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1 A Lei do Ventre Livre nº 2.040 foi promulgada no dia 28 de setembro de 1871, no Brasil, e vigorou até o fim da escravidão em 1888. O artigo primeiro da Lei versava que: ?os filhos de mulher escrava que nascerem no Império desde a data desta lei serão considerados de condição livre?. Vale lembrar que, desde 1850, por pressão da Inglaterra, o tráfico de africanos escravizados estava extinto, ainda que o comércio continuasse clandestinamente, até a Lei Áurea em 1888, a qual aboliu definitivamente o sistema escravocrata.



2 A 14 de outubro de 1934, promoveram-se eleições gerais, com disputa para os cargos de governador e por vagas para a Câmara Federal e as Assembleias Constituintes Estaduais. Bertha Lutz candidatou-se à Câmara Federal, mas não conseguiu ser eleita, alcançando a primeira suplência. No entanto, em todo o Brasil, nove mulheres foram eleitas deputadas estaduais. Dentre elas, três eram ligadas à Federação Brasileira Pelo Progresso Feminino (FBPF), onde ascenderam a postos de liderança e alcançaram visibilidade política suficiente para serem eleitas: Maria Luísa Bittencourt, eleita na Bahia; Lili Lages, em Alagoas; Quintina Diniz de Oliveira Ribeiro, em Sergipe; Antonieta de Barros, de Santa Catarina, e Maria do Céu Pereira Fernandes, do Rio Grande do Norte. Além destas, Maria Teresa Nogueira de Azevedo e Maria Teresa Silveira de Barros Camargo, por São Paulo; Zuleide Bogéa e Rosa Castro pelo Maranhão também conseguiram um mandato para as Assembleias de seus estados. Fonte: SCHUMAHER, Schuma &BRAZIL, Érico Vital (Orgs.). Dicionário Mulheres do Brasil: de 1500 até a atualidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000.


De um Belo Horizonte para uma cidade maravilhosa

Lélia de Almeida, seu nome de batismo, nasceu no dia 1º de fevereiro de 1935, em Belo Horizonte, capital de Minas Gerais. A décima sétima e penúltima filha de Dona Urcinda Seraphina de Almeida e seu Acácio Joaquim de Almeida.

Sua mãe, Dona Urcinda, nasceu no Espírito Santo, filha de Deolinda Serafim dos Anjos e José Serafim dos Anjos, em 29 de março de 1898, de origem indígena, do lar e analfabeta. Seu pai, seu Acácio, era um homem negro, nascido na Lei do Ventre Livre1, e chefe de ferrovia.

Dona Urcinda casou-se com seu Acácio aos treze anos de idade contra a vontade de sua família, pois estava “prometida” para um italiano, louro de olhos azuis. No final do século XIX, o Estado financiou a vinda de imigrantes europeus — incluindo italianos — para suprir a mão de obra recém libertada e, há quem diga, para branquear a população. O destino deles variava entre São Paulo, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e Espírito Santo.

Não esqueçamos, também, que os casamentos eram arranjados pelas famílias.,Talvez por isso Dona Urcinda estivesse “prometida” a um italiano. Será que foi fácil para ela suplantar esses costumes da época para se casar com seu Acácio?

Isso não se sabe ao certo. Mas, apaixonados, casaram-se e permaneceram no Espírito Santo por algum tempo, onde nasceram seus primeiros filhos: Elisa (1913), futuramente cantora lírica e costureira da alta sociedade carioca; e Francisco (1915), funcionário chefe da Companhia Municipal de Limpeza Urbana do Rio de Janeiro (COMLURB).

