O APURAR DOS SENTIDOS

Romanceado nos parâmetros da época

Pedro era uma criança robusta, gulosa e risonha. Começou a andar muito cedo pelas salas do castelo de Belmonte, apoiando-se ora na superfície áspera das paredes de pedra, ora na superfície fofa das belas tapeçarias que as cobriam. Não lhe faltando o apetite, desenvolveu-se rapidamente e, era ainda bem pequeno, já acompanhava o irmão e os primos pelos trilhos da Serra da Estrela à procura de frutos silvestres.
No verão colhiam amoras pretas, que ele adorava por serem tenras e doces e no inverno deliciava-se com a rijeza das bolotas e o sabor colorido das avelãs. Mas o petisco preferido eram sem dúvida as castanhas, duras como lascas de madeira se fossem comidas cruas, esfarelando-se depois de cozinhadas.
Pedro sentia-se quase sempre feliz. Quando o tempo aquecia e os campos se cobriam de flores amarelas, gostava de passear sozinho. Inspirava com volúpia o cheiro forte das plantas bravias, exercitava os músculos a correr e a subir às árvores. Agora quando a serra se cobria de neve, preferia batalhar com os irmãos no pátio do castelo e então voavam bolas para cá e para lá na maior algazarra. À noite é que era pior... deitado no colchão de palha, muito encolhido entre mantas de lã, ouvia os lobos a uivar ao longe. Ou seria perto? Mas fechava os olhos pensando com força: - Não tenho medo, não tenho medo de nada!
Às vezes a ama sentava-se ao pé dele e contava histórias. Histórias marinhas porque tinha um filho já homem embarcado nas caravelas que o príncipe D. João enviava para a costa da África.
Lá no seu castelo da Serra da Estrela, bem no interior de Portugal, Pedro adormeceu muitas vezes ao som de uma cantilena que começava assim:

Quem vai ver a barca bela
Que se vai deitar ao mar...