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18 Carlos Moore é cubano de origem jamaicana. Possui ambas as nacionalidades. Vivenciou toda a problemática do racismo em Cuba, exilando-se em 1963, após grandes divergências com o governo de seu país. Morou no Egito, na França e foi viver com sua família na África. Foi Professor Titular do Instituto de Relações Internacionais da Universidade do Caribe, em Trinidad Tobago. Atualmente, radicado na Bahia é autor de Esta puta vida, Castro: os negros e a África, A presença Africana nas Américas, Racismo e Sociedade; dentre outras importantes publicações.



19 No Brasil, entre os séculos XVI e XIX surgiram inúmeros mocambos/quilombos por toda a parte. O principal foi — sem dúvida — Palmares, localizado em Alagoas, na antiga capitania de Pernambuco. Foi um mundo africano reinventado no Brasil pelos negros fugitivos. O poder central ficava nas mãos de Ganga Zumba e Zumbi dos Palmares — uma importante liderança militar. Foram muitas as tentativas por parte dos colonizadores para destruir o quilombo. As mulheres também participavam das batalhas contra os reescravizadores. Há indícios de que Acotirene e Aqualtune foram lideranças femininas palmarinas. Em 1695, a tropa do bandeirante Domingos Jorge Velho, com apoio do governo, destrói a República de Palmares e com ela suas lideranças. Fonte: SCHUMAHER, Schuma. Gogó de Emas: a participação das mulheres na história do Estado de Alagoas. Rio de Janeiro: REDEH e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2004.



20 GONZALEZ, Lélia. Mulher negra, essa quilombola. Folha de São Paulo. São Paulo, 22/11/81, Caderno Folhetim, p. 4.



21 O jornal Mulherio surgiu, em 1981, com o apoio da Fundação Ford e da Fundação Carlos Chagas. Esse veículo emergiu num momento histórico de ressurgimento dos movimentos de resistência social, dentre eles o movimento feminista. A luta pelos direitos das mulheres estava em pauta. O Mulherio publicava reportagens com temáticas variadas, como: participação política, família, mercado de trabalho, mulher negra, dentre outras. O Conselho Editorial era formado por feministas e acadêmicas de renome, tais como: Carmen Barroso, Carmen da Silva, Cristina Bruschini, Elizabeth Souza Lobo, Eva Alterman Blay, Fúlvia Rosemberg, Heleieth Saffioti, Lélia Gonzalez, Maria Carneiro da Cunha, Maria Malta Campos, Maria Moraes, Maria Rita Kehl, Maria Valéria Junho Pena, Marília de Andrade, Mariza Corrêa e Ruth Cardoso.



22 Relatório entregue à Fundação Ford, aos cuidados da Senhora Patricia Sellers, em 10 de dezembro de 1984 (Acervo Lélia Gonzalez). Nesse documento, Lélia relatou toda a viagem aos Estados Unidos, o encontro com importantes lideranças femininas do movimento negro e compilou uma série de artigos de sua autoria.



23 Angela Yvonne Davis nasceu em 26 de janeiro de 1944, em Birmingham, estado do Alabama. É considerada uma das maiores lideranças femininas negras da história dos Estados Unidos. Na década de 1970, tornou-se internacionalmente conhecida. Ela foi acusada de oferecer as armas que o grupo “Black Panters — Panteras Negras” usou em um protesto na Assembleia Legislativa da Califórnia, para libertar três prisioneiros negros que estavam em audiência. Com isso, permaneceu por 17 meses na prisão. Nesse período, diversas manifestações civis foram organizadas, em frente à casa de detenção de Nova Iorque, para exigir sua liberdade. Para uma melhor apreciação da trajetória de Angela Davis ler: BARRETO, Raquel de Andrade. Enegrecendo o feminismo ou feminizando a raça: narrativas de libertação em Ângela Davis e Lélia Gonzalez. Mestrado em História (Dissertação). Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, 2005.



24 O movimento da negritude foi idealizado fora da África, provavelmente nos Estados Unidos. No entanto, em Paris, na década de 1930, um grupo de estudantes negros — Aimé Césaire (Martinica), criador da palavra negritude, Léon Damas (Guiana Francesa) e Léopold Sédar Senghor (Senegal) — foi responsável pela divulgação do movimento com a publicação da revista L’étudiant Noir (o estudante negro), em 1934. No Brasil, o Teatro Experimental do Negro, fundado por Abdias do Nascimento, em 1944, levantou a bandeira da negritude ao exigir publicamente o reconhecimento de uma identidade negra. Na década de 1950, a palavra apareceu no I Congresso do Negro Brasileiro, como título de uma comunicação: A estética da Negritude, de autoria de Ironides Rodrigues.



