Paulo Afonso Grisolli
"Quem foi que inventou o Brasil?
Foi seu Cabral! Foi seu Cabral!
No dia
21 de abril,
dois meses depois do Carnaval!"
(Lamartine Babo, 1934)
A marchinha perde-se nos carnavais dos antanhos, embora vez por outra
cantada ainda por inveterados cultuadores do passado. Já quase ninguém
se lembra dela. Mas continua a refletir esse tom zombeteiro que os
brasileiros costumam ter mesmo ao tratar dos assuntos mais sérios da
sua vida cotidiana. Um respeitável fidalgo dos Séculos XV e XVI,
encarregado por D. Manuel I do comando da maior armada até
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então constituída no reino de Portugal, capitão-mor sobre 13 embarcações e perto
de 1.300 homens fortemente armados, num tempo em que a aventura ao mar era
o desafio ao desconhecido e ao imponderável, passa a ser, na intimidade do
povo, simplesmente o "seu Cabral". "Inventor" de um país em que o Carnaval
ainda é - por bem ou por mal - uma das razões de vida.
Cinco séculos depois da façanha marítima e muitos anos decorridos dos
carnavais de Lamartine, o Brasil é um país maduro, consolidado, sofridamente
democratizado e, na sua transformação constante, novo.
O espírito galhofeiro não tem resistido facilmente à dura experiência do
crescimento e da crise do mundo moderno. Porém sobrevive e - herança de
tempos mais ingênuos - continua a reservar para o descobridor de 1500 esse
tratamento irreverente de «seu Cabral» e coisas que tais. Veja-se, por
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exemplo, publicidade recentemente divulgada pela televisão, na qual o
capitão-mor é reduzido a mero apreciador de deidades calipígeas nas praias do Rio de
Janeiro. No geral, porém,quase ninguém sabe coisa alguma, ou só sabe muito
pouca coisa, sobre o homem que em abril de 1500, à frente de aventureiros
ousados e de constrangidos convictos de crimes verdadeiros ou inverídicos,
fez ancorar seu navio na terra baiana a que chamou de Porto Seguro. A
escola brasileira ensina muito pouco sobre o homem que comandou a façanha.
E isso facilita o desdém, a minoração, a leviandade e o desconhecimento.
Quem foi Pedro Álvares Cabral? Que caráter tinha? Que qualidades possuía
para que o rei português, em pleno apogeu de vitórias marítimas, o tivesse
constituído capitão-mor de tão importante missão? Como decorreu, momento a
momento, a sua viagem? Terá sido ou não o primeiro a aportar no litoral
brasileiro? Por que motivos ficou tão poucos dias na terra
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descoberta,
rumando a seguir para o Índico, onde a sua empreitada não seria das mais
felizes? Em que situação emocional e prática terá visto perecer tantos dos
seus homens - alguns extraordinários navegadores, num tempo em que
navegadores desse porte eram semideuses - e regressado sem festas nem loas
a Lisboa, apartado do que restava da sua armada ? Que lhe terá acontecido
desde então, a ponto de perderem-se os seus sinais de vida, a não ser na
notícia que se tem de que ainda dominou e morreu em Santarém, onde sua
sepultura não o consagra como herói?
Fascina-me pensar e imaginar os homens que mudaram a História.
Convencionalmente, costumam chamá-los heróis. Entretanto são, antes de tudo,
apenas homens. De carne e osso, de medos e ousadias, de vitórias e
fracassos. Muitas vezes não foi mais que a casualidade que os transformou
em façanhudos. Em outras ocasiões terá sido a teimosia. Ou a mórbida
obstinação em busca de algum objetivo - razoável ou não.
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