Quando Pedro Álvares Cabral foi viver na Corte, tinha acabado de
subir ao trono o rei D. João II, homem sábio, poderoso e exigente a
quem o povo admirava tanto que lhe deu o apelido de "Príncipe Perfeito".
O palácio erguia-se dentro das muralhas do castelo de São Jorge, que fica
no topo de uma colina à beira do rio Tejo. Lá do alto avistava-se toda a
cidade de Lisboa, um emaranhado de ruas estreitas, praças, largos,
terreiros e quintais, casas de todos os tamanhos e feitios, igrejas,
conventos, belos palacetes de famílias nobres. Durante o dia circulavam
pessoas, cavalos, carroças em quantidade e, no porto, o vaivém dos navios
que chegavam da outra margem do rio, de outras cidades, das ilhas
atlânticas e da África contribuíam para reforçar o ambiente de grande
animação.         
Para um rapaz que vinha da Serra da Estrela cheio de sonhos e projetos,
deve ter sido bem excitante descobrir a capital. Mas integrar-se na Corte e
fazer boa figura exigiu com certeza um enorme esforço, pois as situações em
que   devia distinguir-se para impressionar o rei eram muito diversas. Não
tinha problema em participar nas caçadas e nos torneios, ou nas patrulhas
noturnas pelos bairros mais agitados de Lisboa como qualquer moço-fidalgo.
Aprendera a andar a cavalo e a manejar armas desde criança, sentia-se à
vontade nessas funções. O que não estava habituado era a banquetes e
festas, por isso não terá sido fácil acertar nas primeiras vezes nas
cortesias que devia fazer à rainha D. Leonor, perceber quando era hora de
dar uma opinião, saber ficar calado e sorridente no momento certo. E tudo
isso tinha importância naquele tempo. Mas estar na Corte também significava
acompanhar a família real em muitas viagens pelo país e só ganhava fama
quem fosse capaz de tomar iniciativas rápidas diante de imprevistos.
Soltou-se a roda da carruagem onde a rainha   seguia com o principezinho
  para   Évora? O moço-fidalgo que mais depressa corresse para ajudar ficava
com certeza muito bem visto. Durante uma caçada com falcões houve um cavalo
que tomou o freio nos dentes e fugiu a galope com uma menina aos gritos na
sela? Quem partisse em desabalada carreira para dominar o animal e salvar
a menina seria elogiadíssimo pela sua coragem e pela sua destreza. Estalou
uma briga entre a rapaziada do castelo? Aquele que soubesse repor a ordem
com firmeza e serenidade mostrava possuir qualidade de chefe.
Ninguém sabe ao certo o que fez Pedro Álvares Cabral para agradar ao rei
severo que era D. João II, mas sabe-se que agradou, pois assim ficou
escrito em documentos da época. Quando D. João II morreu e subiu ao trono
D. Manuel I, Cabral continuou na Corte. O novo rei fez-lhe um elogio
público, promoveu-o a fidalgo do seu Conselho, oferecendo-lhe mais
riquezas e o hábito da
Ordem de Cristo, o que era uma grande honra.
Pode-se portanto concluir que D. Manuel I tinha toda a confiança e uma
enorme admiração por Pedro Álvares Cabral.
