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37 GOMES, Flávio dos Santos. Uma tradição rebelde: notas sobre os quilombos na capitania do Rio de Janeiro (1625-1818). Disponível em: http:// www.afroasia.ufba.br/pdf/afroasia_n17_p7.pdf



38 GONZALEZ, Lélia. A mulher negra na sociedade brasileira. In. MADEL, Luz. O lugar da mulher: estudos sobre a condição feminina na sociedade atual. Rio de Janeiro: Graal, 1982.

A contribuição de Lélia para os estudos de raça e gênero

No âmbito acadêmico, a partir das décadas de 1970/80, houve uma releitura da historiografia brasileira sobre escravidão. De acordo com o estudioso Flávio Gomes, essa revisão crítica: “(...) dedicada ao estudo da resistência negra, procurou privilegiar o enfoque sobre os quilombos e insurreições”.37 Nesse período, destacamos as contribuições de duas historiadoras negras: a mineira Lélia Gonzalez e a sergipana Maria Beatriz Nascimento.

Lélia foi pioneira ao denunciar, publicamente, a situação da mulher negra na sociedade brasileira. Na década de 1980, com a publicação de um artigo no livro O lugar da mulher, propôs uma reinterpretação da figura da Mãe Preta. Segundo Lélia:

Tanto a “Mãe Preta” quanto o “Pai João” têm sido explorados pela ideologia oficial como exemplos de integração e harmonia raciais, supostamente existentes no Brasil. Representariam o negro acomodado, que passivamente aceitou a escravidão e a ela correspondeu segundo a maneira cristã, oferecer a outra face ao inimigo. Entretanto, não aceitamos tais estereótipos como reflexos “fiéis” de uma realidade vivida com tanta dor e humilhação. Não podemos deixar de levar em consideração que existem variações quanto às formas de resistência.38

Lélia aprofundou essa questão, afirmando, em diversos artigos e entrevistas, que a Mãe Preta ao exercer a função materna foi responsável pela africanização da cultura brasileira, com ênfase no aspecto linguístico. Para ela, nosso idioma era o “pretuguês”. Além desta, criou também a categoria “amefricanidade”.

Com novas perspectivas de análise, buscou em sua atuação reinterpretar e reconstruir a história do Brasil sob a ótica da mulher negra. No movimento feminista, sua contribuição foi a introdução da questão racial nas suas agendas políticas. Até então, as especificidades das mulheres negras não eram contempladas. Essa dificuldade para lidar com a diversidade era um desafio, também, para o movimento negro, tendo em vista que as questões de gênero não estavam no centro do debate. Com isso, recorrendo à filósofa Sueli Carneiro: “Lélia enegreceu o movimento feminista e feminizou a raça”.

No entanto, a importante trajetória desta mineira de alma carioca é desconhecida por grande parcela da população brasileira. Desde o seu falecimento, no ano de 1994, estudiosos e militantes têm batalhado para resgatar sua memória e organizar seu pensamento. Cabe destacar algumas publicações sobre sua vida e obra:

BAIRROS, Luiza. Lembrando Lélia Gonzalez. Disponível em: http://www.afroasia.ufba.br/pdf/afroasia_n23_p347.pdf

BARRETO, Raquel de Andrade. Enegrecendo o feminismo ou feminizando a raça: narrativas de libertação em Ângela Davis e Lélia Gonzalez. Mestrado em História (Dissertação). Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, 2005. Disponível em: http://www2.dbd.puc-rio.br/pergamum/biblioteca/php/mostrateses.php?open=1&arqtese=0310340_05_Indice.html

RATTS, Alex. As amefricanas: mulheres negras e feminismo na trajetória de Lélia Gonzalez. Comunicação apresentada no Fazendo Gênero 09: Diásporas, diversidades e deslocamentos, Santa Catarina, 23 a 26 de agosto de 2010. Disponível em: http://www.fazendogenero.ufsc.br/9/resources/anais/1278274787_ARQUIVO_Asamefricanas.pdf

_____. Os lugares da gente negra: raça, gênero, espaço no pensamento de Beatriz Nascimento e Lélia Gonzalez. Comunicação apresentada no XI Congresso Luso Afro Brasileiro de Ciências Sociais, Salvador, 07 a 10 de agosto de 2011. Disponível em: http://www.xiconlab.eventos.dype.com.br/resources/anais/3/1308498461_ARQUIVO_Ratts_Os_lugares_da_gente_negra.pdf

RATTS, Alex & RIOS, Flávia. Lélia Gonzalez. São Paulo: Selo Negro, 2010.

VIANA, Elizabeth do Espírito Santo. Lélia Gonzalez e outras mulheres: pensamento feminista negro, antirracismo e antissexismo. Disponível em: http://www.abpn.org.br/Revista/index.php/edicoes/article/download/.../14

_____. Relações Raciais, Gênero e movimentos sociais: o pensamento de Lélia Gonzalez 1970-1990. Mestrado em História Comparada (Dissertação). Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS/UFRJ), 2006. Disponível em: http://www.cipedya.com/web/FileDownload.aspx?IDFile=162343