“Nas cartas que escrevo costuma insinuar-se o rascunho da grande carta (grande? ou conterá só duas linhas?), mas bem sei que não adianta rascunhar o que não pode ser previsto e menos ainda planejado. Ou a carta se faz espontaneamente na brancura da folha, tão imperativa que só me resta assiná-la, ou todo o meu empenho literário de reunir as expressões mais adequadas resultará na caricatura de um documento que independe de estilização e mesmo a repele. A correspondência da vida inteira torna-se o esboço inútil de uma única peça postal que não tenho aptidão para compor, e não me é ditada, mas que exige ser escrita.

Estamos nisto, eu e a minha carta, já concreta, palpável, legível de tão imaginada: em sua plenitude branca.”

Drummond. Projeto de carta, Os dias lindos

Ao longo da vida, Carlos Drummond de Andrade reuniu um grande acervo de cartas, cartões, bilhetes e telegramas. Os textos, remetidos por amigos ilustres ou desconhecidos, foram preservados todos (ou quase) com o mesmo zelo. Fragmentos da correspondência enviada por Carlos também se conservaram em arquivos pessoais. Nos manuscritos observam-se os traços do homem comum, às voltas com as exigências práticas do cotidiano. Sob os tipos dos bilhetes aos chefes e colegas é registrada parte da história política nacional: vestígios da dedicação do escritor à burocracia brasileira. Nas cartas aos amigos intelectuais, revelam-se a projeção da obra de Carlos Drummond e a construção da literatura brasileira no século XX. Ainda mais: nos papéis já envelhecidos, insinua-se a busca por comunhão (a correspondência impossível), de que as cartas se tornaram um símbolo na obra literária do escritor. A correspondência grafa trechos da obra, da vida.