TERRA DE VERA CRUZ

Romanceado nos parâmetros da época
Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada
Ilustrações Camila Mamede


Sentia-se um certo nervosismo a bordo. Os homens estavam cansados de irem ali fechados há quase um mês. Sempre as mesmas caras, sempre as mesmas tarefas, sempre o mesmo panorama, mar e céu, céu e mar, que monotonia!
O capitão-mor observava cautelosamente a tripulação, pronto a intervir se estalasse uma briga. Já dera voltas à cabeça para imaginar ocupações que pudessem distrair a sua gente mas não lhe ocorria nada porque na semana anterior ele próprio e o padre tinham esgotado as idéias para festejar a Páscoa. Missas, cânticos, procissões em todas as naus, umas de dia, outras de noite à luz de tochas, grandes cortejos circulando entre a proa e a popa do navio com os santos andores.
- Que fácil é entreter os homens na Páscoa! - concluiu o capitão-mor com um suspiro melancólico.
Mergulhado nos seus pensamentos não se apercebeu logo que vários marinheiros se tinham juntado à proa em grande algazarra. Quando eles começaram a gritar «botelho... botelho!... rabo de asno!», julgou que se insultavam. Precipitou-se a metê-los na ordem mas não chegou a abrir a boca porque lhe apontaram tufos de algas que boiavam adiante e um dos mais velhos informou: - Sinais de terra, capitão! Aquelas algas são botelho e rabo de asno, só existem perto da terra.
Tremia-lhe a voz e não percebiam se ria ou chorava, se punha em dúvida ou afirmava quando murmurou:
- Terra para estas bandas, que descoberta!
A bordo das outras naus já havia acenos frenéticos e todos os gestos continham uma única mensagem: «sinais de terra»!
Nessa noite quase ninguém dormiu e muitos se ofereceram voluntariamente para fazer um turno no cesto da gávea. A tensão desaparecera por completo, formavam-se grupos de conversa mais animados ainda do que pela ocasião da Páscoa. Corriam histórias, corriam risos e a expectativa crescia sem parar. Na manhã seguinte ao nascer do sol um bando de pássaros rasando a água veio confirmar a certeza risonha de que se aproximavam de uma terra nova, uma terra que ainda não figurava no mapa. No entanto só à tarde se ouviu o tão esperado grito.


- Terra à vista!
E então o horizonte definiu-se, ganhou a forma de um monte muito alto e redondo logo seguido de outros mais baixos que se estendiam até uma planície coberta de arvoredo, espantosa mancha verde ali no meio do mar. Os homens festejaram com abraços, palmas, palmadas nas costas. O capitão-mor Pedro Álvares Cabral, sem despegar da amurada, deslumbrava-se por viver um momento assim. No seu íntimo ecoava uma música tão alegre como o repicar dos sinos em domingo de Páscoa.
- Monte Pascoal - decidiu. - Aquele primeiro monte que avistamos vai chamar-se Monte Pascoal.
Apertando com força a cruz que trazia ao peito, acrescentou em pensamento:
- E a terra, a Terra de Vera Cruz!
Era quarta-feira, dia 22 de abril e corria o ano de 1500.

Será o Paraíso