Europa dos Séculos XV e XVI foi profundamente marcada pelo fenômeno do
Renascimento. Na sua complexidade, ele foi caracterizado fundamentalmente
pela recuperação dos antigos modelos da Antigüidade Clássica, renegando em
parte, mas não totalmente, as heranças da Medievalidade.
Os humanistas estavam virados para um futuro que apostava em valores
universalistas, mas mergulhavam numa fonte de inspiração que remontava a
muitos séculos atrás. Os Descobrimentos vieram introduzir novas
problemáticas
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que até então não haviam sido objeto de consideração por
parte dos intelectuais. Alguns humanistas
interessaram-se pelo assunto,
outros praticamente ignoraram-no tal como aqueles que continuavam ligados
às escolásticas.
Os protagonistas da cultura dos Descobrimentos foram homens práticos,
ligados às coisas do mar, ou que tendo passado por um ensino mais ou
menos tradicional, souberam captar a importância dos Descobrimentos
para o progresso das técnicas e das ciências, que não eram suficientemente
considerados por instituições escolares mais fechadas.
Os progressos científicos e técnicos alcançados pelos portugueses tiveram
sobretudo uma dimensão empírica baseada na experiência de raiz aristotélica
e medieval, situando-se numa fase de transição para um nível epistêmico da
ciência moderna que só se atingiu no Século XVII.
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Nos Séculos XV e XVI desenvolveram-se em Portugal os meios técnicos
necessários que possibilitaram as grandes navegações, as quais, por
sua vez, vieram a permitir progressos científicos notáveis nos mais
variados domínios, com destaque para a Náutica, a Cartografia, a
Construção Naval, a Medicina e a Botânica.
Antes de se iniciarem os Descobrimentos portugueses já haviam sido
alcançados alguns progressos na arte de navegar. Quando foram iniciados,
portanto, a arte de andar no mar era devidamente apreciada, já existindo
o cargo de almirante nas Ordenações Afonsinas (1446):
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Desde a Antigüidade, a navegação utilizava métodos e instrumentos simples
como o prumo. Os marinheiros tinham em conta as conhecenças do litoral,
isto é, pontos de referência vistos do mar que fixavam na memória. Dessa
forma era possível a identificação de cabos, ilhas, baixios, barras, etc.
A observação dos ventos e das estrelas era também tida em conta.
Na Idade Média utilizaram-se, entre os poucos instrumentos de que se
socorriam os pilotos, as bússolas (ou agulhas de marear como lhes
chamaram durante muito tempo os portugueses). É difícil apurar a sua
origem mas pode-se admitir que ela surge na China no início do Século
XII. Foi depois aplicada pelos muçulmanos no Mediterrâneo, acabando por
chegar ao conhecimento dos europeus em finais desse mesmo século.
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Dentre as obras utilizadas pelos pilotos medievais contavam-se os
portulanos. Neles procedia-se à descrição geográfica dos vários pontos do
litoral. Em meados do Século XIII esses portulanos foram aperfeiçoados e
apareceram como complementos as cartas-portulano (ou
cartas de marear).
Estas foram possíveis devido à utilização da bússola e de conhecimentos de
geometria (sobretudo euclidiana).
Entre outros instrumentos utilizados para auxiliar a determinação das
distâncias percorridas contava-se ainda o relógio de areia.
Foram-se estabelecendo métodos para determinar a hora noturna pela
observação das estrelas, bem como a previsão das marés pela observação
da lua.
A navegação medieval era costeira. Com as viagens dos Descobrimentos
os portugueses tiveram de considerar o regime dos ventos e das correntes
no Atlântico.
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Esse fato implicou, a partir de meados do Século XV, a
necessidade de realizar uma navegação oceânica longe da costa. Surgia
assim a náutica astronômica, isto é, a capacidade de conhecer a posição
aproximada dos navios em alto mar. Para esse feito utilizaram-se
instrumentos de observação astronômica como o quadrante e o
astrolábio
náuticos, ou ainda a balestilha, que permitiam determinar a altura de
um astro sobre o horizonte e dessa forma calcular a latitude do lugar
onde se realizava a observação. Dentre esses instrumentos merece um
lugar de destaque o astrolábio náutico.
Os navegadores estabeleciam as suas derrotas recorrendo aos instrumentos
já referidos, além de bússolas, cartas de marear e vários tipos de obras ,
como os guias náuticos, onde se encontravam regras de navegação astronômica,
tábuas de declinações solares e elementos de cosmografia; além disso
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tinham
roteiros, indicações úteis sobre as viagens e outros escritos afins,
nomeadamente regras para manobras de navegação e diários. Chegaram aos
nossos dias vários volumes que designamos por livros de marinaria, onde
pilotos ou curiosos pelas navegações juntavam vários textos relativos a
assuntos náuticos como roteiros, diários e guias.
A impressão em 1496 em Leiria, do Almanach Perpetuo de Abraão Zacuto, em
versões latina e castelhana de José Vizinho, veio facilitar
consideravelmente a determinação das latitudes pelos navegadores
portugueses. As tábuas solares que os pilotos portugueses utilizavam para
esse fim tinham por base cálculos feitos a partir dessa obra.
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A grande inovação que constituiu a náutica portuguesa pode se resumir na
transformação da "arte de navegar"para a "técnica de navegar", ou seja, o
salto de uma navegação guiada por processos elementares para uma navegação
baseada na medida de uma coordenada astronômica de um astro - ponto de
partida da rigorosa navegação moderna. Esta foi, sem dúvida, uma das
conseqüências das navegações portuguesas por todo o Atlântico, entre 1430
e 1490.
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