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4Este depoimento de Lélia foi publicado na íntegra no ano de 1994 e está disponível em: Lélia fala de Lélia. Revista Estudos Feministas, 383, nº 02.


5Entrevistas/depoimentos Jornal O Pasquim, Rio de Janeiro, ano XVII, 20/03 a 26/03, n. 871, p.8-10. Tempo vida poesia.


6 Jean Paul Sartre (1905–1980) filósofo, escritor e dramaturgo francês considerado um dos maiores expoentes do Existencialismo. Simone de Beauvoir (1908–1986) foi uma filósofa francesa, feminista, companheira de Sartre, publicou uma importante obra denominada o Segundo Sexo (1949), na qual cunhou a célebre frase: “a mulher não nasce mulher, torna-se mulher”.

Entre Livros e amores

Quando concluiu a graduação, Lélia já lecionava no Colégio de Aplicação Fernando Rodrigues da Silveira da UEG e na Fundação Educacional e Universitária Campo Grandense (FEUC). A docência era um caminho possível, sobretudo para os/as que tinham diploma de licenciatura.

Além da sala de aula, Lélia se dedicava às primeiras publicações. Continuava próxima de sua família e, especialmente, curtindo seu relacionamento com Luiz Carlos Gonzalez.

No início da década de 1960, nasceu Rubens Rufino, caçula de sua irmã Dora, que já tinha três filhos: Roberto, Roselívia e Roseni. As dificuldades, num primeiro momento, fizeram com que Maria das Dores — Dora — desistisse da gravidez. Era uma mulher do lar e não tinha recursos suficientes para manter quatro filhos.

Por outro lado, a família Almeida estava sempre de prontidão para ajudar e oferecer apoio a quem necessitava. Nessa ocasião, Lélia trabalhava e era independente financeiramente. Talvez por isso, ela tenha incentivado sua irmã a ter o filho, tornando-se, praticamente, a segunda mãe dele. Rubens Rufino, apelidado de Manéu, quando começou a balbuciar as primeiras palavras, chamava as duas de mãe: mãe Dora e mãe Lélia.

O ano de 1964 trouxe uma reviravolta na vida pessoal de Lélia e também na vida política brasileira. No dia 31 de março, os militares assumiram o poder e instauraram um regime autoritário. Os atos institucionais administravam o país e fortaleciam o poder dos novos governantes. O cenário era de censura, de controle, mas também de muita efervescência sociocultural.

Nesse período, sem a benção da família dele, Lélia oficializou sua união com Luiz Carlos e não mais abandonou o sobrenome Gonzalez. Embora felizes com o casamento, ambos começaram a enfrentar problemas com a tradicional família dele. Segundo Lélia: “quando descobriram que estavam legalmente casados, veio o pau violento em cima de mim; claro que me transformei numa ‘prostituta’, numa ‘negra suja’ e coisas assim desse nível”4.

Até então, Lélia era uma historiadora, geógrafa e filósofa que cumpria com suas obrigações docentes, sem nenhum foco, ou interesse, na questão racial. Quando os conflitos se acentuaram, Luiz Carlos rompeu relações com a família. Com isso, Lélia começou a despertar para o racismo na sociedade brasileira, com maior ênfase na mulher negra, invisibilizada pela História Oficial. Essa bandeira de luta, no entanto, seria levantada por ela apenas anos depois, já na militância do movimento negro.

Além da docência, ela estreou no mercado editorial, com traduções de autores franceses, idioma que falava fluentemente e aprendera no Rivadávia Corrêa. O Curso Moderno de Filosofia, de Denis Huisman e André Vergez, foi o primeiro deles.

Não imaginava ela, certamente, que uma tragédia assombraria o seu sossego. Luiz Carlos Gonzalez se suicidou no ano seguinte ao casamento. Segundo ela, “suas relações com a família eram tão complicadas que ele acabou se matando”5. Muito abalada com a morte dele, Lélia resolveu “esfriar a cabeça” e viajou brevemente para Barbacena. Essa escolha, talvez, não tenha sido involuntária, uma vez que Lélia nasceu e passou parte de sua infância em Minas Gerais. Ela guardava uma memória doce e pueril da meninice. Voltar para lá significava resgatar essas origens.

Ao retornar para o Rio de Janeiro, suas atividades cotidianas foram retomadas. No ano de 1966, traduziu o segundo volume dos autores Denis Huisman e André Vergez, denominado a Ação. As teorias filosóficas estavam em evidência e Lélia se aprofundava nesses estudos com voracidade. Era uma forma de ocupar o seu tempo e, com isso, elaborar melhor a perda de Gonzalez.

Foi um momento de recolhimento, e oportuno até. O regime militar nas mãos do Marechal Arthur da Costa e Silva sufocava qualquer manifestação popular. Por outro lado, os valores morais da família começaram a ser questionados pela juventude, que não assistia indiferente ao que estava acontecendo. A cultura jovem ganhou visibilidade em diferentes manifestações artísticas, as quais fortaleceram os ideais de democracia e liberdade. A época era de efervescência cultural e social.

Em 1967, Dona Urcinda, mãe de Lélia, faleceu aos 69 anos, vítima de um enfarto do miocárdio. Com isso, a família Almeida se espalhou. As filhas Dora e Nair foram viver em Petrópolis, região serrana do Rio de Janeiro. Lélia e Elisa permaneceram na Tijuca, porém se mudaram para um apartamento maior, juntamente com Rubens — na época com seis anos — e Eliane de Almeida, filha única de Elisa. Os irmãos estavam prontamente unidos nessas horas e amparavam uns aos outros, sempre que podiam.

Lélia não se dava por vencida, após cada perda, ou dificuldade, se levantava mais fortalecida. Em 1968, traduziu mais um volume dos autores Denis Huisman e André Vergez, O pensamento. Nesta ocasião, começou a organizar em sua casa encontros de reflexão filosófica, que reuniam amigos e alunos. A filosofia existencialista estava em pauta e pensadores/as europeus como Sartre e Simone de Beauvoir6 estavam em evidência. Em um desses encontros, ela convidou seu vizinho, Januário Garcia, para participar. Foi o início de uma amizade e parceria para vida toda.

Além da filosofia, história e geografia, Lélia fez incursões pela psicanálise, antropologia, candomblé, meditação, como se estivesse buscando uma resposta para sua existência. Nessas andanças, conheceu o engenheiro Vicente Marota, segundo parentes, uma grande paixão, com quem viveu até o ano de 1976.