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Uma revolução chamada educação

UNIVERSITÁRIO
3º lugar:
Pedro Carvalhais Vieira.
Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais
Belo Horizonte- MG.

Uma revolução chamada educação

“Aos esfarrapados do mundo e aos que neles se descobrem e, assim descobrindo-se, com eles sofrem, mas, sobretudo, com eles lutam.”

José ficou comovido com as palavras que leu na dedicatória do livro “Pedagogia do Oprimido”, a mais aclamada obra do pedagogo pernambucano Paulo Freire. Se estivesse ali há um ano atrás, com aquele mesmo livro nas mãos, certamente não entenderia uma só palavra daquela frase. Doze meses antes, José – um agricultor de 68 anos – trabalhava incansavelmente na lavoura de sua pequena propriedade, perdida na imensidão do interior do Brasil. Enquanto lia o início do livro, refletia sobre a importância que esse último ano teve em sua vida, um ano no qual, conforme ele mesmo havia dito, “aprendeu mais do que nas últimas décadas.” Até então, José era analfabeto, como tantos outros de seu país, uma vez que, desde cedo, teve que ajudar no sustento da família, o que o impossibilitou de ingressar em um educandário. Seu pai, que também nunca havia pisado em uma sala de aula, sempre lhe dizia que “escola não era lugar para filho pobre”, uma vez que “somente filho de gente rica poderia estudar.” Desde cedo então aquelas palavras permaneceram na mente de José, “plantando-o no chão de terra da lavoura, negando-lhe qualquer possibilidade de estudar e, desse modo, perpetuando a miséria da sua descendência. Para ele, as mãos que se acostumaram com a enxada achavam o lápis pesado demais.”

Entretanto no último ano, José havia tomado uma decisão: não iria morrer sem aprender a ler e a assinar o seu próprio nome. Por trás daquele desejo aparentemente simples, escondia-se um outro que até mesmo o próprio agricultor não percebia claramente: o desejo de fortalecer sua identidade como ser humano e como cidadão, identidade essa que, durante suas décadas de vida, quase sempre lhe havia sido negada. Assim sendo, inscreveu-se em um programa de alfabetização de adultos que havia sido implantado em um vilarejo próximo ao seu sítio. Desde o primeiro dia de aula, um nome passou a intrigar o agricultor, uma vez que era freqüentemente citado pela jovem alfabetizadora que coordenava o projeto: Paulo Reglus Neves Freire. Certo dia, não conseguiu conter mais a dúvida e, assim, questionou a educadora: “Professora, quem é mesmo esse tal de Paulo Freire?” Da jovem docente, José recebeu uma longa resposta, cheia de entusiasmo e de admiração. Descobriu que Paulo Freire foi o idealizador do método de alfabetização que era aplicado no programa do qual  participava, denominado “Método Paulo Freire”.  De fato, a forma como alfabetização se fava no projeto espantou José, uma vez que “quebrava” todas as impressões prévias que ele tinha de uma sala de aula. Ao iniciar a sua educação, o agricultor acreditava que iria se deparar com um ambiente onde alguém (dotado de conhecimento) falaria para outros como ele, “desprovidos de qualquer saber”. Porém, já no primeiro dia de aula, estranhou a disposição circular das carteiras, bem como a proposta da alfabetizadora que lá estava. A jovem afirmava que não iria simplesmente ensiná-los a ler e a escrever, mas ao contrário, que eles aprenderiam juntos, através de sua coordenação.

Com o tempo, as aulas foram se mostrando mais interessantes do que José jamais poderia imaginar, uma vez que a alfabetização não se dava pelo uso de palavras e frases estranhas ao seu universo e à sua experiência de vida. Todas as palavras tinham alguma ligação com a sua vivência de agricultor (como por exemplo, as palavras semente, gado e terra) e, após o ensino dessas palavras (denominadas “palavras geradoras”, uma vez que davam origens à outras, pela combinação de seus elementos básicos), eram promovidas longas discussões a respeito do real significado delas, dentro de um contexto político, levando José à conclusões que ele jamais havia chegado antes.

