|
|

O MAR QUE QUEBRAVA NA COSTA
Romanceado nos parâmetros da época
Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada
Ilustrações Camila Mamede
O primeiro contato entre portugueses e os índios não incluiu troca de
palavras porque a rebentação das ondas era tão forte que se sobrepôs às
vozes humanas e abafou todos os outros sons. Mas, se alguém pensar que
isso perturbou a alegria do encontro, está muito enganado. O fragor das
águas em movimento funcionou, afinal, como música de fundo ou aplauso
da Natureza para festejar aquele instante de aproximação entre homens
que pertenciam a mundos diferentes.
Os índios pousaram arcos e flechas em sinal de paz e correram pela areia
molhada ao encontro dos botes, numa grande alegria. Os marinheiros
portugueses, deslumbrados com aquela gente de pele parda, cabelo negro e
olhos brilhantes como estrelas, riam felizes também. Num impulso de
simpatia, arrancaram da cabeça os barretes vermelhos, os carapuços, os
chapéus e ofereceram-nos de presente. Os índios retribuíram logo,
oferecendo seus toucados de penas coloridas e os colares de continhas
brancas que traziam no pescoço. Nada daquilo valia nada, só mesmo o gesto,
ofertas de amizade. No entanto, o capitão-mor Pedro Álvares Cabral ficou
encantado e decidiu enviar as peças ao rei juntamente com uma carta escrita
por Pero Vaz de Caminha a contar os pormenores da viagem e da descoberta
fantástica que acabavam de fazer.
Em Lisboa a encomenda tornou-se rapidamente centro de todas as conversas.
O rei D. Manuel I, embora estivesse habituado a receber navios carregados
de ouro, marfim e outras riquezas, maravilhou-se com as prendas dos índios.
Fez questão de que a carta fosse lida em voz alta diante da corte e quando
chegou àquela passagem que fala deste primeiro contato, tomou nas mãos o
toucado de penas e os colares de contas para mostrar às damas e aos
cavalheiros ali reunidos. Segundo consta, fez-se silêncio. Um silêncio
breve em que todos julgaram ouvir as ondas dos mares do sul quebrando na
costa.

|
|