
epois de ter deixado o Brasil a 2 de maio e de ter percorrido a
África Oriental até Melinde, a frota de Cabral atravessou o oceano
Índico com destino à Índia, onde chegou no dia 22 de agosto de 1500.
Na ilha de Angediva, onde já estivera Vasco da Gama, Pedro Álvares
Cabral fez uma escala de 15 dias, período em que fez aguada e
recolheu lenha. A frota partiu então para o sul, com destino a
Calecut, onde chegou no dia 13 de setembro de 1500.
Quando a frota foi avistada pelos moradores da cidade, numerosos
navios pequenos vieram ao seu encontro. Uma comitiva indiana foi
dar as boas vindas em nome do soberano
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local, o samorim. O
capitão-mor, em resposta, mandou disparar uma salva de artilharia
como forma de saudação, acontecimento que sempre impressionava
fortemente os povos do Índico.
O escrivão Afonso Furtado foi ter com o samorim para explicar que a
frota portuguesa vinha "tratar a paz e do tráfico de mercadorias" e
pedir o envio de reféns a bordo para que o comandante-mor pudesse
desembarcar.
A exigência surpreendeu o samorim, pois ela não havia sido
apresentada por Vasco da Gama quando, em 1498, havia estado em
Calecut. Após dois ou três dias de negociações, o samorim acabou
cedendo, autorizando a ida dos pretendidos reféns.
Cabral desembarcou em companhia de trinta homens e deixou a frota
sob o comando de Sancho de Tovar. Com grande pompa foi realizada a
audiência, impressionando-se os
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portugueses com a quantidade de
jóias que adornavam o samorim.
Cabral fez a entrega da carta em língua árabe que D. Manuel enviara e
mandou entregar os
presentes
, revelando toda a aparência de riqueza de um Estado que
queria se impor no comércio oriental.
O samorim ficou agradavelmente surpreendido e "alegre", tendo
manifestado a sua boa vontade em colaborar com os portugueses,
indicando que estes poderiam ir alojar-se numa casa que para eles
mandara preparar.
Entretanto o soberano indiano solicitou a Cabral a devolução dos
reféns, explicando que, devido à sua dignidade e religião, "não
podiam comer, nem beber, nem dormir no mar".
Pedro Álvares Cabral deixou em terra Afonso Furtado com mais sete
ou oito dos seus homens e regressou à frota,
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de onde não voltou a
sair, pois desconfiou da atitude dos indianos em
não permitirem a
permanência dos reféns, que acabaram por abandonar a frota.
O clima de suspeição mútua por causa do reféns manteve-se nos dias
seguintes, durante os quais não voltou a haver contatos entre
portugueses e indianos.
Ante tal impasse, Cabral reuniu o conselho e o feitor Aires Correia
propôs negociar um tratado de comércio com o samorim, com a condição
de que ficassem a bordo dois reféns indianos considerados
importantes.
Um cavaleiro chamado Francisco Correia apresentou a proposta ao
samorim, exigindo a presença nos navios de dois mercadores ricos,
um dos quais deveria ser um guzarate "principal". Este
recusou-se a ir, mas apresentou como
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alternativa a ida de dois
dos seus sobrinhos. Cabral aceitou, pois verificou que o impasse
poderia se prolongar indefinidamente.
Os reféns vieram para os navios e Aires Correia preparou-se para a
sua missão, acompanhado por mais oito ou dez homens.
Só após dois meses e meio de difíceis negociações foi possível
estabelecer um tratado comercial com os indianos. Um dos entraves
foi a forte pressão dos mercadores muçulmanos, que se sentiam
prejudicados com a entrada dos portugueses no mercado indiano.
O tratado foi assinado pelo samorim e o capitão-mor mandou
devolver os dois reféns, acreditando não apenas no êxito das
operações mercantis mas também a segurança dos portugueses.
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Depois de Aires Correia regressar à terra, o samorim cedeu-lhe uma
casa perto da praia, onde foi hasteada uma bandeira com as armas
do rei de Portugal, símbolo da
segurança que agora sentiam os portugueses que ficaram em
Calecut.
Para fortalecer o bom entendimento, houve também o episódio da nau
dos elefantes: a pedido do samorim, o capitão-mor determinou a Pero
de Ataíde que na sua caravela, com 50 ou 70 homens, apresasse uma
grande nau que, da
Ilha de Ceilão
, conduzia para o reino de Cambaia
cinco elefantes, um deles muito amestrado para a guerra; a nau foi
rendida e entregue ao monarca, com grande contentamento deste.
Assim, as relações entre portugueses e indianos decorriam
pacificamente, mas com um ritmo lento.
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Após três meses da chegada da frota a Calecut, apenas dois dos seis
navios estavam carregados de especiarias. Cabral mandou um enviado
ao samorim para protestar contra os muçulmanos que dificultavam o
carregamento das especiarias,
escondendo-as, enquanto os navios que iam para a Arábia às
ocultas levavam os produtos que eles
queriam.
Como o período da moção durante o qual deviam iniciar a viagem de
regresso a Portugal se aproximava, Cabral solicitou auxílio ao
samorim, no sentido de viabilizar o carregamento dos navios o mais
rápido possível.
O samorim autorizou-o a tomar pela força as especiarias que, em
detrimento dos negócios com os portugueses, os mouros tivessem
embarcado em seus próprios navios. Cabral ingenuamente assim
procedeu em relação a uma nau mourisca,
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o que provocou imediata
queixa ao samorim (que mudou de posição após a pressão dos
muçulmanos e inclusive autorizou a retaliação contra os
portugueses).
Foi iniciada uma série de distúrbios, ataques em massa à feitoria e
morte de mais de meia centena de portugueses, inclusive Pero Vaz de
Caminha e Aires Correia. Dos que
estavam em terra, escaparam a nado
apenas uns 20, entre eles Frei Henrique, quatro outros frades e
Nuno Leitão, sendo quase inútil o socorro dado pelos batéis,
comandados por Sancho de Tovar, pois Cabral estava doente na
ocasião.
Mesmo doente, foi terrível a reação do capitão-mor: mandou apresar
10 naus mouras que estavam no porto, saqueá-las e
matar todos os que fossem encontrados. Isto feito, ordenou levantar ferros e rumar
para Cochim, a cerca de 70 milhas ao sul
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de Calecut, onde ancorou
em 24 de dezembro.
O rei desta cidade, que era inimigo do de Calecut, lamentou que os
portugueses fossem alvo de tão traiçoeiro ataque, informando-os que
teria todo o gosto em ajudá-los.
Duas semanas depois, com os navios quase totalmente carregados,
surgiu, para combater os portugueses, uma armada de Calecut, de
80 ou 85 velas, das quais 25 de grande porte.
Apesar da oferta de
ajuda do rei de Cochim, Cabral decidiu combatê-la com as próprias
forças, mas, sentindo-se em desvantagem, desistiu do confronto e
iniciou retorno a Portugal, no dia 10 de janeiro de 1501. Cinco
dias depois, os navios portugueses ancoraram frente a Cananor,
onde carregaram canela. No dia seguinte deixarem a Índia e
começarem a travessia do Índico de regresso a Portugal.
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