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O BATISMO DE GUERRA
Romanceado nos parâmetros da época
Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada
Ilustrações Camila Mamede
Pedro caminhava sobre as muralhas do castelo de Arzila num passo vagaroso e
de olhos perdidos no horizonte sem fim. Viera para o norte da África porque
era ali, em terra de
mouros, que os rapazes nobres recebiam o seu batismo
de guerra. Instalavam-se num dos castelos conquistados pelos portugueses e
ele ficou com o de Arzila. Na primeira oportunidade havia de sair em campo
aberto para mostrar o que valia numa luta corpo a corpo com inimigos de
verdade. Mas essa oportunidade nunca surgia e começava a ficar farto da
rotina. Mal o sol se levantava, os soldados encarregados de vigiar as
imediações davam uma volta pelo lado de fora das muralhas. Se não houvesse
perigo, anunciavam que o caminho estava livre e então lá iam grupos levar
o gado às magras pastagens, buscar água e lenha.
Em caso de alarme, os
vigias acendiam fogo e a fumaça significava "recolham o gado, protejam   as
mulheres e crianças, preparem-se para a guerra". Só que isso ainda não
tinha acontecido e ele se desesperava.
- Que chato! É mais difícil vencer o tempo do que um exército mouro!
Arrastando os pés, subiu ao
torreão
mais alto e ficou encostado nas
ameias
olhando ora para a terra seca e árida que se estendia a perder de vista
para o lado esquerdo, ora para o mar fresco e revolto que o chamava do lado
direito. Se pudesse escolher, não hesitaria.
- Quem me dera um batismo de guerra a bordo, numa bela e brava batalha
naval!
No momento em que assim suspirava, viu ao longe o desejado sinal.
- Fumaça! Fumaça!
Depois foi tudo muito rápido e muito mais excitante do que sonhara.
Repicaram os sinos da igreja, os soldados pegaram em armas, cada um correu
para o seu posto.O gado regressou levantando poeira, e as
mulheres e as crianças foram fechadas a sete chaves. O capitão ordenou que trouxessem
cavalos e já estavam todos prontos a enfrentar os mouros que lá vinham de
espada em punho, túnicas ao vento.
Apesar da armadura metálica pesadíssima e do capacete sufocante, Pedro não
vacilou. Usando suas esporas com força partiu a galope. Antes do combate já elegera
qual dos mouros havia de derrubar: era aquele bem forte que vinha à frente
num cavalo fogoso de pelo ruço.
O confronto foi terrível. Tiniam as espadas, gritavam os homens,
relinchavam os animais... e a sorte oscilava, favorecendo alternadamente
mouros e cristãos. Mas ao pôr do sol, após uma luta difícil, os inimigos
puseram-se em debandada.
No terreiro ficaram mortos e feridos. Também ficou um prisioneiro de valor
porque era o chefe e podia ser trocado por portugueses capturados em
combates anteriores. Quem o arrancou do cavalo ruço? Pedro, que
assim se cobriu de glória no dia do seu batismo de guerra. Nessa mesma
noite foi
armado cavaleiro
em presença do bispo e do capitão. E a notícia
depressa voou até os ouvidos do rei. Segundo consta, os mensageiros não
pouparam elogios ao nosso cavaleiro e o nome correu de boca em boca, sempre
pronunciado com admiração.
- Este Pedro Álvares Cabral promete! Ainda vai dar muito que falar!

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