Manuel Marques

ntre os monumentos intrincados em Belmonte, avulta Centum Cellas. O que é Centum Cellas? Quem fez Centum Cellas? Até onde chegava a sua sombra?
Os especialistas opinam e duvidam. Perguntam e investigam. O povo sabe e diz o que ouviu dos antepassados, com a maior simplicidade, com ingenuidade ou com uma ciência bem mais profunda do que parece.
Os historiadores mais fundamentados dizem que foram os romanos. Estes a fizeram e a terão reconstruído em épocas diferentes. Outros, que foram os gregos ou os egípcios. E outros dirão que foram outros. Falaremos das hipóteses mais

ou menos fundamentadas. Por agora, o que diz o povo?
No Colmeal da Torre diz-se que quem fez a Torre de Centum Cellas foi uma mulher com um filho às costas. Os antigos é que contavam...
Era corrente também dizer-se que na Torre de Centum Cellas havia um bezerro de ouro escondido.
O Arquiteto Manuel João Calais foi o homem que fez de Centum Cellas o estudo mais audacioso (Manuel João Calais, A Geometria de Centum Cellas, ed, de Floriana Martins Calais, Covilhã, 1984). De garoto, teve de se proteger com a mãe, dentro da Torre, de uma grande trovoada. O sortílégio ficaria para sempre na alma deste homem. Aumentava quando dois companheiros de escola apontavam para o alto da serra e diziam: "Vês além aquela pedra grande? É o Penedo Agudo. De lá, vê-se Santo Celo".

"Depois, ( continua o Arquiteto Calais ), de vez em quando, ouvia falar em Santo Celo, porque o velho monumento era ponto de referência e possuía qualquer coisa de supersticioso".
Um dia, o Arquiteto decidiu visitar, para estudo, a Torre das suas recordações de infância. Foi acompanhado por Reis Santos, Professor de Arte e Arqueologia da Universidade de Coimbra.

Torre de Centum Cellas

"Discutíamos, dentro das ruínas, sobre a origem dos enormes furos que atravessavam as paredes laterais e a do fundo, que alguns autores tomam por portas, quando subitamente nos apareceu um velho camponês que, como uma velha lenda, nos abriu caminho para a descoberta do segredo dos buracos. "Diz a lenda que, debaixo da porta principal, há, enterrado, um boi de ouro, mas ninguém nem sabe qual delas é, onde se situa, ou situava".
Pensaram que muito da destruição feita na torre teria sido obra de maníacos à procura do tesouro, e com a morte de Reis Santos, o Arquiteto iria fazer um estudo da Arquitetura da Torre. Qual porta principal?
Iria sabê-lo, não para descobrir o boi de ouro, mas para decifrar o enigma histórico do monumento.

Era pessoa que também não se conformava com o que, um dia, um afamado arqueólogo chamado pela Câmara de Belmonte para estudar a Torre de Centum Cellas, disse que - "daquilo havia muito em Portugal".
Mas a idéia do bezerro ou boi ou touro de ouro enterrado na torre, e entranhado na tradição popular poderá estar ligada a crenças e enigmas mais profundos, que até podem pressentir-se no mesmo autor quando refere: "A poucas centenas de metros de Entre-Águas, a ribeira da Gaia recebe o seu maior afluente, a Ribeira da Teixeira, que nasce próximo da estação ferroviária do Sabugal. Esta Ribeira recebe, pela margem direita, o Ribeiro da Fonte Boa, que vem das proximidades do cabeço das Fráguas, monte que tem a configuração de uma malga deborcada, visto de longe. Nas suas encostas encontram-se vestígios de antiga

exploração de cassiterita, e, no ponto mais elevado, a 1.015 m de altitude, existe, na rocha, uma inscrição grega, em caracteres latinos, onde se lêem as palavras touro e javali.
As Fráguas ficam a onze quilômetros de Centum Cellas, em linha reta. "A partir da confluência do ribeiro da Fonte Boa com a Ribeira da Teixeira começam as aluviões metalíferas, que se prolongam do vale da ribeira, até ao Zêzere, numa extensão de onze quilômetros".
"Os autores que têm discorrido sobre Centum Cellas falam da presença dos conquistadores romanos e dos irrequietos lusitanos, e, alguns deles, nem sequer fazem alusão à existência dos possantes jazigos de cassiterita, que ali atraíam gente de povos distantes, do Mediterrâneo, como Gregos e Fenícios".(Id, id, p.11)
Do Arquiteto Calais deixamos dados que ele lançou nas

"Preliminares" de sua obra e aproveitará como subsídios do seu trabalho científico; e ficou-nos a idéia de que as gentes, as culturas e os deuses, por esta região, nem sempre foram os de hoje e que nem sequer foram os romanos os primeiros. Mesmo o touro ou o bezerro de ouro, antes de entrar nas lendas, talvez tenha entrado na religião e ritos autóctones.
O certo é que, esquecidos os bois e os javalis ou até as cabras, como deuses ou como oferendas (ex-votos) a deuses, eles poderiam ser objetos de adorno ou manifestação de riqueza. Foi a idéia de riqueza escondida e sedutora que ficou nas lendas, e também na supersticiosa torre de Centum Cellas.
E certo é também que, mesmo sem saber qual era a porta principal, muita gente andou a cavar dentro da torre para encontrar o boi de ouro.

Nas escavações mais recentes, a Arqueóloga Helena Frade, já em 1995, se refere a remoções de terrenos que podem ser o resultado dessas investigações furtivas. (Frade, H, Id.Id.)