensado em sua pluralidade e servir como elemento de conscientização política. O programa de curso de Lélia, na EAV, propunha uma análise da contribuição africana na formação cultural brasileira. Ela não desconsiderava o tripé “fundante” da nossa nacionalidade: negros, brancos e índios; mas centralizava sua discussão no protagonismo negro, na maioria das vezes silenciado, ao longo da História do Brasil.

Os primeiros estudos sobre relações raciais no período pós-abolição tentavam justificar cientificamente a supremacia de uma raça sobre a outra. Embora, essas teorias tenham sido combalidas, a trajetória de luta dos/as negros/as no Brasil ainda é desconhecida. Na década de 1970, então, esse desconhecimento era ainda maior.

A essa altura, Lélia já estava dialogando com a militância do movimento negro, mas seu método de trabalho era muito teórico e pouco dinâmico. Até então, o seu alunado era da academia, das aulas de filosofia e história. Com isso, Lélia repensou seu método de trabalho e incorporou aulas práticas ao currículo do curso, como: dança afro-brasileira e capoeira. Além disso, estava previsto em sua programação conhecer de perto um ritual do candomblé — religião de matriz africana. Segundo sua aluna Zezé Motta: “Eu não sabia nada sobre Candomblé, tinha medo até de passar na entrada de um terreiro. Quando saí pelo mundo para divulgar Xica da Silva, as pessoas me perguntavam sobre cultura negra e eu não sabia nada. Então fiz um curso com a antropóloga Lélia Gonzalez e dele fazia parte assistir a um ritual de Candomblé”.

As diversas manifestações culturais africanas foram deturpadas e estigmatizadas em nosso processo histórico, com maior ênfase na religiosidade. Lélia, certamente, sabia disso! Logo, usou e abusou da docência para reinterpretar a história do Brasil, sob a ótica dos/as negros/as. Ela afirmava que a “a cultura brasileira é eminentemente negra”.

No entanto, o curso se restringia a uma minoria da Zona Sul do Rio de Janeiro. Embora a EAV tenha sido um importante lócus sociocultural daquele período, era frequentada por uma elite carioca, um público muito seleto. Sem contar, que o mote da democracia racial, ainda reinante no imaginário da sociedade, representava um obstáculo para qualquer avanço da temática racial. Por isso mesmo, Lélia queria alcançar as massas populares; em especial, as mulheres negras.

Nesse meio tempo, Lélia se separou de Vicente e mergulhou de cabeça na militância do movimento negro. Fato que, na década de 1990, será motivo de uma auto-reflexão, uma vez que sua vida pessoal ficou em segundo plano. Enfim... Até o ano de 1978, Lélia permaneceu na EAV e organizou eventos culturais, para divulgar a agência do negro em suas diversas expressões, tais como: artes plásticas, grupos de dança, exibição de filmes, lançamento de livros, seminários e outros. Em seguida, começou a lecionar no Departamento de Letras e Artes da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, instituição na qual trabalhou até o ano de seu falecimento, em 1994.

Apesar das múltiplas atividades, a militância ocupou um espaço bem maior em sua vida, principalmente com a criação do Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação e o Racismo (MNUCDR), do qual foi cofundadora e integrante da Comissão da Executiva Nacional, até o ano de 1982. A criação efetiva dessa entidade ocorreu no dia 7 de julho de 1978, na cidade de São Paulo. No ano seguinte, foi rebatizado de Movimento Negro Unificado (MNU). Através de uma carta convocatória, as entidades negras do país foram convidadas a participar de um ato público para fundação do MNU.

No Rio de Janeiro, Abdias do Nascimento, que havia recém chegado do exílio, com sua esposa Elisa Larkin, se mobilizou com a manifestação e participou de todo o processo de fundação do MNU. Além dele, outras entidades cariocas do movimento negro abraçaram o movimento, dentre elas: a Escola de Samba Quilombo, Renascença Clube, Núcleo Negro Socialista, Centro de Estudos Brasil-África (CEBA) e o IPCN.

Em Salvador, capital da Bahia, representantes dos blocos afros e afoxés já estavam engajados na luta contra racismo e demonstraram apoio à criação de um movimento de caráter nacional. Na avaliação de Lélia, o dia 7 de julho de 1978 foi: “um marco histórico muito importante para nós, na medida em que se constituiu em ponto de convergência para a manifestação, em praça pública, de todo um clima de contestação às práticas racistas, assim como da determinação de levar adiante a organização política dos negros. Ora, esse clima e essa determinação já haviam pintado em diferentes pontos do país, como já dissemos. Faltava esse 7 de Julho, garantia simbólica de um movimento negro de caráter nacional”.

Nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo, foi lida uma Carta Aberta à População, consolidando a criação do MNU:

CARTA CONVOCATÓRIA

“Não podemos mais calar. A discriminação racial é um fato marcante na sociedade brasileira, que barra o desenvolvimento da Comunidade Afro-Brasileira, destrói a alma do homem negro e sua capacidade de realização como ser humano.

O Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação Racial foi criado para que os direitos dos homens negros sejam respeitados. Como primeira atividade, este Movimento realizará um Ato Público contra o Racismo, no dia 7 de julho às 18h30min horas, no Viaduto do Chá. Seu objetivo será protestar contra os últimos acontecimentos discriminatórios contra negros, amplamente divulgados pela Imprensa.

Nós, Entidades Negras, reunidas no Centro de Cultura e Arte Negra no dia 18 de Junho, resolvemos criar um Movimento no sentido de defender a Comunidade Afro-Brasileira contra a secular exploração racial e desrespeito humano a que a Comunidade é submetida.

