or conta dos magníficos monumentos que tem, intitula-se a Capital do Gótico em Portugal. Mas nos seus 28 séculos de existência documentada, Santarém, plantada em colina que domina as deslumbrantes lezírias do Ribatejo lusitano, tem alimentado remotas legendas sobre a sua origem.
A primeira delas, ligada à mitologia greco-romana, diz que a vila deve sua fundação ao príncipe Abidis, filho de uma ligação pecaminosa do rei Ulisses de Ítaca (de passagem por terras lusitanas na sua Odisséia) com a rainha Calipso (Século XII a.C.). Mandado abandonar pelo avô - Gorgoris, rei dos cunetas -, a fim de que fosse feito pasto de feras, Abidis teria sido lançado numa cesta às águas do Tejo e milagrosamente aportou à praia de Santarém, onde uma cerva o encontrou e alimentou, à

Igreja do Seminário, em Santarém semelhança do que fez a loba a Rômulo e Remo em Roma. Após uma existência aventurosa , Abidis foi finalmente reconhecido pela mãe Calipso, tornou-se com isso o legítimo titular do trono e fez de Santarém sua capital. A que denominou Esca Abidis, que significa "manjar de Abidis". Do que teria ocorrido o nome primitivo de Scalabis - que alguns especuladores pretendem querer dizer "a escada de Abides (ou Habis)", de scala - escada em latim -, já que, ao galgar a colina como se escadaria fosse encontrou ali o lugar da sua salvação.

Outra legenda refere-se a uma possível refundação da cidade, ainda nos tempos dos godos no Ocidente da Península Ibérica, a partir do local onde foi sepultada a mártir Santa Iria, ou Santa Irene, que se tornou sítio de peregrinações e culto. (Pronuncie-se Santa Irene como um árabe que fale mal o português e ter-se-á um som como «santairen´».)
Daí para a frente, Santarém é um desfilar de conquistas, influências, culturas. E. ao longo desse tempo, sempre foi significativo ponto estratégico, centro de cultivo das belas letras e lugar de milagres, o principal dos quais - tão simplório quanto complicado - deverá ser o Santo Milagre de 1266 devido a São Frei Gil, que ainda hoje motiva peregrinações à cidade.
Essa complexa importância de Santarém fê-la urbe preferida das cortes portuguesas, sobretudo a partir do Século XIV. Diz-se mesmo que durante os reinados de Afonso II, D. Pedro I, D.

Duarte, do Infante D. Pedro e de D. João II, foi o local em que mais tempo permaneceram os monarcas.
Um acidente eqüestre ocorrido nos arredores de Santarém causa a morte do infante D. Afonso, filho do rei D. João II. E o fato lutuoso acaba por
Muralha de Alcáçova afastar a corte da cidade que, entretanto, continua a crescer em importância agrícola, estratégica e intelectual.
Hoje, empenhada num visível esforço de restaurar e valorizar da melhor forma possível os testemunhos históricos que possui, Santarém defende com empenho, junto à UNESCO, sua candidatura a Patrimônio da Humanidade.