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A PRIMEIRA ETAPA DA GRANDE VIAGEM
Romanceado nos parâmetros da época
Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada
Ilustrações Camila Mamede
Os treze navios da armada de Pedro Álvares Cabral tinham largado do rio
Tejo há cinco dias quando, lá pelas nove horas de uma manhã luminosa,
surgiram na linha do horizonte os contornos de uma enorme rocha. Todos
os marujos de primeira viagem correram para a amurada excitadíssimos.
Que terra seria aquela?
- Estamos chegando às Ilhas Canárias - explicaram os mais velhos. - Mas
não se entusiasmem porque não desembarcaremos. Só em Cabo Verde vamos por
o pé em terra firme novamente.
A viagem prosseguiu, sem maiores novidades. No entanto, os impacientes,
os enjoados e os marinheiros de água doce não se cansavam de perguntar:
- Ainda falta muito?
As respostas eram evasivas.
- Nunca se sabe. Depende dos ventos, das marés e da sorte.
Pois ventos, marés e sorte estavam favoráveis. Uma semana depois de terem
passado pelas Canárias e num domingo, logo após a missa rezada pelo padre,
avistaram ao longe o recorte de outra ilha, desta vez montanhosa e escura.
- É São Nicolau - anunciou o piloto triunfante. - Entramos nas águas de
Cabo Verde.
Os navios tomaram rumo para ancorarem ao longo de uma pequena enseada. No
cais juntara-se muita gente, que acenava e ria, todos ansiosos para ver
quem vinha nos botes. Aquele encontro dava alegria tanto aos que ali
passavam, quanto aos que ali viviam. Foi um dia feliz, os viajantes
deliciando-se com frutas e água fresca, os residentes deliciando-se com
as novas notícias que chegavam.
Na madrugada seguinte, porém, que triste surpresa! Quando contaram as
naus, perceberam que faltava uma. Repetiram várias vezes a contagem,
sempre com o mesmo resultado: doze. Quem faltaria? E por que, se não tinha
havido nem sombra de tempestade? Faltava a nau de Vasco Ataíde. Quanto aos
motivos do desaparecimento, não puderam chegar a nenhuma conclusão. Por
mais que procurassem, não acharam nem o navio, nem o menor vestígio de
naufrágio. Há quem diga que correu o boato da nau ter sido devorada por
um monstro marinho, capaz de atacar na calada da noite e de engolir
madeiras, velas e homens, tudo de uma vez só. Mas Pedro Álvares Cabral
pôs fim às fantasias dos marinheiros e, embora triste pela perda, deu
ordem para levantarem âncora e seguirem caminho.
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