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OS MITOS MARINHOS
Romanceado nos parâmetros da época
Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada
Ilustrações Camila Mamede
Antes dos Descobrimentos Portugueses, cada povo conhecia apenas o lugar onde
vivia e o mar era um grande desconhecido. Ninguém conhecia os limites,
ninguém sabia os seus segredos. Então, era fácil inventar sobre o que se passava
nos oceanos.
As histórias que circulavam enchiam as pessoas de pavor e de espanto.
Dizia-se que prá lá da linha do horizonte havia ondas gigantescas de água a
ferver, redemoinhos borbulhantes, abismos horríveis que eram as bocarras
do inferno. O oceano ocultava monstros capazes de engolir navios e
marinheiros de um trago, mas por entre a espuma também podiam aparecer as
sereias, mulheres marinhas muito perigosas que atraíam os homens com o seu
canto mágico, levando-os precipitarem-se de cabeça nas águas revoltas.
Quanto às terras de além-mar, constava serem povoadas por gente
estranhíssima, homens com cabeça de cão, outros sem cabeça e com olhos no
peito, outros ainda só com um pé enorme, ou com um único olho na testa.
Mas apesar de perigosos e monstros, o mar atraía, pois quem fosse
bafejado pelos ventos da sorte seria conduzido às ilhas fantásticas de
São Brandão onde fazia sempre bom tempo, os animais selvagens conviviam
em harmonia com os animais domésticos, nas árvores cresciam flores e frutos
durante todo o ano, os caminhos eram cobertos de pedras preciosas. E, melhor
de tudo, as pessoas nunca tinham sono, nem fome, nem sede. Viviam sempre
felizes e nunca envelheciam.
Estes e outros mitos foram acabando à medida que os navios portugueses
abriam novas rotas marítimas. No entanto, é bom lembrar que os
descobrimentos prolongaram-se por dois séculos. Conhecer muitas rotas não
significava conhecer a totalidade do oceano. Assim, durante muito tempo, os
pessimistas continuavam a insistir: - "Os monstros não apareceram desta vez,
mas podem aparecer na próxima. Cuidado com as sereias!".
E os otimistas agarravam-se à esperança de serem eles os primeiros a
desembarcar nas ilhas fantásticas.
É engraçado saber que duzentos anos depois da viagem de Pedro Álvares
Cabral, ainda partiu das Canárias uma armada em busca das ilhas de São
Brandão, que os navegadores pensavam poder encontrar entre Portugal e o
Brasil.

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