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39 Mulher Negra tem História: imagens de Lélia Gonzalez. In. Revista Eparrei. Ano II, nº 04, Santos: Casa de Cultura da Mulher Negra, 2003.


40 NASCIMENTO, Elisa Larkin. Lélia Gonzalez: mulher negra soberana. Disponível em: www.afirma.inf.br


41 Rede de Desenvolvimento Humano, Caixa Econômica Federal, Secretaria Especial de Políticas para as mulheres — SPM.

Homenagens póstumas

Ao longo destes dezoito anos, Lélia tem sido homenageada por sua produção intelectual e incansável militância nos movimentos negro e feminista. No ano de 2003, a ONG Geledés — Instituto da Mulher Negra, coordenado por Nilza Iraci, Sonia Maria Pereira, Solimar Carneiro, Sueli Carneiro, dentre outras — criou o “Centro de Documentação Lélia Gonzalez”.

Nessa ocasião, o cenógrafo Marcio Meirelles, em parceria com a Cia. dos Comuns dirigida por Hilton Cobra, montou a peça teatral “Candaces: a reconstrução do fogo”, o nome em homenagem às rainhas do baixo império etíope. No catálogo de apresentação da encenação, assinado por Néia Daniel, Lélia é lembrada como uma dessas guerreiras.

A amiga e parceira, de longa data, Ana Maria Felippe criou o site: http://www.leliagonzalez.org.br, para organizar e divulgar os escritos e principais ideias de Lélia Gonzalez. Nele, encontramos textos, artigos e entrevistas de sua autoria; como também, teses, dissertações, comunicações sobre sua história e pensamento.

A Revista Eparrei — um periódico da Casa de Cultura da Mulher Negra, Santos/SP — resgatou a trajetória de vida e militância de Lélia Gonzalez, com a contribuição de amigos e parceiros de ativismo que com ela conviveram:

“(...) falar de Lélia, é falar de determinação, de enfrentamento e de aliança com as propostas muitas vezes polêmicas definidas por nós. (...) Vivemos hoje sem Lélia, mas nunca podemos esquecer o que ela foi para todas nós, mulher, corajosa, intelectual brilhante e uma companheira inestimável (Rosália Lemos — Coordenadora Geral de Diversidades do IFRJ)”.

“Sempre quando penso em Lélia me vem aquele sorriso escancarado de quem, apesar das dificuldades vivenciadas pelo preconceito racial e de gênero, tinha tanto orgulho de ser mulher e negra, quanto convicção do seu papel de protagonista na história do movimento negro e feminista (Jurema Batista — ex Deputada Estadual pelo PT)”.

“(...) Lélia elaborou uma reflexão histórica de como o ‘povo brasileiro’, o ‘povo negro’, a ‘mulher negra’ constituíram-se personagens de outra história (Elizabeth Viana — ativista e cientista social)”.39

No ano seguinte, 2004, dez anos após o seu falecimento, ela recebeu o reconhecimento oficial da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro — ALERJ, com o Diploma Mulher Cidadã Leolinda Daltro, concedido pela Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher. A premiação homenageou mulheres que tiveram significativa contribuição na defesa dos direitos das mulheres e nas questões de gênero. Cabe ressaltar que foi a estréia do prêmio, o qual já se encontra em sua 9ª edição.

As contemporâneas de Lélia, como Sueli Carneiro, Nilma Bentes, Benedita da Silva, Joselina da Silva, Luiza Bairros, Rosália Lemos, dentre outras, não poupam palavras ao expressarem sua admiração por ela. Mesmo aquelas que conheceram sua história recentemente, assumiram a luta antirracismo como um compromisso de vida. Para muitas militantes jovens, Lélia tornou-se uma inspiração.

A historiadora Raquel Barreto — autora de um estudo comparado entre Lélia e Angela Davies — prestou algumas homenagens a ela. Uma delas foi um encontro na UERJ — instituição em que Lélia estudou e lecionou — que contou com a presença de lideranças negras, como Abdias do Nascimento, Magali Almeida, Elizabeth Viana, Néia Daniel, dentre outras.

— compartilhou com o público um episódio que vivenciou com Lélia, quando juntas partiriam para o Ato Público, que deu origem ao MNU: “Não esqueço nunca o dia 7 de julho de 1978 e nossa ida a São Paulo para participar do ato público de denúncia contra o racismo nas escadarias do Teatro Municipal que daria início ao processo de fundação e organização do MNU. Da casa de Lélia, saímos de carro para o aeroporto Santos Dumont, e começou a dar problema no motor... morria, parava, conseguia andar de novo, até que parou outra vez e Lélia, decidida, falou ’Deixa esse calhambeque aí e vamos nessa!’Pegamos um táxi para a ponte aérea e o resto é história”.40

Obviamente que nem tudo é glamour, Lélia passou por muitos espinhos e atropelos, mas com sua garra e firmeza consagrou-se a pioneira do feminismo negro no Brasil. No âmbito acadêmico, ela é uma referência teórica obrigatória nesses estudos, assim como Maria Beatriz Nascimento e Neusa Santos Souza, as quais contribuem com outras perspectivas de análise.

Em 2010, os pesquisadores Alex Ratts e Flavia Rios publicaram uma biografia de Lélia, que faz parte da Coleção Retratos do Brasil Negro, cujo objetivo é resgatar a vida e a obra de personagens centrais na história da militância negra.

O Programa “A Cor da Cultura”, realizado pelo Canal Futura, Petrobras, Centro de Informação e Documentação do Artista Negro (Cidan), TV Globo e Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), — veículo fundamental na valorização da cultura afro brasileira, criou a série Heróis de Todo Mundo, na qual trinta personalidades negras, atuantes nos aspectos político, social e cultural, são contempladas, dentre elas: Lélia Gonzalez. Na voz de Sueli Carneiro, sua intérprete na série, relembramos um pouco dessa grande mulher: “Você quer saber, a cultura negra não é só o samba, o pagode e o funk. Ela está é no ‘pretuguês’ que falamos, e transformou a língua e toda a nossa cultura. Sou Lélia Almeida Gonzalez. Sou uma cidadã negra brasileira”.

Em reconhecimento ao papel exercido por Lélia e por outras, que lutaram pela igualdade de direitos, a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres do Governo Federal, em parceria com outros órgãos,41 criou o Calendário Mulheres no Palco da História.

Não foi à toa, que seu nome foi escolhido para compor o Projeto Memória da Fundação Banco do Brasil. Uma mulher que enegreceu a academia, o movimento feminista e introduziu as questões de gênero no movimento negro merece esta homenagem, para que seu legado continue florescendo e fortalecendo as agendas políticas contra o racismo e sexismo, suas principais bandeiras de luta.

A mais recente homenagem à memória de Lélia Gonzalez foi concedida no VII Congresso Brasileiro de Pesquisadores Negros, realizado entre os dias 16 e 20 de julho de 2012, em Florianópolis/Santa Catarina. Abdias do Nascimento e Vicente Francisco do Espírito Santo (in memoriam) – importantes lideranças negras do século XX – também foram prestigiados no evento. O filho de Lélia, o Manéu, recebeu as honrarias das mãos de Luiza Bairros, Ministra-Chefe da SEPPIR.