omo herança da sua obra D. Manuel deixou, a Portugal e ao Mundo, as portas abertas de um processo que começara havia pouco mais de um século. Ele e a sua divisa, a esfera armilar, simbolizaram o culminar desse processo da revelação e simultaneamente de construção de uma nova realidade mundial, moldada com tenacidade por ele e pelos seus antecessores no poder, bem como pelos portugueses em geral - os grandes obreiros da abertura dos Novos Mundos.
Nos séculos XV e XVI a expansão econômica então

verificada em Portugal refletiu-se na produção de notáveis realizações em todos os domínios artísticos.
São de destacar no chamado estilo manuelino a construção de numerosas igrejas, conventos, palácios e outra obras. Aquelas que mereceram um maior empenho foram as grandes construções como o Mosteiro dos Jerônimos e a Torre de Belém, sem esquecer que se efetuaram trabalhos importantes em edifícios antigos, como o convento de Cristo em Tomar, onde o Infante D. Henrique já mandara fazer o claustro do cemitério.
A construção do Mosteiro de Santa Maria de Belém (dos Jerônimos) foi iniciada em 1501 ou 1502. O seu primeiro arquiteto foi Diogo de Boutaca, - substituído em 1516 por João de Castilho. Nele trabalharam os melhores arquitetos e escultores da época.

No quadro de Filipe Lobo, de 1657, é possível observar o conjunto das construções do Mosteiro dos Jerônimos, sem as pequenas alterações que lhe foram introduzidas no século XIX.
Notáveis arquitetos como Mateus Fernandes, Diogo de Boutaca, Francisco e Diogo de Arruda e João de Castilho foram alguns dos vultos mais importantes que criaram a arquitetura manuelina, que constitui um dos mais fecundos e originais períodos da história da arquitetura portuguesa. Os elementos do gótico tardio adquiriram aí uma grande pujança decorativa, enriquecida com motivos orientalizantes e elementos da Renascença. Na pintura assinalam-se obras de grandes artistas. Embora no século XV se conheçam poucos nomes de pintores, pode-se destacar o mestre régio Nuno Gonçalves, que realizou a mais admirável pintura da História

da Arte em Portugal - o retábulo que podemos denominar da "Veneração de São Vicente".
Algumas centenas de pinturas quinhentistas que chegaram até aos nossos dias revelam o valor de artistas de que devemos destacar, para a primeira metade do século XVI, os nomes de Jorge Afonso, Cristóvão de Figueiredo, Gregório Lopes, Garcia Fernandes, Álvaro Pires (talvez o chamado "Mestre da Lourinhã"), Vasco Fernandes (Grão Vasco) e Gaspar Vaz. Muitos dos quadros que ficaram anônimos foram efetuados nas oficinas destes mestres. Nas artes decorativas merece particular realce a ourivesaria, onde se contam, entre as obras mais notáveis, a custódia de Belém (feita em 1506 por Gil Vicente) e a cruz processional manuelina da Sé do Funchal. São também de grande valor várias salvas, gomis, ampulhetas, cofres e um sem-número de objetos de arte

sacra, como cruzes, custódias, cálices, navetas, porta paz, relicários, báculos, hostiários, onde se pode admirar o gosto manuelino por uma ostentação tardo-gótica.
Na escultura portuguesa dos séculos XV e XVI são de notar as obras de artistas como João Afonso, Diogo Píres-o-Velho e Diogo Pires-o-Moço. Deste artista da escola coimbrã, a quem se devem belos túmulos e figuras religiosas, podemos destacar um anjo heráldico, pela significativa associação que o artista faz da figura religiosa com a esfera armilar e as armas de Portugal.
Os escultores franceses Nicolau Chanterene e João de Ruão foram os que deixaram uma marca da arte da Renascença mais profunda em Portugal.
As relações artísticas e culturais com a Europa renascentista foram intensas, tendo vindo para Portugal obras

de grandes artistas. Provenientes do Norte da Europa, conhecem-se pinturas de Quentin Metsys, Hans Menling, Jan Provoost, Gerard David, etc. As mais notáveis são as "Tentações de Santo Antão" de Jerónimo Bosch e o "São Jerônimo", uma das obras-primas de Albrecht Dürer pintada em 1521 e oferecida ao seu amigo Rui Fernandes, que exerceu funções na feitoria de Antuérpia. Uma das pinturas mais interessantes a ser encomendada em Portugal foi a "Fons Vitae", trabalho flamengo de cerca de 1517, onde D. Manuel se fez representar com toda a família. Esta obra foi destinada à Misericórdia do Porto, onde se conserva. Lembremos que as Misericórdias foram criadas em 1498 por Dona Leonor, viúva de D. João II e irmã de D. Manuel. D. Leonor também foi uma mecenas que muito protegeu artistas e impressores, como o alemão Valentim Fernandes.

Artistas que se especializaram em iluminuras, como Simão Bening, fizeram obras encomendadas por portugueses e outros, como António de Holanda, pai de Francisco de Holanda, vieram mesmo a fixar-se em Portugal. A iluminura era muito apreciada e alguns iluminadores destacaram-se, nomeadamente os que decoraram a série de volumes da Leitura Nova (1504-1552) e o chamado Livro de Horas de D. Manuel. Alguns pintores flamengos também se radicaram em Portugal. Foi o caso de Francisco Henriques e Frei Carlos.
Além da pintura flamenga, a que foi importada com mais abundância para Portugal, deve-se assinalar que também para lá foram levados quadros de Itália e de Espanha e fizeram-se numerosas encomendas de livros iluminados na França e Itália. Entre os trabalhos mais valiosos que eram importados contam-se ainda as tapeçarias, provenientes sobretudo

de Tournai. Destacam-se também outros objetos artísticos, como esculturas inglesas, peças de ourivesaria alemã e cerâmicas italianas e espanholas.