árias são as estórias que se contam em Belmonte, a propósito de suas origens. Muitas das quais remontam a tempos antiquíssimos, contadas e modificadas na medida em que a fantasia popular as foi enfeitando. Duas delas são as mais constantes e têm como tema o pastoreio.

Na trilha do rebanho

Pobre e sem teto vivia um pastor nos montes da velha Grécia, a apascentar ovelhas. Desejoso de construir uma casa em que morasse, decidiu ir a Delfos a fim de trocar uma rês por um oráculo que lhe informasse em que lugar do mundo poderia encontrar pastagens que, no inverno ou no verão, fossem sempre exuberantes.


"Segue tuas cabras" - foi a resposta divina. "Caminharás muito e muito, mas elas acabarão por parar. E nesse lugar edificarás a tua casa."
Durante anos a fio seguiu o pastor a trilha que lhes ia indicando o rebanho. Até que as cabras pararam ao pé de uma colina verdejante, por onde rica pastagem se estendia à beira do rio Zêzere. Aí ergueu o pastor a sua moradia. E esse foi o começo de Belmonte.

A cabra e o cabrito

Três noites seguidas sonhou um pastor que lhe diziam: "Vai a Belém que lá está teu bem." E muita gente acreditava ser sinal de verdade um aviso dado três vezes seguidas por um sonho. Pôs-se pois a caminhar o pastor, à procura desse Belém prodigioso.


Tempos e tempos caminhou. Até que um dia, numa terra distante, encontrou-se com um outro pastor solitário ao qual contou a sua história.
"Tolice!" - respondeu o outro. "Também eu tenho sonhado, dia após dia, com uma cabrinha branca que teima sempre em deitar-se em cima de uma pedra que há por aí. E dizem-me vozes que quem levantar aquela pedra vai achar um tesouro enterrado por baixo dela.. Mas quem vai acreditar nisso?"
Acontece que o primeiro pastor conhecia bem - e longe dali - o lugar da pedra descrito pelo incrédulo companheiro. E partiu, em silêncio, à sua procura.


Caminhou outra vez longo tempo, localizou a pedra, escavou por baixo dela e desenterrou uma cabra e um cabrito esculpidos em ouro maciço.
Decidiu, então, ir ao palácio, a fim de dar conta ao rei do sucedido. E, ao ver o soberano, antes de qualquer explicação pôs-lhe a questão: "Trago um presente para Vossa Alteza. Dizei-me, pois: quereis a cabra ou o cabrito?"
Brasão dos Cabrais Imaginando o bom e tenro acepipe que colocaria em sua mesa, respondeu-lhe o rei:
"Prefiro o cabrito." Só então soube que se tratava de uma escultura em ouro. Mas, longe de pretender castigá-lo, louvou o rei a esperteza do pastor. E este, com a sincera humildade que sempre tivera, prostrou-se outra vez diante do soberano e ofereceu:


"Fique Vossa Alteza com os dois - a cabra e o cabrito. E que lhe sejam de bom proveito."
Reconhecido, o rei mandou dar ao pastor tudo quanto pudesse ser avistado do alto da serra de Belmonte. E foi assim que ali nasceu a vila e nela se instalou o senhorio dos Cabrais, em cujo brasão de família estão presentes, até hoje, a cabra e o cabrito.