Navegar é preciso… e surgiu "o Navegador".
a História Universal, só uma figura é conhecida pelo epíteto de
"O Navegador" - o Infante D. Henrique. Esse epíteto deriva, não do fato de
ele ter navegado por "mares nunca dantes navegados" - o que seria de se
supor - mas sim de os ter mandado navegar pelos seus servidores. Talvez o
mais correto seria chamá-lo de "O Descobridor", ou mesmo, como se lhe
referiu o seu sobrinho-neto, o rei D. João II, em 1490, "o Inventor" dos
Descobrimentos, no sentido de
|
|
ter iniciado o processo que permitiu o
conhecimento das formas do Mundo.
O terceiro filho legítimo de D. João I nasceu em 4 de Março de 1394 no
Porto - cidade que está na origem da denominação de Portugal - e
revelou-se a figura chave na abertura do fenômeno histórico que fez
ecoar o nome do país por todo o Mundo.
D. Henrique desempenhou um papel importante na decisão que levou à tomada
de Ceuta, em 21 de Agosto de 1415, e teve uma ação de destaque nas
operações militares então levadas a cabo. Após a conquista da cidade, foi
armado cavaleiro e recebeu os títulos de Duque de Viseu e senhorio da
Covilhã. Em 1420, foi nomeado governador e administrador da Ordem de
Cristo, o que foi de grande utilidade nos Descobrimentos, pois foi, em
parte com recursos próprios
|
|
e em parte com os de homens ligados à Ordem,
que D. Henrique reuniu os meios econômicos necessários para as
primeiras
investidas no Oceano.
As únicas navegações que realizou fora de Portugal foram motivadas por
interesses militares e dirigiram-se a territórios bem conhecidos do
extremo norte de Marrocos. A primeira viagem que fez foi em 1415, quando
tomou parte na conquista de Ceuta; em 1419 participou de uma expedição
para a defesa de Ceuta, que havia sido cercada pelos mouros; a terceira
viagem foi ao estreito de Gibraltar, para comandar um exército que, sem
sucesso, tentou conquistar Tânger em 1437; a quarta e última foi quando
deixou o seu retiro de Sagres, em 1458, para integrar o exército de D.
Afonso V para conquistar a cidade de Alcácer Ceguer.
Ao considerarmos as multifacetadas atividades do primeiro
|
|
Duque de Viseu,
devemos ter em conta que este fidalgo foi dotado de uma rara mentalidade
empreendedora, pois, além das benesses
anteriormente citadas, ele recebeu
muitas outras: o direito exclusivo no fabrico do sabão no país, direitos
sobre a pesca no rio Tejo e no Algarve, exclusividade na coleta de coral
e na produção do pastel, estabelecimento de moinhos na região de Santarém.
Esses proveitos derivaram das donatarias da Madeira e dos Açores. Também
obteve o controle das atividades na Guiné.
D. Henrique soube ligar os seus ideais tradicionais de Cruzada com
interesses inovadores na área econômica e no empenho em conhecer terras
e gentes desconhecidas dos europeus. Dotado de tenacidade e espírito de
iniciativa, a ele se deve o mérito de ter ordenado aos portugueses que
"vencessem receios antigos em navegar por mares
|
|
tenebrosos" e nunca de
antes navegados", para, dessa forma destruir as barreiras mentais que
impediam o progresso do
conhecimento e do relacionamento da Humanidade.
O Infante D. Henrique foi o responsável pelas primeiras iniciativas que
levaram ao conhecimento de terras para lá dos cabos Não e Bojador. Ele
deixou para a posteridade uma imagem de modernidade, ao desencadear em
processo tão inovador como os Descobrimentos.
Uma das formas pela qual se cristalizou e perpetuou o seu papel nesse
processo histórico foi a crença de que ele teria fundado em Sagres uma
escola náutica, na qual se ensinavam as artes da marinharia aos nautas que
fizeram os Descobrimentos. O Infante teria reunido, nesse local, um
conjunto de sábios que não só preparariam os navegadores, como o ajudariam
a planejar as viagens e a encontrar
|
|
soluções para a resolução dos
problemas científicos resultantes dos Descobrimentos. Ao pensarmos no
tempo do
Infante, verificamos que há, de fato, indicações reveladoras de
que ele se interessava pelo estudo dos astros; também não há, contudo,
indicação de que, em Sagres, ele tivesse criado um local onde se
realizassem estudos de qualquer natureza. O que sabemos sobre a história
de Sagres é que, só a partir de 1443, D. Henrique assinalou o seu
interesse por essa região. Tal fato está registrado na carta que o seu
irmão D. Pedro lhe passou nesse ano, autorizando-o a construir a vila que
ele queria nesse local ermo. Para isso lhe foi doada a extremidade do
sudoeste do Barlavento algarvio.
A noção muito divulgada de que Sagres teria sido um dos sítios de onde
saíam as caravelas dos Descobrimentos também não corresponde à realidade,
pois as informações que possuímos
|
|
indicam-nos que as viagens dos
Descobrimentos e de comércio nas décadas de 40 a 60 do século XV saíram
geralmente de Lagos, o principal porto algarvio onde se encontravam os
armadores interessados em tais viagens, e algumas vezes de Lisboa.
No tempo do Infante, os homens práticos nas coisas do mar, que pilotavam
as caravelas dos Descobrimentos, não tinham formação escolar ou teórica,
sendo a bordo que eles aprendiam as características das novas rotas que
iam traçando. O conhecimento do Mundo, que se tornou possível graças à
nova arte de navegar criada pela orientação astronômica, foi fruto de
observações empíricas dos homens que faziam as viagens de alto mar, depois
completado pela aprendizagem de uma Astronomia rudimentar e pela
utilização de quadrantes e astrolábios.
D. Henrique era um
|
|
homem prático, que, tendo uma cultura mediana,
revelou preocupações culturais importantes. Foi o "protetor" da
Universidade, que no seu tempo se situava em Lisboa e para a qual deu
instalações. É ele que está na origem da cartografia portuguesa, tendo
contratado os serviços do cartógrafo maiorquino Jácome de Maiorca,
responsável pela formação dos portugueses que iniciaram a cartografia
das terras descobertas. O Infante tinha ainda interesse pelo estudo dos
astros e protegeu médicos, conhecedores de tal arte. Pode-se destacar
ainda suas ações para experimentação de aclimatação de plantas, caso da
introdução da cana de açúcar e da vinha na Madeira.
A iniciativa mais relevante de D. Henrique, que faz dele uma figura
proeminente na História, foi o apoio e incentivo às viagens dos
Descobrimentos, suscitadas e estimuladas pela
|
|
sua curiosidade em
conhecer o Mundo, embora numa perspectiva teórica, na medida em que ele
não realizou viagens para as terras descobertas.
|
|