[...]
Somos todos funcionários.
Assina o ponto da vida,
poesia; depois, recolhe
o justo salário, o prêmio
de não varar a capoeira
na direção do mistério,
de esquecer o jeito nosso
de pegar onça no chumbo
e soletrar sem temor
os caminhos dágua do
São Francisco e Rio Doce.
Acabou-se,
eis que só há um caminho:
repartição.
[...]

Drummond, “Canção funcionária mineira”. Texto inédito1

Carlos Drummond de Andrade foi funcionário público por mais de 40 anos. Iniciou a carreira burocrática nos órgãos estatais mineiros em 1929, quando trabalhou para a imprensa oficial no Minas Gerais. Um ano depois, começaria a atuar na posição privilegiada que ocupou durante grande parte de sua permanência nos órgãos burocráticos: aproximou-se das altas esferas do poder público como auxiliar de gabinete da Secretaria do Interior de Minas Gerais, comandada por Cristiano Machado. A partir de então, suas relações com o Estado se tornariam ainda mais estreitas. No mesmo ano, Carlos foi alçado ao posto de oficial de gabinete da secretaria, quando dirigida por Gustavo Capanema, seu amigo desde a adolescência. Ainda na década de 1930, o companheiro político conduziu Drummond para o cerne do Estado brasileiro. Nomeado chefe de gabinete do Ministério de Educação e Saúde Pública em 1934, Carlos Drummond viu-se partícipe de um governo que rejeitaria crescentemente ao longo dos anos 1930 e 1940: o de Getúlio Vargas.

A ambiguidade não foi exclusiva do escritor: muitos intelectuais brasileiros foram empregados em órgãos públicos, mesmo quando discordavam intimamente das políticas empreendidas.

Drummond entre os pilotis do Palácio Capanema em 1973 <span>Acervo Carlos Drummond de Andrade - AMLB/FCRB</span>
Edifício do Ministério da Educação e Saúde no centro do Rio de Janeiro <span>Fundação Getulio Vargas - CPDOC</span>

Dessa forma, a burocracia propiciou a muitos a tranquilidade financeira que lhes permitiria levar adiante suas obras. O rigor e a monotonia das tarefas burocráticas opuseram-se antes à “direção do mistério” apontada pela poesia do que à atividade literária.

O caso de Carlos Drummond é significativo da importância dos empregos públicos entre os escritores modernistas. Após mais de uma década como funcionário do MEC, em 1945, o autor se demitiu do cargo no governo Vargas por desejar se opor de forma mais direta à ditadura. Ao emprego burocrático, sucedeu-se um novo cargo público, agora nas fileiras do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), dirigido pelo amigo Rodrigo Melo Franco de Andrade. Desse cargo, Carlos sairia apenas quando se aposentasse, em 1962. Aparentemente, havia um só caminho, ou um percurso privilegiado: a repartição.


1. O original está preservado no Arquivo-Museu de Literatura Brasileira. No documento, lê-se esta indicação em caixa-alta: “O JORNAL/ RIO/ PUBLICADO COM PSEUDÔNIMO/ TEXTO REMANEJADO.”