Max Justo Guedes e Jorge Couto

Norte

ra perfeitamente conhecido em Portugal que a linha de demarcação de Tordesilhas cortava, a norte, o litoral brasileiro nas proximidades do Equador. É natural que diversas expedições buscassem reconhecer então a chamada costa leste-oeste, que se estendia do Cabo de Santo Agostinho à foz do Amazonas.
Uma dessas expedições (1513) foi capitaneada pelo arauto régio Diogo Ribeiro e a sua história é bastante conhecida

porque, avariada e levada pelo regime de ventos e correntes, uma das caravelas acabou apresada pelos castelhanos e os seus tripulantes encarcerados em São Domingos (Antilhas). Tal fato originou a produção de importante documentação. Ela mostra que o limite aceite, nessa época, entre as duas coroas, era a linha equinocial, onde principiavam as terras pertencentes a Portugal.
A carta atlântica de Lopo Homem-Reinéis (1519) prova que a região - apesar de o difícil condicionalismo físico impedir os navios à vela de navegarem para leste na quase totalidade do ano - fora bem cartagrafada por expedições lusitanas que ali batizaram múltiplos acidentes geográficos.

Sul
A primeira armada de Gonçalo Coelho ao chantar, em 1502, o

Marco da Cananéia e, a partir dali, afastar-se do litoral, é prova de que a correta estima dos navegadores portugueses os levava a fazer passar por aquele local o limite meridional da linha de Tordesilhas. Uma expedição de pelo menos duas caravelas armadas por D. Nuno Manuel e Cristóvão de Haro, pilotada pelo famoso João de Lisboa, traria significativas conseqüências geopolíticas que, de pronto, induziriam D. Manuel a mudar de posição relativamente àquele limite.
Em outubro de 1514 aportou à Madeira, para reabastecimento, uma das caravelas que ali deu notícia do achamento de um grande golfo, no qual havia penetrado umas 60 milhas e avistado a costa oposta. Situava-se em latitude semelhante à do Cabo da Boa Esperança (34°21'S). Tratava-se, obviamente, do estuário do atual rio da Prata. O fato é conhecido através da relação redigida por um agente comercial alemão,

residente no Funchal, impressa sob o título Copia der Newen Zeytung auss Presillg Landt (Nova Gazeta da Terra do Brasil). As informações colhidas, principalmente sobre a existência de um rei branco e de uma Serra da Prata, instigaram o monarca português a pretender deslocar para sul os limites da Terra do Brasil. Surgiu daí a primeira falsificação cartográfica oficial (tratado da costa do Brasil na carta atlântica de Lopo Homem-Reinéis), uma vez que, para incluir o estuário platino na área de soberania portuguesa, o Cabo de Santo Agostinho teve que ser acentuadamente deslocado para leste, o mesmo ocorrendo com todo o delineamento da costa brasileira.
As falsificações persistiram por mais de dois séculos e até cartógrafos ao serviço de Espanha caíram no logro, como atesta a carta da América atribuída a Diogo Ribeiro.



Mapa da Costa do Brasil Mapa da América