![]() A PARTIDA PARA A CORTE Romanceado nos parâmetros da época Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada O cavalo agitou a cabeça, fazendo dançar as crinas sobre o pescoço, num movimento alegre, e depois largou a trote pela beira do caminho. Sentindo-se firme na sela, Pedro deu-lhe rédea solta e partiram então a galope numa correria feliz e inesperada, que lançou
nuvens de poeira
sobre o pai e os irmãos. Brilhava o sol, verdejavam os campos e sobre
a última colina que os separava do rio, duas árvores embaladas pela
brisa suave da manhã compunham acenos como quem chama.
Para trás ficara o castelo de Belmonte onde vivera a infância. E o abraço comovido da mãe que se despedira de olhos enxutos mas interrogando-se em segredo: "Será justo deixar toda a fortuna ao filho mais velho, obrigando os outros a ir ganhar a vida para longe? Quem terá feito uma lei assim?" Esses problemas não afligiam Pedro. Crescera sabendo que as riquezas da família seriam herdadas pelo irmão nascido em primeiro lugar, João Fernandes Cabral, de quem aliás era muito amigo. Quanto a ele, na qualidade de filho segundo, teria de fazer fortuna por suas próprias mãos e isso não lhe metia medo nenhum. Forte, desembaraçado,
transbordando energia, ansiava para se por à prova. Desde que o pai
lhe comunicara a boa notícia de que o rei o queria ao serviço na corte,
não parava de imaginar projetos ora fantásticos, ora fantasiosos,
como qualquer rapaz no limiar de uma nova etapa.
A embarcação que havia de os conduzir a Lisboa estava atracada na margem do rio Tejo. Era enorme, tinha um único mastro, uma única vela, espaço bastante para acomodar pessoas, animais e mercadorias. Pedro tomou lugar entre sacas e pipas no maior entusiasmo e, quando soltaram as amarras, teve que fazer um esforço para não dar gritos e pulos de contente. Nunca antes navegara, parecia-lhe magnífico aquele deslizar ondulante, saboroso e leve, tal qual um sonho. Deslumbrado com a viagem, nem reparou que vários passageiros perdiam a cor e ficavam com o olhar turvo à medida que a corrente se tornava mais forte. De queixo erguido, cabelos ao vento, procurava as palavras certas para definir tantas sensações novas e sorriu porque lhe veio a idéia de que o seu espírito ia solto e esvoaçava agarrado ao corpo como a vela agarrada ao mastro. De súbito, porém, entendeu tudo: - Acho que tenho alma de navegador! |