Sem dúvida alguma, a promoção de experiências como a de José é o mais marcante traço da linha pedagógica do educador pernambucano Paulo Freire. Nascido em Recife, no ano de 1921, Freire se destacou como uma das maiores autoridades mundiais no campo da educação e da alfabetização de adultos, através do desenvolvimento do “Método Paulo Freire”, uma técnica extremamente revolucionária, que jogava por terra todas as ultrapassadas formas de alfabetização de adultos até então existentes, levando o alfabetizando a ler não só palavras, mas também a sua própria realidade. Assim sendo, selava um forte compromisso entre a educação e a conscientização política do educando, levando-o ao conhecimento das causas e das conseqüências das mazelas de sua vida. O primeiro contato do pernambucano com a penosa realidade educacional das populações carentes se deu ainda na sua cidade natal, quando trabalhou no Setor de Educação e Cultura do Serviço Social da Indústria (SESI), entre 1947 e 1957, onde foi responsável pelas escolas primárias para os filhos dos operários. Logo, Freire concluiu que esse era um dos grandes problemas que impediam o desenvolvimento econômico, social e político do Brasil, perpetuando uma herança de desigualdades e de injustiças sociais. Os anos em que o educador se engajou no SESI foram fundamentais para a elaboração e a experimentação de suas teorias na área educacional. Através de erros e de acertos, Paulo Freire pôde retirar o processo educacional do campo abstrato da teoria para a realidade concreta da prática transformando a educação em ação e o pensamento em experimento.

Em meados dos anos 60, organizou (juntamente com outras personalidades da intelectualidade pernambucana) um projeto denominado “Movimento de Cultura Popular”, dentro do qual comandou uma atividade denominada “Círculos de Cultura”, onde grupos populares discutiam temas por eles mesmos propostos (através da mediação de um orientador), na tentativa de alcançar uma compreensão crítica das temática discutidas. Essa atividade foi fundamental para a sistematização do “Método Paulo Freire” e, então, no ano de 1963, o pernambucano promoveu um dos mais marcantes feitos da história, no contexto da alfabetização de adultos a experiência de Angicos, no Rio Grande do Norte. Nela, um expressivo número de adultos analfabetos foi alfabetizado num curtíssimo período de tempo, demonstrando a eficácia e o sucesso desse método desenvolvido pelo pedagogo. Como conseqüência, Freire ganhou fama nacional e, desse modo, foi convidado pelo Ministério da Educação para liderar um projeto que visava alfabetizar, politizando, significativa parte da grande massa de adultos analfabetos do Brasil, intitulado “Programa Nacional de Alfabetização”, durante o governo de João Goulart.

A revolucionária” proposta pedagógica do educador (vista como subversiva” pelos setores conservadores da sociedade brasileira) fez do exílio a sua única opção, após a desenfreada perseguição que sofreu por parte do governo (sendo inclusive preso), na ocasião do golpe militar, em 1964. Assim sendo, viveu fora do Brasil durante dezesseis anos, passando por países como Bolívia, Chile, EUA (onde lecionou na Universidade de Harvard) e Suíça (onde foi consultor do Conselho Mundial de Igrejas, trabalhando na área de educação). Nesse período, ao contrário do que esperavam seus perseguidores, a filosofia educacional do pernambucano amadureceu e, assim, sua luta por justiça social alcançou o cenário global, através da verdadeira “peregrinação” que o educador fez pelo mundo, a serviço do Conselho Mundial de Igrejas. Nessa empreitada, merece destaque a atuação de Freire na África de língua portuguesa, onde ajudou na implementação dos sistemas educacionais nos países que então se libertavam das “garras” do colonialismo opressor. Em 1980, após a anistia no ano anterior, Paulo mudou-se definitivamente para o Brasil (onde permaneceu até sua morte, em 1997), com o coração aberto e uma enorme vontade de “reaprender seu país”. Em São Paulo, voltou a ser professor, dessa vez lecionando na Pontifícia Universidade Católica e na Universidade Estadual de Campinas, onde foi recebido calorosamente pelo meio acadêmico, já com o status de filósofo universal que a intelectualidade lhe concede atualmente. Durante o exílio (e depois dele), Paulo Freire recebeu inúmeros prêmios e homenagens ao redor de todo o planeta, muitas vezes de organismos como a UNESCO, que demonstram toda relevância de sua filosofia para a consolidação da teoria educacional do século XX. Entre os anos de 1989 e 1991, o educador foi Secretário de Educação do Município de São Paulo, exercendo, na prática, o caráter político que sempre atribuiu ao ofício do educar. Sua gestão foi marcada por uma profunda mudança no sistema educacional da maior cidade do país, pautada na luta pelo aumento dos salários dos docentes, pela qualificação de todos os profissionais do setor e pela melhoria da integração entre as comunidades populares e o ambiente escolar. Após sua saída do cargo, Freire voltou a se dedicar às suas aulas e aos seus escritos, consagrados por todo o globo e traduzidos em dezenas de idiomas, que vão desde o japonês até o hindu.

