DESPEDIDAS

Romanceado nos parâmetros da época
Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada
Ilustrações Camila Mamede


A nau de Gaspar Coelho começou a afastar-se devagarinho, levada pelo mesmo vento morno que os homens sentiam na cara e no cabelo. Todos os que ficaram seguiam seu rastro de espuma com olhos compridos. Se nada de ruim ocorresse, os companheiros logo estariam em casa, bem mais cedo do que o previsto e cheios de novidades espantosas para contar. Que alegria, que alvoroço, que sorte! Por alguns instantes as tripulações da armada de Cabral mantiveram-se imóveis e em silêncio. Um silêncio saudoso, que o capitão-mor tolerou porque era um homem compreensivo e porque também ele fora invadido por uma justificável nostalgia.
- Nem que eu viva cem anos, jamais esquecerei os dias que aqui passei - pensou e repensou, alongando a vista pela praia imensa, plana e formosa, tão cheia de grandes arvoredos...
Os pensamentos fizeram-no voar até o palácio real em Lisboa e teve pena de não ser ele a anunciar pessoalmente a grande descoberta. Mas enfim, restava-lhe o consolo de saber que o rei ia ficar contentíssimo. A carta que lhe enviara seria lida muitas vezes, os presentes dos índios passariam de mão em mão, não se falaria de outra coisa senão das terras de Vera Cruz. Quanto ao esboço de céu feito pelo cosmógrafo de bordo, havia de maravilhar os cosmógrafos da corte, por apresentar mais estrelas desconhecidas dos europeus, como as daquela constelação, que se poderia chamar, por exemplo, Cruzeiro do Sul.
O apito do mestre alertando os grumetes para a mudança de turno cortou o devaneio e Pedro Álvares Cabral voltou a si. Aproximava-se o momento de dar ordem de largada rumo à Índia, tinha muito que fazer. No entanto deixou-se ficar ainda um pouco encostado à amurada. Os olhos prendiam-se nos homens e mulheres que giravam à beira da água dizendo adeus. Entre eles, os dois degredados que escolhera para ficar e aprender a língua, os costumes.
- Nunca abandonei ninguém assim, mas já que tem de ser, antes aqui do que em outro lugar qualquer.


As cenas da missa rezada na véspera sobre o areal vieram-lhe à idéia muito nítidas e reconfortantes. Aquela gente, mesmo sem entender nada, tinha participado erguendo os braços e ajoelhando em volta da cruz.
- Só pode correr tudo bem, este é um lugar para ser feliz!
Com um meio sorriso benevolente, recordou os dois rapazolas fugidos pela calada da noite e que não tinham voltado a aparecer.
-Tomaram o destino nas mãos, ficam de livre vontade, que Deus os acompanhe.
Sentindo uma presença atrás de si, Pedro Álvares Cabral voltou-se e deu de caras com Pero Vaz de Caminha. Não trocaram palavra mas olharam juntos a terra onde ambos gostariam de voltar. A terra que ainda não tinha nome definitivo. O Brasil, que os tornaria imortais.