25 GONZALEZ, Lélia. As amefricanas do Brasil e sua militância. 1988. Mimeo (Acervo Lélia Gonzalez).

Do Brasil para o mundo...

Lélia inicia suas primeiras incursões internacionais para denunciar o racismo, de forma geral, e a opressão da mulher negra de modo particular. Até então, outras lideranças negras, como Abdias do Nascimento, já denunciavam, fora do país, a falácia da democracia racial no Brasil, mas ela foi a primeira porta voz da questão da mulher negra. Nesse trânsito, conheceu expoentes de outros países, como o cubano Carlos Moore, as afro-americanas Angela Davies e Dorothy Heigts, o martinicano Aimé Césaire, dentre outros/as.

Com Carlos Moore,18 seu primeiro encontro foi em Dakar/Senegal, no ano de 1979, através de amigos comuns. Nessa ocasião, Moore estava no exílio, desde o ano de 1963, na companhia de sua esposa Shawna e Kimathi, filho do casal. Segundo ele, foi uma empatia imediata e um momento de muita emoção. Lélia, ao desembarcar no aeroporto, com os olhos cheios de lágrimas deixou escapar do fundo do peito: “África, finalmente!” Para ela, pisar em solo africano foi um mergulho em suas origens e ancestralidade. Segundo Moore, ambos tinham discussões teóricas calorosas sobre o marxismo e a psicanálise lacaniana, mas, segundo ele, as questões de gênero e raciais eram predominantes para ela, uma vez que a mulher negra sofria essa dupla discriminação.

Além do continente africano, Lélia viajou para Europa, onde conheceu Veneza/Itália e Genebra/Suíça. Nesses países, participou da Women’s Conference on Human Rights and Mission, com a comunicação “Racismo e seus efeitos na sociedade brasileira”, publicada posteriormente.

No início dos anos 1980, a África do Sul vivia o regime de segregação racial e Nelson Mandela — principal liderança — encontrava-se preso. Com isso, Lélia engajou-se na luta contra o apartheid, em especial com a situação das mulheres sul-africanas. A Organização das Nações Unidas e a Liga das Mulheres do Québec promoveram o seminário Woman under Apartheid, do qual Lélia foi vice-presidente, para refletir sobre o desamparo social das mulheres submetidas a esse regime de exclusão.

Entre uma viagem internacional e outra, Lélia participou de um ato solene na Serra da Barriga/Alagoas, no dia 20 de novembro de 1981, juntamente com outras lideranças negras, tais como Helena Theodoro, Joel Rufino, Abdias do Nascimento. Este, num gesto simbólico, beijou o chão de Palmares em homenagem à Zumbi19 — grande liderança quilombola — e outras/os quilombolas que ali resistiram heroicamente ao sistema escravocrata. Lélia também registrou sua emoção e a importância histórica desse ato solene em um artigo publicado na Folha de São Paulo20:

“Aqui, nas Alagoas, um grupo de mulheres de diferentes Estados, representantes ou não de movimentos negros, preparou-se para subir a Serra da Barriga, onde se situava a capital de Palmares, o Mocambo dos Macacos. O projeto do Memorial Zumbi do qual fazemos parte, realizou um ato solene, uma homenagem a Zumbi, neste dia 20 de novembro de 1981. Enquanto isso, no resto do país, uma série de eventos aconteceram para celebrar o Dia Nacional da Consciência Negra, promovidos pelos movimentos negros. E lá, no alto da Serra, durante a solenidade, ficamos pensando naquelas palmarinas, que preferiram matar os próprios filhos e se suicidarem. em seguida, para não se deixarem escravizar”.

Incansável nessa luta, Lélia viajou para Paris como convidada especial da Conferência Internacional Sanctions against South Africa, promovido pelo Comitê Anti-Apartheid (ONU). Para ela, o Brasil deveria romper relações diplomáticas com países que mantinham políticas raciais discriminatórias. Mesmo com todas essas viagens, ela encontrava tempo para escrever seus artigos e mandar cartões postais para a família. Nessa ocasião, o jornal Mulherio21, do qual era integrante do Conselho Editorial, publicou uma reportagem de sua autoria denominada “Mulher Negra”.

Em nível nacional, o reconhecimento oficial não tardou a chegar. No dia 1 de fevereiro de 1982, coincidentemente data de seu aniversário, recebeu um diploma do Conselho Nacional de Mulheres do Brasil por ser uma das “Dez Mulheres do Ano de 1981”, que muito trabalharam pela integração da mulher no processo de desenvolvimento socioeconômico e cultural do país.

Outro grande feito de Lélia foi a publicação do livro Lugar de Negro, em co-autoria com o sociólogo Carlos Hasenbalg. Ambos faziam parte de uma intelectualidade que buscava outras perspectivas de análise para os estudos sobre o negro na sociedade brasileira.

