
uando Cabral e sua tripulação saíram em viagem, imaginavam qual poderia ser
sua sorte. Ninguém tinha certeza da volta. Muitos já haviam participado
antes da aventura no mar, mas para muitos aquela seria a primeira vez. O
que todos sabiam era que passariam por infindáveis momentos de monotonia
que poderiam, de repente, ser quebrados pelos perigos iminentes de
naufrágio, de ataques de navios inimigos, de doenças e epidemias que vez
por outra abatia os navegantes.
A rotina a bordo nos navios portugueses do século XVI pouco variava em
relação ao tipo de embarcação. Tanto nas naus, maiores e mais pesadas,
quanto nas caravelas, menores e
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mais leves, as condições eram semelhantes,
pois os navegantes contavam com espaços muito limitados para viverem
durante a viagem, mais longa ou mais curta, dependendo do destino. Havia
navios que não passavam dos 25 metros de comprimento.
A duração da viagem podia depender do tipo de navio em que era realizada,
mas variava principalmente devido às condições da natureza. Por isso era
necessário conhecer bem os regimes dos ventos e das correntes e os períodos
do ano mais favoráveis à aventura no mar.
Hierarquia
A coordenação da viagem era feita pelo capitão-mor que, responsável por
toda a armada, cuidava para que os navios permanecessem agrupados, embora,
muitas vezes, houvesse
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alguns que acabavam por seguir isoladamente, devido
a problemas meteorológicos ou por avarias.
Em cada navio a autoridade máxima era o capitão, quase sempre um fidalgo
da confiança do rei, que na maior parte das vezes não tinha experiência de
navegação. O técnico superior era o piloto, encarregado de escrever no
diário de bordo as principais ocorrências técnicas durante a viagem e de
conduzir o navio à popa, sempre com atenção à bússola (havia em média três
por cada navio), aos guias náuticos e roteiros e aos astros, observados
com os astrolábios, quadrantes e balestilhas. Dessa forma, era possível
determinar a latitude em que o navio se encontrava.
Junto ao piloto ficava um marinheiro, que dava informações ao homem que
manobrava o leme, e um grumete, encarregado de virar a ampulheta e apregoar
as horas. Hierarquicamente
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abaixo do piloto havia o sota-piloto.
O responsável pela direção das operações no navio era o mestre que, ajudado
por um contra-mestre, mandava nos marinheiros e grumetes. Os grumetes eram
jovens que se encontravam no escalão inferior do pessoal de bordo. Todos
mandavem neles. Num navio com cerca de 150 tripulantes, havia perto de 60
marinheiros e uns 70 grumetes.
Para a defesa do navio armado de peças de artilharia havia um mestre
bombardeiro ou condestável e bombardeiros especializados, além de um número
variável de soldados, que iriam servir nos destinos para onde se dirigiam
os navios.
Entre os responsáveis pela organização da vida a bordo, sem ter funções
relacionadas com a marinharia, quem tinha o cargo mais importante era o
escrivão, encarregado de registrar a distribuição de bens, compras e
vendas, proceder escrituras,
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contratos, testamentos, etc. Em seguida vinham
o meirinho, o alcaide, o dispenseiro e os artífices, com ofícios como os de
carpinteiros, calafates e tanoeiros.
Nas naus maiores podiam embarcar entre 500 e 1.000 passageiros. Desses, um
número considerável era constituído por soldados e a maioria do restante,
por funcionários, comerciantes, religiosos e degredados.
Raramente iam mulheres a bordo. Às vezes, esposas de alguns fidalgos ou
órfãs destinadas a casar com colonos.
Os marinheiros alojavam-se geralmente na parte de trás do navio, sob o
castelo da popa, mas nos dias mais quentes dormiam no convés.
Só o capitão, os fidalgos e oficias superiores tinham pequenos quartos.
A manutenção da disciplina era uma das dificuldades
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maiores, havendo, para
os infratores, punições como a prisão, o flagelo ou o serviço nas bombas do
navio, trabalho pesado destinado a tirar a água que ia entrando no navio.
A alimentação
A alimentação era muito deficiente e era fundamentalmente constituída por
água, vinho, biscoito (uma espécie de pão muito resistente, cuja ração
diária era cerca de 600 gramas ), carne salgada ou defumada, peixe salgado
(geralmente pescadas e sardinhas). Para temperar a comida havia azeite e
vinagre. Como complementos alimentares havia compotas e vários tipos de
frutos secos como passas de figos e ameixas, castanhas e nozes. Alguns
alimentos eram distribuídos diariamente; outros, mensalmente. Por vezes
era necessário racionar os alimentos
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até o reabastecimento em alguns portos.
Nas escalas, procurava-se adquirir frutos frescos e carne de animais, como
carneiros, vacas, aves, etc. A bordo seguiam alguns animais vivos. O
principal deles eram as galinhas, destinadas a produzir ovos e carne para
os doentes. Havia locais junto à costa com maior abundância de peixe, onde
eram feitas as pescarias.
Saúde e religião
Devido aos climas quentes que tinham de atravessar, sobretudo na zona
equatorial, os alimentos deterioravam-se frequentemente. Esse era um dos
problemas mais graves para a saúde dos tripulantes. Esta situação e o fato
de não se poderem levar alimentos frescos provocava o escorbuto, um dos
principais fatores de doença e morte. A falta de higiene a bordo
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era outro
dos problemas que podiam provocar doenças. Algumas vezes, a mortalidade
assumia proporções enormes.
Cada navio levava uma botica com medicamentos. Os curativos eram geralmente
feitos pelos barbeiros, que procediam a sangrias e purgas. Os médicos
geralmente só iam nos navios com fidalgos importantes.
Os eclesiásticos embarcados, sobretudo os jesuítas, procuravam auxiliar na
cura dos enfermos, além de exercerem atividades ligadas com a vida
espiritual. Eles procuravam manter a bordo uma vida religiosa, realizando
procissões e cultos como confissões, orações, ladainhas cantadas,
comemorações de santos, etc.
As práticas religiosas, além de ajudarem a ocupar o tempo e serem sintoma
de devoção, serviam psicologicamente para garantir a proteção divina e para
tentar ultrapassar o medo
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da morte que afetava os viajantes, constantemente
em situações perigosas.
O jogo a bordo era proibido, regra que nem sempre era cumprida. Algumas
vezes havia representações teatrais e a prática da música como forma de
distração.
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