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34 GONZALEZ, Lélia. Entrevista. Jornal do MNU, nº 19, maio-julho de 1991. p. 08-09.



35 Entrevista concedida por Eliane de Almeida para o Projeto Memória Lélia Gonzalez, no dia 17 de outubro de 2011.

Lélia foi para ancestralidade

A década de 1990 foi de expectativas para a virada do século. A democracia estava consolidada e nesse contexto surgiram diversas organizações não governamentais que, estrategicamente, redimensionaram suas agendas e suas ações. A prioridade das ONGs de mulheres negras era lutar por políticas públicas, nas áreas da educação, saúde, trabalho, dentre outras.

A presença dessas ativistas estava consolidada e expandiu-se para outras instâncias da sociedade. A ativista Dulce Pereira, em 1994, tornou-se a primeira mulher negra a presidir a Fundação Cultural Palmares, órgão do Ministério da Cultura encarregado de desenvolver ações voltadas para a valorização da cultura negra.

A participação das afrodescendentes em espaços de poder contribuía para construção de uma agenda política específica à população negra. Com isso, suas demandas começaram a ser traduzidas em políticas públicas. Algumas lideranças negras se destacaram nesse contexto. Outras — como Lélia Gonzalez — preferiram se recolher e repensar toda sua trajetória nos movimentos negros, incluindo conquistas e decepções.

Para ela, foi uma fase de reflexão e autocrítica, uma vez que havia “mergulhado de cabeça” na militância, deixando de lado seus projetos pessoais. Com muita coragem e lucidez — características que eram peculiares a ela — expressou, publicamente, sua insatisfação com o movimento negro34. Não poupou palavras ao dizer que estava “catando os pedaços’ para seguir sua existência.

Nessa ocasião, ela fez uma viagem à África, talvez a última, e voltou com uma ferida nas costas que não cicatrizava. Aconselhada por parentes próximos, procurou um médico e foi diagnosticada com uma diabete do tipo B. Com isso, o tratamento e uma dieta balanceada tornaram-se inevitáveis. Ela gostava de curtir alguns prazeres da vida: sair, se divertir, tomar uma cerveja, mas teve que se recolher por tempo indeterminado. Seu filho Rubens vivia uma fase difícil, em seu casamento, e resolveu voltar para companhia da tia quando soube que sua saúde estava debilitada.

Além da família, sempre presente nessas horas, Lélia contou com o apoio dos amigos Januário Garcia e Ana Maria Felippe. Em alguns momentos, sua saúde esteve muito frágil e precisava de uma pessoa para levá-la ao Departamento de Sociologia e Política da PUC-Rio, do qual tornou-se diretora um mês antes de falecer. Com garra de viver, ela procurou um tratamento espiritual com o seu orientador Pai Jair D’Ogum, para quem doou todo o seu acervo. Ela era muito mística e, possivelmente, tentou de tudo para prolongar sua vida.

Rubens, que estava separado de sua mulher Joyce, resolveu reatar a união. Nesse período, a doença de Lélia evoluiu para uma insuficiência cardíaca e sua sobrinha Eliane de Almeida, para não deixá-la sozinha, se mudou para a casa da tia com suas duas filhas: Gabriela e Ísis.

No entanto, quis o destino que essa mineira, de alma carioca e torcedora do flamengo, não comemorasse o tetracampeonato brasileiro na Copa do Mundo, de 1994. No dia 10 de julho, sua sobrinha estranhou seu recolhimento até a hora do almoço e foi acordá-la para comer um macarrão com carne assada, um de seus pratos prediletos.

“No dia 10 de julho vou acordá-la e encontrei-a morta [...] foi em casa, do jeito que ela pediu. Nós conversamos até tarde, era jogo do Brasil, mas não assistimos porque ela ficava nervosa. Nesse dia, ela falou que não queria beber porque estava um pouco enjoada, tomou suco, beliscou algumas coisas e me fez seu último pedido: ‘amanhã você faz macarrão com carne assada que eu adoro?’”.35