Manuel Marques
endo o brasão dos Cabrais em vários lugares de Belmonte e lembrando a
lenda do pastor que sonhou:
Vai a Belém que lá encontrarás o teu bem...,
me pergunto:
- Qual foi o pastor que desenterrou a cabra e o cabrito de ouro, ou qual
foi o primeiro homem do povo, que dentre os Cabrais subiu à riqueza e à
nobreza?
Nas referências aos primeiros Cabrais, eles sempre aparecem como alcaide
ou como reposteiro-mor de el-rei e com bens e posição.
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A hipótese mais aceitável é que o primeiro Cabral da família de Belmonte
tenha sido João... Cabral de Belmir.
Este teve como filho Pero Anes Cabral, Comendador de Vide (1278). Pai de
Ayres Pires Cabral, que o Infante D. Afonso, nos desentendimentos com D.
Dinis, seu irmão, fez alcaide do castelo fronteiriço de Portalegre e outras
vilas (Arronches, Vide, e Marvão) entre e cerca de 1287-1308. Conservou
o castelo até seu senhor vir trocar estas terras por outras.
O príncipe D. Afonso terá feito com que este Cabral não tivesse prestado
homenagem a D. Dinis. Alguns ligam a este fato a proverbial isenção de
homenagem dos Cabrais.
Sobre esse Ayres Pires Cabral há, na história, uma certa confusão. Alguns
autores atribuem a ele o fato, atribuído por outros a Álvaro Gil Cabral -
tetravô de nosso Pedro Álvares: tendo
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D. Dinis posto cerco ao castelo de
Portalegre, este Cabral, terá respondido ao Rei:
- Não me renderei, nem pela fome, porque tenho muito pão.
Daí apelidarem-no de "O Muito Pão". O certo é que Álvaro Gil Cabral é muito
conhecido por este farto apelido, e por ser o primeiro, dos Cabrais ligados
a Belmonte, que teria usado as cabras como brasão.
Por ser terra de lenda, de história jogada entre o certo e o incerto, de
história que muitas vezes se nos apresenta cheia de autenticidade e
surpresa, e de monumentos tão intrincados ... que nos envolvem e espantam
- é fácil deixarmo-nos encantar por Belmonte.
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Também, mais recentemente, surgiu a hipótese de outra origem do primeiro
Cabral em Belmonte: preferem dá-lo como descendente de um ...Anes, de Riba
Visela, neto de João Martins Cabral, senhor de propriedades para lá de
Viseu (Norte), depois no Outeiro de Moimenta, perto de Guimarães, donde
também há quem diga que pode ter nascido D. Gil Cabral.
Não falta quem diga que os Cabrais vieram de Castela. Um tal fidalgo,
perdida a causa de Pedro o Cru, fugiu à vingança de D. Henrique de
Trantâmara e colocou-se ao serviço de D. Fernando para o qual tomara e
defendera o Castelo de Belmonte. E, ou já se chamava Cabral, ou tomou
o nome por ter sido ele que, cercado e ameaçado de fome, terá atirado
as duas cabras esquartejadas ao inimigo para dar mostras de fartura dentro
da fortaleza.
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Há ainda autores que defendem a vinda dos Cabrais da Galiza, de uma de duas
povoações com este nome, e que dali vieram para Portugal muito cedo,
talvez logo após D. Sancho ter dado foral a Belmonte, com uma defesa ainda
menos forte e sobre ruínas de Castro anterior.
A história do povo não se escreve, mas a origem dos nobres e até dos reis
também nem sempre aparece muito clara, por vezes bem distorcida.
Tenham vindo de qualquer lado de Espanha, do alcaide de Portalegre, ou de
João Martins Cabral, os Cabrais começam a aparecer com alcaidarias de
castelos quase sempre em linha de fronteira: Almourol, Covilhã, Monsanto,
Guarda, Belmonte, e aqui centrados, daqui dispersaram... São na verdade
homens de fronteira e de Belmonte.
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A confiança dos reis nos Cabrais foi marcada pelos grandes cargos e terras
que lhes confiaram; até chegaram a ser isentos de homenagem, o que alguns
explicam por provas dadas de dedicação.
O castelo de Belmonte, que no princípio do século XV foi destinado
exclusivamente à defesa, pelo Senhor Infante D. Henrique, no tempo de
Fernão Cabral, o 1º Alcaide-Mor, estava transformado em residência sua.
Para isso lhe tinha sido dado o seu uso e propriedade.
O certo é que, desta honra, os Cabrais não abdicaram através de muito
tempo...
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