No dia 28 de abril, numa delegacia de Guaianazes, mais um negro foi morto por causa das torturas policiais. Este negro era Robson Silveira da Luz, trabalhador, casado e pai de filhos. No Clube de Regatas Tietê, quatro garotos foram barrados do time infantil de voleibol pelo fato de serem negros. O diretor do Clube deu entrevistas nas quais afirma as suas atitudes racistas, tal a confiança de que não será punido por seu ato.

Nós também sabemos que os processos desses casos não darão em nada. Como todos os outros casos de discriminação racial, serão apenas mais dois processos abafados e arquivados pelas autoridades deste país, embora um dos casos tenha a agravante da tortura e conseqüente morte de um cidadão.

Mas o Ato Público Contra o Racismo marcará fundo nosso repúdio e convidamos a todos os setores democráticos que lutam contra o desrespeito e as injustiças aos direitos humanos, a engrossarem fileiras com a Comunidade Afro-Brasileira nesse ato contra o racismo.

Fazemos um convite especial a todas as entidades negras do país, a ampliarem nosso movimento. As entidades negras devem, desempenhar o seu papel histórico em defesa da Comunidade Afro- Brasileira; e, lembramos, quem silencia consente.

Não podemos mais aceitar as condições em que vive o homem negro, sendo discriminado da vida social do país, vivendo no desemprego, subemprego e nas favelas. Não podemos mais consentir que o negro sofra as perseguições constantes da polícia, sem dar uma resposta.

Todos ao ato público contra o racismo contra a discriminação racial contra a opressão policial pelo fortalecimento e união das entidades afro- brasileiras”.

Dentre as muitas ações do MNU, havia uma comissão nacional de imprensa, responsável pela publicação de um jornal trimestral, autônomo e independente. Cabe ressaltar que, desde o século XIX, o jornal era o principal veículo de comunicação utilizado por negros letrados. No Rio de Janeiro, já em 1833, havia sido fundado O Homem de Cor, com matérias que fortaleciam o movimento abolicionista. Porém, a imprensa negra consolidou-se, de fato, no Estado de São Paulo, a partir de 1910: O Bandeirante (1910); O Menelick e a Princesa do Oeste (1914); A União e O Alfinete (1918), dentre outros.

Com a fundação do MNU, Lélia adquiriu grande visibilidade no cenário nacional. Nem mesmo ela sabia da influência que estava exercendo sobre a militância. Seu pensamento e contribuição intelectual — assim como de Arthur Ramos, Edson Carneiro e Nina Rodrigues — serviram de inspiração para o enredo do Grêmio Recreativo de Arte Negra e Escola de Samba Quilombo (Granes Quilombo). O compositor Candeia, um dos porta-vozes da escola, se ancorou nas principais idéias desses estudiosos para criação do tema “Noventa Anos de Abolição”, para o carnaval de 1979.

Por ironia do destino, esse grande intérprete da música popular brasileira faleceu antes mesmo da escolha do samba. Entretanto, recorrendo a Nelson Sargento: “samba agoniza, mas não morre, alguém sempre nos socorre antes do suspiro derradeiro”. Pois é, Lélia e outros integrantes assumiram essa responsabilidade e o Granes Quilombo teve como representantes do seu carnaval, a dupla vencedora Nei Lopes e Wilson Moreira, a qual fez uma homenagem ao compositor falecido:


Noventa anos de abolição
(Nei Lopes e Wilson Moreira)

“Hoje a festa é nossa
Não temos muito para oferecer
Mas os atabaques vão dobrando
Com toda a alegria de viver.
Festa no Quilombo Noventa anos de abolição
Todo mundo unido pelo amor
Não importa a cor
Vale o coração.
Nossa festa hoje é homenagem
À luta contra as injustiças raciais
Que vem de séculos passados
E chega até os dias atuais.
Reverenciamos a memória
Desses bravos que fizeram nossa história:
Zumbi, Licutan e Alumá
Zundu, Luís Sanin e Dandará.
E os quilombolas de hoje em dia
‘São Candeia’ que nos alumia
E hoje nesta festa
Noventa anos de Abolição
Quilombo vem mostrar que a igualdade
O negro vai moldar com a própria mão
E em luta pelo seu lugar ao sol
Não é só bom de samba e futebol”.


Lélia era uma boa ouvinte da música clássica, conhecia as sinfonias dos grandes maestros europeus do século XVIII. Mas, também, adorava frequentar as quadras das escolas de samba e as rodas de partido alto do subúrbio carioca. Até o ano de 1981, Lélia foi integrante do Conselho Consultivo da Diretoria do Departamento Feminino do Granes Quilombo. Mas, não parou por aí. Nessa ocasião, Lélia morava na ladeira dos Guararapes, no Cosme Velho e escreveu um enredo “A revolta dos Malês” para a escola de samba do bairro. Era extremamente articulada, inteligente e ousada. Lélia circulava em diversos espaços e se comunicava com todos. Na academia — décadas de 1970/80 — houve uma releitura historiográfica dos estudos sobre a escravidão no Brasil. Com isso, Lélia encontrou um terreno fértil para denunciar o “lugar” da mulher negra na sociedade brasileira, o que se transformou em sua maior bandeira de luta, a partir de então, nos movimentos negro e feminista.

Uma de suas primeiras publicações sobre esse tema foi “Mulher negra: um retrato” no Jornal Lampião da Esquina, em 1979. Internacionalmente, suas idéias já ganhavam espaço em alguns periódicos como a revista Encore, na qual foi entrevistada para a reportagem Third world activists: two women committed to change the world. A partir de então, começou um intenso diálogo com lideranças do mundo todo.