m Lisboa, no arquivo nacional da Torre do Tombo, Corpo Cronológico, parte I, maço 17, documento nº 1, encontra-se um dos testemunhos mais interessantes relativos a Pedro Álvares Cabral depois da sua viagem de 1500-1501. Trata-se de uma carta de Afonso de Albuquerque para D. Manuel, datada de Calecut a 2 de dezembro de 1514, na qual o governador do Estado da Índia intercede a favor de Pedro Álvares Cabral, seu sobrinho por afinidade, que então vivia retirado em Santarém.
A carta reflete o ambiente de intrigas palacianas da corte de D. Manuel, na qual se digladiavam partidos ou tendências

políticas e pessoas de famílias aristocráticas que ansiavam por obter favores régios e a queda de rivais. Tais lutas são geralmente de difícil percepção, pois apenas conseguimos discernir algumas das razões que as motivavam.
Na carta de Afonso de Albuquerque parece existir essa mesma situação pois, se ele pede fundamentalmente o perdão e a reabilitação de Pedro Álvares Cabral, que estava afastado do serviço régio por razões que não são explicadas, também se verifica logo no início do documento que ele próprio estava já então muito necessitado de apoios na corte, os quais de fato não foram suficientes para evitar o seu afastamento do governo do Estado da Índia, ocorrido em 1515. Ele sabia do ambiente hostil que afetara a sua posição e levara à preparação da sua substituição.

Afonso de Albuquerque, um dos maiores estadistas do século XVI, tentou um derradeiro esforço para valorizar a posição de Cabral, aludindo nomeadamente aos sacrifícios que a família da mulher deste havia feito ao serviço do rei, entre os quais se contava a morte de vários dos seus membros na Índia. É por isso que insiste na importância de ter sido (em 1503) o promotor do casamento de Pedro Álvares Cabral com a sua sobrinha D. Isabel de Castro, filha da sua irmã D. Constança de Castro e de D. Fernando de Noronha.
A seguir, texto da carta a que temos com a ortografia e a pontuação atualizadas, com a indicação (…) para os espaços onde desapareceram letras neste documento original.

Senhor:
Eu tenho tanta necessidade de meus parentes vos falarem por mim e requererem minhas cousas ante vossa alteza, que não sei como ouso de fazer por ninguém, porém eu hei-de fazer meu dever. Beijarei as mãos de vossa alteza receber-mo como obra de minha obrigação, que neste caso tenho a minha irmã e a meus sobrinhos e a meus parentes. O por que isto digo a vossa alteza é por Pêro Álvares, meu cunhado, casado com minha sobrinha, filha de minha irmã, e criada de vossa alteza e da senhora rainha.
Eu fui o que concertei e ordenei este casamento e lhe fiz dar da fazenda da minha irmã e de meu cunhado Dom Fernando mais em casamento (…) do que seu móvel e raiz podia abastar e que Pêro (…) era mui bom fidalgo e

merecedor disto (…) e cousa maior, todavia se teve respeito a (…) e honra e crédito que vossa alteza tinha de sua pessoa e o contentamento de seus serviços e de sua bondade e cavalaria e devermos todos por muito certa sua medrança e galardão de seus serviços e ser ele tal pessoa e assim aceito a vossa alteza e encarregado por vossa alteza tem cargos honrados que nos pareceu que não podia deixar de haver de vossa alteza honra e mercê por sabermos que era cavaleiro homem avisado e que há-de dar em todo tempo e em todo feito boa razão de si como vossa alteza já dele tem tomado a experiência.
Agora Senhor vejo esta quebra sua ante vossa alteza durar muitos dias em tempo que vossa alteza se serve geralmente dos cavaleiros e fidalgos do vosso reino e

conquistas (…) os quais recebem mercê rendas co(…) segundo cada um faz e merece por (…) cunhado Pêro Álvares, homem desejador (…) em obra e em dito e em feito ser sempre servidor de vossa alteza, e feitura e obra de vossas mãos apartado assim de vossa vontade e prazer, que não posso saber que descontentamento é este que vossa alteza de sua pessoa tem, que assim o tendes lançado de vosso serviço; e quanto me a mim mais parece que a culpa deste feito era sua, tanto mais sua de parecer e hei de crer que ele tem certo o perdão e galardão de vossa alteza, como vimos por experiência em outras pessoas serem-lhe(s) seus erros perdoados e feita honra e dado rendas e mercê, e aceitos a vossa alteza. E porque a condição dos portugueses é criar-nos vossa alteza e nos castigar, fazer mercê, e nos

chamar, e desagravar e se servir de nós e nos tirar de nossos arrufos e errados conselhos, como geralmente cada dia vossa alteza faz, por onde tornamos logo a pôr nossas vidas o cutelo, como nosso rei e senhor verdadeiro, e cada um só trabalha por vos merecer (…) devia Pêro Álvares de ser por muitas razões e (…) um destes.
E se minha pessoa e valia ante vossa alteza (…) de isto merecer, eu senhor vos beijarei as mãos por ele ser chamado de vossa alteza, aconselhado, e arrependido e tornado em vossa graça e serviço, por que é homem que eu sei certo que terá vossa alteza contentamento de sua pessoa e de todalas cousas honradas que nele há pêra algumas necessidades de vosso serviço que lhe encarregardes e esforço-me senhor a dizer, porque sei que já tem vossa

alteza tomado a experiência da sua pessoa e de seus serviços, e que em todo-los feitos em que ele puser as mãos, que vos há-de merecer mercê.
Beijarei as mãos de vossa alteza lembrar-se das al(…) mem (…ir)mã sobre mim, pelo falecimento (…) que a em minha companhia e ajud(…) e perder o escândalo que de mim tem (…) sem tê-lo Pêro Álvares apartado de vosso serviço (…) vossa corte e sua filha, como da morte de uns filhos.
Acabada em Calecut, a II dias de Dezembro de 1514
(Afonso de Albuquerque escreveu depois com a sua própria mão as seguintes palavras antes da sua assinatura:) feitura e servidor de vossa alteza - Aº dalbuquerque

(No subscrito lê-se:) A el-rei nosso senhor.
D. Afonso de Albuquerque