Essas revistas, lidas, relidas, alisadas no excelente papel couché, fizeram minha iniciação literária, muito imperfeita mas decisiva. Guardo até hoje visualmente de cor, por assim dizer, páginas e páginas das duas. Sei a posição das gravuras, os títulos das matérias. 1

Drummond, Tempo vida poesia

As revistas foram fundamentais para a formação literária de Carlos Drummond de Andrade, ainda menino. As primeiras leituras foram feitas nas páginas coloridas das publicações vindas principalmente do Rio de Janeiro e de São Paulo. Nessas revistas, o escritor conheceu a literatura consagrada à época: os últimos resultados de um simbolismo já enfraquecido, os sonetos do aclamado Olavo Bilac, narrativas de aventura. As publicações vindas dos grandes centros culturais do País não apenas instigavam o prazer da leitura; representavam também a saída do isolamento e da monotonia da vida interiorana.

As leituras infantis gravaram-se na memória de Carlos Drummond de Andrade, por seus temas, pelo prazer propiciado de se ir além da árida paisagem itabirana, pelas formas e cores das páginas ilustradas. Quando adulto, Carlos tornaria uma delas em especial parte importante de sua obra: a narrativa de Robinson Crusoé, lida nas páginas em quadrinho da O Tico-Tico. A ilha e o náufrago seriam, já no livro de estreia, a imagem mais marcante da oscilação entre comunhão e isolamento na obra do escritor.

Não apenas na poesia e na prosa, as revistas participam desse movimento de expansão e retraimento. Graças a esse gênero de publicações, Carlos Drummond de Andrade rompeu o círculo estreito a que estava restrito em Belo Horizonte. Em princípios da década de 1920, o escritor já publicava seus primeiros textos em importantes periódicos cariocas, como Careta, Ilustração Brasileira e Para Todos.

Na mesma década, em 1925, Carlos Drummond de Andrade e outros modernistas mineiros lançaram A revista, publicação de vanguarda que tinha por fim divulgar para o País as ideias do grupo de jovens intelectuais de Belo Horizonte. Mais uma vez, a imprensa periódica permitia o rompimento dos limites do estado. Na publicação, colaboraram escritores de renome nacional, como Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Guilherme de Almeida, Ronald de Carvalho e Onestaldo de Pennafort. Dessa forma, o modernismo de importância nacional era atraído para Minas Gerais.

O movimento oposto, de avanço de Minas até os grandes centros culturais do Brasil, também foi realizado por Drummond: alguns de seus textos foram divulgados nas mais importantes revistas modernistas brasileiras, algumas delas dirigidas por poetas convidados a comparecer às páginas de A revista. Por meio das publicações de vanguarda, Carlos Drummond de Andrade ia se fazendo conhecer para além de seu estado natal. Mais do que isso: participava da importante tarefa conjunta de renovar as letras nacionais. Já não se tratava de se iniciar na literatura, mas de começar nova escrita literária em um país em grande medida ainda conservador. Os resultados do diálogo com outros modernistas se fariam sentir nos novos rumos dados à literatura brasileira e à escrita de Carlos. A novidade estaria impressa em livro, em 1930, após a estreia nos periódicos renovadores.

1. ANDRADE, Carlos Drummond de. Tempo vida poesia: confissões no rádio. 3 ed. Rio de Janeiro: Record, 2008. p. 27-28.