Não existiam fronteiras para ela. No âmbito internacional, participou como convidada especial do Symposium in Support of the Struggle of the Namibian People for Self-Determination and Independence, promovido pela ONU, em San José/Costa Rica. Nesse simpósio, a discussão girava em torno da independência do território da Namíbia, que pertenceu à África do Sul até a década de 1990.

Com uma bolsa concedida pela Fundação Ford, no ano de 1984, Lélia Gonzalez viajou para os Estados Unidos, para execução do projeto “Mulher Negra: proposta de articulação entre raça, classe e sexo”, em parceria com Tereza Cristina Araújo Costa. Nessa viagem, ela encontrou com importantes lideranças femininas negras norte-americanas, dentre elas: Angela Davis, Dorothy Height, Queen Mother Moore, Miss Helena B. Moore. Estas duas últimas, segundo ela: “são verdadeiros arquivos vivos da história do movimento negro americano. Recebi delas o maior estímulo em face do nosso trabalho no Brasil”22.

Nessa viagem, participou do evento organizado pelo “African-American Women’s Political Caucus” e ficou impressionada com a popularidade de Angela Davis23:

“[...] Constatei que a popularidade de Angela Davis entre aquelas mulheres de classe média afro-americana é enorme, apesar de sua conhecida militância comunista. Mas, ao ouvi-la falar, compreendi talvez, que essa questão se torna absolutamente secundária: a força e a competência de sua articulação segura, aliadas ao brilhantismo com que expõe suas ideias transfiguram-na de tal maneira que a plateia fica como que eletrizada, suspensa no fio de suas palavras”.

Nessas andanças, Lélia pôde avaliar a complexidade da questão racial no mundo a fora. Nos Estados Unidos, em especial, quem nasce com uma gota de sangue negro é considerado negro; no Brasil, é justamente o inverso. Lélia trouxe vivência e bagagem cultural de todos esses países visitados, o que contribuiu para o fortalecimento das agendas políticas em âmbito nacional.

De volta ao continente africano, em 1985, Lélia participou da III Conferência Mundial sobre a Mulher — evento de encerramento da Década da Mulher 1975-1985 — realizado em Nairobi, Quênia. Além de apresentar alguns painéis, aproveitou sua estadia para visitar comunidades rurais locais e dialogar com diversas lideranças negras internacionais. Na capital da Itália, ela foi convidada a integrar o Conselho Diretor da Society for International Development/SID, no qual atuou durante um ano.

Entre uma atividade e outra, Lélia arrumava as malas e viajava para onde convidavam. Em 1987, participou do Festival Pan-Africano de Artes e Cultura/FESPAC, em Dakar/África. Abdias do Nascimento integrou o Comitê Dirigente Internacional do Festival. A ideologia pan-africanista estava em evidência, desde o início do século XX, na voz do americano W. Du Bois e tinha como propósito a criação de uma “unidade africana”. Nesse mesmo ano, participou da Conferência da Negritude, em Miami/EUA, onde conheceu um dos maiores expoentes do movimento da negritude24, o martinicano Aimé Césaire.

No ano em que o Brasil completou cem anos de abolição, 1988, muitas foram as comemorações oficiais e protestos da sociedade civil organizada. Em termos de militância, o feminismo negro se consolidava e teve como marco o I Encontro Nacional de Mulheres Negras, realizado em Valença, no Rio de Janeiro. Lélia foi uma das principais porta-vozes desse evento, ao lado de Luiza Bairros, Benedita da Silva, Rosália Lemos, Helena Theodoro, Heloisa Marcondes, Hildésia Medeiros, Joselina da Silva, Maria Beatriz Nascimento, Neuza das Dores Pereira, Wania Sant’Anna dentre outras.

Amadurecida intelectualmente, Lélia publicou diversos artigos sobre “amefricanidade”. Com isso, Lélia trouxe uma nova perspectiva de análise para os estudos sobre identidade negra, sem perder o elo com o continente africano. Outro conceito fomentado, por ela, foi o “pretuguês”, tendo em vista a africanização da cultura brasileira, com ênfase no aspecto linguístico.

No final dos anos 1980, Lélia tornou-se integrante do Conselho Internacional do Memorial de Gorée, em Dakar, organização dedicada ao projeto de construção de um memorial aos africanos escravizados na ilha senegalesa que serviu como entreposto colonial do comércio escravista.

A década seguinte foi de surpresa e recolhimento para Lélia. De surpresa, porque ao retornar de uma viagem à África — continente no qual iniciou e concluiu seu ciclo internacional — descobriu que estava com uma diabete tipo B e o tratamento foi inevitável. Foi de recolhimento, porque a frustração com o movimento negro contribuiu para uma autorreflexão, tanto da sua vida pessoal quanto da militância.