O destino de um ferroviário era a estrada. Do Espírito Santo, foram transferidos para São Fidélis, Rio de Janeiro. Nesse Município, nasceram alguns filhos e filhas: Cacilda (1917), carinhosamente chamada pelos/as sobrinhos/as de Tia Caçula, uma mulher do lar; Alfredo (1919), mecânico, falecido na década de 1950; Jayme (1921), jogador de futebol do Flamengo; Bráulio (1923) que também faleceu jovem; e, por fim, Acácio (1925) que foi para a Segunda Grande Guerra, retornando com sequelas. Com o crescimento industrial, as metrópoles receberam um grande número de trabalhadores. Nessa ocasião, a família Almeida seguiu para São Paulo, cidade que, nos anos 1920, contabilizava 580 mil habitantes. No pouco tempo que viveram nessa cidade, nasceu Nair (1927), futuramente auxiliar de enfermagem e parteira na cidade de Petrópolis, RJ. Em seguida, seu Acácio foi transferido para o Rio de Janeiro e, numa breve temporada, nasceu a carioca Lígia (1929), do lar, última a falecer, no ano de 1998.

Da cidade maravilhosa, seguiram para Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, onde nasceram: Maria das Dores, a Dora (1931), do lar; Sebastião, Tio Tião (1933), jogador de futebol do Flamengo; Lélia (1935) e, por fim, Geraldo (1937), motorista, que trabalhou para o governo do Paraná e morreu por lá. No total, Dona Urcinda engravidou dezoito vezes, mas perdeu cinco filhos/as ao longo desse processo. Todos/as nasceram em casa, com o auxílio de uma parteira.

Com o fim da República Velha e a ascensão de Getúlio ao poder, a década de 1930 inaugurou a era Vargas, até o ano de 1945. Foi um período em que as mulheres conquistaram o direito de voto, introduzido no Código Eleitoral de 1932, instaurando uma nova fase na cultura política brasileira. As eleições para Assembléia Nacional Constituinte de 1933 garantiram o alistamento das mulheres como eleitoras e candidatas. A Constituição de 19342 consagrou o princípio da igualdade entre os sexos, o direito do voto feminino, além de introduzir garantias de proteção ao trabalho da mulher. Até então, as medidas de Getúlio Vargas traduziam um poder democrático e consolidavam um Estado de Direito.

No entanto, em 1937, o presidente, apoiado por setores sociais conservadores, transmitiu, pelo rádio, a “nova ordem” do país conhecida como Estado Novo, instaurando um regime autoritário. Dentre as medidas tomadas: os parlamentos foram fechados, as eleições livres foram suspensas e as ações dos movimentos sociais foram suprimidas, inclusive do movimento de mulheres.

No âmbito econômico, foi um período de construção de novos centros industriais. Em Belo Horizonte, a construção da Pampulha foi um dos apogeus da arquitetura de Oscar Niemeyer. A capital mineira crescia e fervilhava com a indústria cinematográfica. A década de 1930 assistiu a estréia de grandes produções estrangeiras, como: King Kong (Merian C. Cooper, 1933); Aconteceu naquela noite (Frank Capra, 1934); Tempos Modernos (Charles Chaplin, 1936), dentre outras.

Com a transmissão do som nas reproduções, as salas de cinema tiveram que se modernizar. Foi uma fase de ouro para o cinema, sem contar, o burburinho que o público fazia na sala de espera. O Cine Brasil, uma das maiores salas de exibição da capital mineira, foi um marco na vida cultural e social da cidade.

Além de filmes internacionais, eram exibidas produções nacionais. Os diretores Wallace Downey, João de Barros e Alberto Ribeiro investiram na temática do Carnaval e produziram o musical “Alô Alô Brasil!” com Carmem Miranda, Ary Barroso, Aurora Miranda, Dircinha Batista, dentre outras personalidades no elenco.

Os avanços dos meios de transporte e da comunicação integravam todas as regiões do país. A busca por melhores oportunidades de emprego atraiu grande parcela da população brasileira às metrópoles, sobretudo Rio de Janeiro e São Paulo.

A família Almeida não fugiu à regra. Jayme, irmão de Lélia, era jogador de futebol do Atlético Mineiro e recebeu um convite para jogar no time carioca Flamengo. A capital da República era o destino desejado por muitos. Com isso, no ano de 1942, todos migraram para a cidade maravilhosa, inclusive seus pais, e foram morar no bairro do Leblon. Mas, nem tudo são flores. Seu Acácio, já com certa idade, faleceu assim que chegaram.