itificam-se os heróis na História. Mas de que estofo humano foram eles feitos, de fato?
No caso de Cabral, a pergunta é ainda mais viva, dado que quase nada se conhece do homem e da sua vida. E que se sabe, por outro lado, que, encarregado de comandar a maior frota naval armada que já se constituíra em Portugal, com designação de uma tarefa que deveria misturar a capacidade bélica à habilidade diplomática e ao pendor para negócios, regressou ele a Lisboa com a missão cumprida de forma esfacelada e marcada por incidentes e tragédias: perderam-se quase todos os seus barcos, as entabulações de negócios passaram por delicados conflitos desastrosos, o ganho diplomático e comercial foi muito pequeno. Mesmo a façanha que o notabilizaria - o descobrimento e tomada de posse do Brasil - levaria anos para que fosse

reconhecida com consagração.Fidalgo de D. João II e D. Manuel, terminou seus dias afastado da corte e com ela indisposto. E mesmo hoje em dia, ao serem celebrados os 500 anos de sua chegada a Porto Seguro, não é com entusiasmo e simpatias maiores que se ouve falar dele em Portugal - suplantado pelas glórias de Vasco da Gama, que o antecedeu e sucedeu em missões mais celebradas à mesma Índia sonhada para os negócios da época.
A tudo isso, acrescenta-se ainda o sensacionalismo que certa imprensa brasileira tem tentado fazer no sentido de esvaziar de glórias a sua chegada ao Brasil em 1500, a partir da notícia só agora espalhafatosamente explorada de que outros navegadores - o principal deles Duarte Pacheco Pereira - terão estado antes na costa brasileira. Amargurado em vida até a morte, parece Cabral fadado a sofrer também o injusto desdouro 500 anos após ter ele pisado e batizado a Terra de Santa Cruz.

A tal desdouro opõe-se este projeto. E, ao pretender revalorizar - com objetividade e justiça histórico-científicas - o feito cabralino de abril de 1500, a que as mais calorosas celebrações são devidas, quer fazê-lo pela via do desvendamento da pessoa que foi Pedro Álvares Cabral.Menino de domínios campestres preparado para ser fidalgo, guerreiro experimentado em lutas africanas, comandante sensível tanto quanto humanamente falível, homem de suscetibilidades e de suposta afabilidade no trato com terceiros. Os produtos que se prevêem para este projeto deverão, por todos os meios e para todos os tipos de consumidores, buscar esta humanização para trazê-la à tona.
Aos heróis são devidas celebrações. Mas é ainda mais significativo e desejável que do herói se forneça a cada um a sua dimensão de pessoa - humanamente limitada, emocionalmente suscetível, fisicamente determinada. Só por perceber que os heróis são rigorosamente iguais a cada um de nós é que teremos

aprendido a atribuir-lhes valor justo e verdadeiro tanto quanto atribuir-nos a nós mesmos a responsabilidade de - heróis ou não - assumirmos plenamente, como indivíduos e cidadãos, o nosso papel na determinação da História.