CARTAS DE MAREAR



Mapa de Cantino - a mais antiga carta conhecida onde aparece o Brasil e a Linha das Tordesilhas

A cartografia portuguesa dos Séculos XV e XVI reflete uma visão do Mundo que até então nunca for a atingida. Os portugueses, tendo navegado ao longo do litoral de quase todos os continentes e ilhas da Terra, puderam apreender pela primeira vez na História da Humanidade os contornos dos continentes de um modo muito correto.
A cartografia mediterrânea que surgiu na segunda metade do Século XIII produziu mapas com bastante rigor desenhados por um método chamado de rumo e estima. Os contornos dos litorais eram desenhados tendo em conta cálculos empíricos de distâncias, de direções e rumos feitos com o recurso à bússola. Os principais centros dessa cartografia encontravam-se na Itália e na ilha de Maiorca. É na escola cartográfica catalã que podemos encontrar a origem da cartografia portuguesa.
Não há razões para duvidar de afirmações de Duarte Pacheco Pereira e de João de Barros (na sua seqüência), segundo as quais os cartógrafos portugueses do tempo do Infante D. Henrique teriam aprendido (ou aperfeiçoado) a técnica de fazer cartas de marear de acordo com os ensinamentos de um mestre Jacome, que o Infante D. Henrique mandou vir de Maiorca, aliciando-o com bom pagamento. Ao certo não se sabe quem era tal mestre nem a data em que veio, embora se possa admitir que tenha sido na década de 20 do Século XV. A imaginação de alguns autores veio muito tempo depois a inventar que essa figura veio a integrar uma mítica escola de Sagres, que nunca existiu, embora o seu nome esteja infelizmente muito divulgado.
Em 1443 está já registrada a informação de que cartógrafos portugueses iam completando as anteriores cartas de marear para sul do cabo Bojador, à medida em que as expedições portuguesas iam atingindo terras que nunca haviam sido desenhadas nos mapas, a não ser segundo a fantasia dos seus autores.
Um dos mais notáveis mapas da História da cartografia é o planisfério anônimo português (dito de Cantino), que se encontra na Biblioteca Estense de Modena. Ele foi concluído em Outubro de 1502 e nessa altura adquirido por Alberto Cantino para Hercule de Este, duque de Ferrara, que pagou por ele a muito elevada quantia de 12 ducados. Não se conhece o seu autor mas depreende-se que foi realizado secretamente a partir da carta padrão que se encontrava no armazém real.
Este planisfério constitui a primeira visão moderna do Mundo, pois foi executado imediatamente a seguir às grandes viagens dos Descobrimentos realizadas até ao fim do Século XV. Além de representar a Europa e o Mediterrâneo, de há muito bem conhecidos, vê-se o perfil da África traçado com uma correção que até então nunca foi possível alcançar e que no essencial é a forma que hoje conhecemos. Para oriente, no oceano Índico, a Índia é também representada pela primeira vez de uma forma bastante correta, embora outras terras asiáticas, que ainda não tinham sido visitadas pelos portugueses, apresentem algumas deformações, pois baseavam-se ainda em dados recolhidos por Ptolomeu ou fornecidos aos portugueses por muçulmanos. Devemos ainda salientar a primeira representação cartográfica do Brasil e de outras terras americanas.