Manuel Marques

abemos que, mesmo quanto à origem do nome Belmonte, há opiniões diferentes. Uns afirmam que é apenas pela beleza do monte visto de longe: (belo monte).
A razão, aqui, estaria ligada ao fato de ser um inselbergue (monte ilha), dos mais belos e característicos, numa das teclas formadas pelas fraturas efetuadas na descida do planalto da Beira Alta para a Cova da Beira, a Tecla da Gaia.
Será também pela beleza do panorama que de Belmonte se desfruta sobre toda a Cova da Beira e em redor, sobre a

vertente Nascente da Estrela, Vale do Zêzere, e pequenas serras sucessivas a Oriente e Sul, marcas velhas da geomorfologia típica da região.
Mas há, e é o mais comum, quem atribua a origem do topónomo Belmonte ao fato de este monte ter sido fortificado pelo menos com dois castelos, e talvez mesmo com um culto ao deus da guerra (por isso belli monte = Monte de Guerra), com templo ou não ao Deus da Guerra que nem pesquisas nem acaso até hoje identificaram. Bellimonte ( Monte da Guerra ) daria - Belmonte.
Belmonte passaria a designar o local onde se situa esta vila, enquanto a designação de Montes Crestados - provindo de Castrados (isto é, com castros), Crastados (por metátese), e depois Crestados ficaria ligada à Serra de Montes Crestados, depois da Esperança.

Talvez seja o mesmo tipo de evolução e a mesma razão histórica que chamam, no mesmo foral, Montes Crestadinos aos que se seguem na determinação dos limites referidos pelo forais de Belmonte.
…- De qualquer modo os Montes Crestados parecem estar ligados desde muito tempo à guerra e manifestações religiosas, cultos pré-romanos e depois romanos e até cristãos.
Belmonte, Monte de Guerra ou de Marte, ou Monte Santo, com templo ou sem templo, por quê?
Primeiro porque o espaço, aberto ao céu e ao sol e à fértil planície, assim como os cimos de montes que à volta se conhecem como fortificados, poderia ter sido utilizado como lugar de culto ainda antes dos romanos, quer a um deus da guerra quer a um deus da fertilidade, freqüente entre os povos lusitanos.

Depois porque, junto ao Castelo da Serra, ou talvez mesmo ainda dentro de um dos seus reforços de defesa, há um pequeno nicho, na concavidade de uma rocha e que, bem evidente, acentua ainda esta concavidade que é mesmo um pequeno e rudimentar abrigo natural, voltado para um espaço ainda bastante plano, apesar da erosão.
Esta é mais uma razão para que, um dia, se venham a fazer investigações arqueológicas no local.
Para já, e antes de dizer seja o que for dos Lusitanos, quero aproveitar para lembrar a sua religião, porque isso pode dar a idéia também do interesse que possa ter a investigação do Castelo da Serra e de outros.
Os Lusitanos adoravam muitos deuses. Adoravam a natureza nas suas manifestações e as forças da natureza: rios, fontes, bosques, montes, altos promontórios, ventos, locais dominadores

de espaços, espaços abertos ao céu, ao sol, aos astros.
Belmonte, ou Monte do Deus da Guerra, pode ter sido sacralizado ainda antes dos romanos.
E não termino sem fazer uma referência, e só referência, ao fato de, bem perto, no Ferro, se ter encontrado uma ara ao deus Arentius Ocelaecus, que, segundo J. Alarcão, "era certamente protetor de um povoado Ocellum", e que seria um deus dos autóctones.
O lugar não está tão longe da Serra da Esperança ou do Monte Santo, nem o nome da forma Santo Ocelo dado também a Centum Cellas por alguns autores, embora na verdade, a tradição deste topônimo, mesmo nas gentes do Colmeal da Torre, seja Cellas e não Ocelo, pela razão de uma tradição que atribui a idéia de prisão com cem celas à origem e função da Torre.


Vale do Zêzere