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7 O mote da "democracia racial" foi consolidado, na década de 1930, com a publicação da obra Casa Grande & Senzala do pernambucano Gilberto Freyre. Nela, o autor reforçou a suposta “cordialidade” em que viviam as três raças consideradas fundantes da identidade nacional brasileira: brancos, negros e índios. Na década de 1950, o sociólogo Florestan Fernandes desconstruiu essa teoria ao afirmar que o preconceito no Brasil é de cor e opera em termos de classe. Segundo o pensador, desde o período colonial, está enraizada na sociedade brasileira a ideia equivocada de que os sujeitos brancos e negros devem ocupar “lugares” distintos. Embora combatido academicamente como uma estratégia das elites de manter o status quo, o “mito da democracia racial” ainda está presente no imaginário da sociedade brasileira e é considerado um dos grandes obstáculos da luta antirracista



8 FELIPPE, Ana Maria. Para (re) ver Lélia Gonzalez. Revista Eparrei, 1º semestre/2003, Ano II – nº 04. Publicação da Casa de Cultura da Mulher Negra — Santos/SP.



9 Abdias do Nascimento (1914–2011) foi uma das grandes lideranças do movimento negro no século XX. Em 1944, fundou o Teatro Experimental do Negro, no Rio de Janeiro, uma entidade que — através de aulas de iniciação cultural e alfabetização, artes cênicas e concursos de estética — tinha como objetivos combater o racismo na nossa sociedade e exigir o reconhecimento de uma identidade negra.



10 A Constituição Federal Americana sempre garantiu a igualdade entre os cidadãos, mas também a autonomia dos estados. Com isso, valendo-se desse direito, alguns aprovaram leis segregacionistas, nas quais os negros eram proibidos de frequentar as mesmas escolas que os brancos, certos estabelecimentos e até votar. A Ku Klux Kan — uma organização racista, que pregava a supremacia branca — reagia violentamente contra negros/as que ousassem contestar o regime segregacionista.



11 Para uma melhor apreciação ler: COSTA, Carina Gotardelo Ferro da & SERGL, Marcos Julio. A música na ditadura militar brasileira — análise da sociedade pela obra de Chico Buarque de Holanda. Disponível em: ftp://ftp.usjt.br/pub/revistaic/pag35_edi01.pdf Acessado em...

Buscando suas origens...

O despertar de Lélia para o racismo na sociedade brasileira e para sua condição de mulher negra não ocorreu do dia para noite. Alguns fatores contribuíram para isso, mas talvez um tenha sido determinante. A experiência da discriminação, sobretudo em seu casamento, mostrou para ela as diversas faces do racismo, camuflado no discurso da “democracia racial”7. Além disso, sua vivência na academia — um “lugar” hegemonicamente branco — passou a ser objeto de reflexão, uma vez que, lá, era considerada “aquela pretinha legal, muito inteligente”, características não compatíveis, historicamente, com uma mulher e negra. O “lugar” reservado para ela era a cozinha, cenário tipicamente colonial.

Essas contradições começaram a aparecer quando Lélia percebeu que era uma pessoa de cuca embranquecida e que desconhecia qualquer teoria sociológica, além da ocidental européia. Para se reconciliar com suas origens de mulher negra, Lélia buscou os estudos da psicanálise lacaniana e do candomblé — religião de matriz africana.

Nessa época, a literatura africana foi privilegiada por ela, em detrimento dos filósofos ocidentais. Segundo a amiga Ana Maria Felippe (2003), “Lélia lia tudo e sabia o suficiente sobre Hegel, por exemplo, para chamá-lo de ‘cretino’, porque esse dizia que África não tinha história”8.

Com toda essa criticidade, aliada, também, a acontecimentos nacionais e internacionais, Lélia começou a enegrecer, e seu corpo tornou-se um território político. Sua cabeleira Black, suas roupas coloridas e sua atitude traduziam a resistência negra.

INTER

A questão racial estava em pauta. No Brasil, lideranças, com Abdias do Nascimento9, desde a década de 1940, exigiam publicamente o reconhecimento de uma identidade negra. Por conta do Ato Institucional nº 05, em 1968, Abdias exilou-se nos Estados Unidos. Nesse país, desde a década de 1950, pipocavam iniciativas por parte dos negros americanos, os quais reivindicavam direitos civis igualitários. Um dos episódios marcantes dessa época foi a prisão da costureira negra Rosa Parks, que se recusou a ceder o seu lugar no ônibus para um homem branco10.O pastor Martin Luther King, um dos maiores porta-vozes dessa luta, organizou um boicote no sistema de transporte por 381 dias, em apoio a ela. Na África do Sul, Nelson Mandela, principal expoente do movimento contra o apartheid, estava preso na Ilha do Cabo, gerando uma série de manifestações em seu país e mostrando ao mundo a política segregacionista imposta pelo colonizador.

O governo militar brasileiro tinha suas estratégias, nada pacíficas, para manter o controle e a ordem social. Por outro lado, o movimento estudantil fervia insatisfeito com a política imposta. Um grupo sequestrou o embaixador americano Charles Burke, no Rio de Janeiro, e exigiu a libertação de presos políticos. Ou seja, aqueles que eram contra o regime também se articulavam de alguma forma. A música era, dentre outras, uma forma de contestação: “(...) Nesse período, o movimento musical é intensificado com a chamada Era dos Festivais. As canções de protesto adquirem importância, ocupando o papel de contestadoras da sociedade. Muitos são perseguidos pela ditadura nessa época (...)”11.

O V Festival Internacional da Canção, em 1970, no Rio de Janeiro, trouxe o ator negro Tony Tornado, que interpretou a canção BR3, de autoria de Tibério Gaspar e Antonio Adolfo, acompanhado do Trio Ternura. O ator fez o maior sucesso com suas roupas, suas danças e seu estilo. Ele havia recém-chegado de uma temporada nos Estados Unidos e divulgou a estética da resistência negra norte-americana.

Nesse período, Lélia começou a se envolver com a militância dos movimentos negros, motivada por amigos. Sua estética mudou radicalmente. Segundo Ana Maria Felippe (2003): “Nessa hora encontro uma Lélia muito mais negra: assumida, com cabelo Black e muito mais radical. Toda aquela gana de seriedade e exigência se exacerbou!”.