“Sinto-me um pouco sem assunto todas as vezes que alguém me pede para contar minha vida. Por dois motivos: primeiro, porque minha vida é realmente pobre de acontecimentos, do ponto de vista da história de quadrinhos, da biografia política ou pitoresca; segundo, porque o que há nela de assunto já está contado tão claramente em meus livros, que não sobra nada para a conversa. Se sobrasse, não deixaria de aproveitá-lo para mais alguns versinhos... Minha poesia é autobiográfica. Até nem sei como costuma fazer tanto barulho em certos círculos. Podem não gostar dela por ser má, porém incompreensível, é exagero. É uma confissão, talvez a primeira forma de uma obra literária, obra ainda em bruto, insuficientemente transformada em criação artística.

Assim sendo, quem se interessar pelos miúdos acontecimentos da vida do autor, basta passar os olhos por esses nove volumes que, sob pequenos disfarces, dão a sua ficha civil, intelectual, sentimental, moral e até comercial... [...]”

Entrevista concedida ao Jornal de letras em março de 1955.

A vida de Carlos Drummond de Andrade deixa marcas em sua obra: vestígios, rastros, alguns caminhos traçados pela memória. Encontramos, na poesia e na prosa, histórias de família, registros do trabalho, homenagens a amigos. Por isso, podemos recorrer à obra para conhecer fragmentos da vida de Drummond. No entanto, na literatura a vida não é contada tão claramente como quer o poeta. Os fatos fazem parte da obra literária: são transformados por ela. Dessa forma, confundem-se a vida pobre de acontecimentos e a riqueza da escrita de Drummond. A vida civil, intelectual, sentimental, moral, comercial pode ser apenas entrevista nos mais de 30 livros do autor. A confissão revela antes um problema do que as soluções.

O conhecimento da biografia do escritor, registrada não apenas em sua obra, ajuda a desvendar um pouco mais a história desse homem, que assumiu diferentes disfarces. A infância, a mocidade e a vida adulta foram vividas em diversos âmbitos: Drummond foi homem de família, esteve cercado por amigos, foi funcionário da burocracia brasileira, escreveu em jornais e revistas, publicou diversos livros (muitos mais do que os nove mencionados na entrevista de 1955), foi desenhista amador, participou de programas de rádio, frequentou o cinema e esteve em alguns filmes, tornou-se monumento após sua morte.