Em sua obra, condena o processo pedagógico, que chamou de “educação bancária”, onde o educando permanece em uma posição passiva, sendo considerado como parte que “nada sabe”, ao contrário do educador, que simplesmente “deposita” conhecimentos em seus alunos. Defendia a necessidade de uma nova educação (chamada de “problematizadora”), onde deveria ocorrer um aumento de participação do educando, bem como uma nova postura sua e do educador diante da realidade, que deveria ser considerada como possibilidade e não como fato imutável. Além disso, acreditava que a educação jamais poderia ser um ato politicamente neutro, exigindo assim, uma clara postura do educador em relação ao mundo, coerente com suas práticas  e de acordo com os valores democráticos, sem nenhuma manipulação ideológica.

A trajetória e o pensamento do pedagogo pernambucano impressionaram de tal modo José que, logo após a sua alfabetização, resolveu tentar ler justamente “Pedagogia do Oprimido”, livro escrito por Paulo durante o exílio. Apesar de ter sido advertido das dificuldades que poderia encontrar na leitura, o agricultor não desistiu. Ao abrir a obra, contemplou a dedicatória e, depois de alguns instantes, percebeu a profundidade daqueles dizeres. Enxergou-se como um dos “esfarrapados do mundo” aos quais o autor fazia referência e, em seguida, concluiu que Freire foi um dos que “lutou e sofreu com eles”. Já não era mais aquele José de um ano atrás. Compreendia todos os vértices da sua miserável condição e da opressão da qual era vítima, juntamente com milhões de outros seres humanos. Enfim descobria que sua pobreza não era fruto da natureza mas, pelo contrário, se originava de uma ordem social injusta, onde sua “humanidade” fora roubada, tornando-o um “demitido da vida”. Sentiu uma profunda e legítima indignação, ao pensar nos anos em que fora privado da possibilidade de “ler e de escrever a sua palavra”, entendo sua existência como ele agora entendia. Ao ser alfabetizado, José aprendeu muito mais do que apenas ler e escrever palavras: aprendeu a “ler” a sua realidade e, sendo capaz de “lê-la”, deduziu que poderia então reescrever a sua história. Não era ingênuo, para pensar que sairia facilmente de sua condição social, mesmo dotado de uma nova mentalidade. Assim como Paulo Freire, sabia que a educação sozinha não poderia “consertar o mundo” mas, mesmo assim acreditava que ela era uma ferramenta indispensável. Através da pedagogia “libertadora” do pernambucano, o agricultor pôde entender claramente as duras contradições da civilização humana, sendo tomado por um súbito desejo de transformar esse contexto. Sua agonia poderia ser comparada à do homem que se liberta da caverna, no mito de Platão, emergindo para uma nova dimensão:  a dimensão da verdade. Assim como o homem liberto de Platão, José sentiu extrema necessidade de voltar à “caverna da dominação”, para libertar os seus iguais. Imaginou um novo Brasil, destituído de resquícios colonialistas, totalmente livre de fenômenos como o “coronelismo”, a corrupção e a violência dos grandes centros urbanos, equipado com um amplo e qualificado sistema educacional, com o poder de atingir cada cidadão brasileiro, provocando neles a mesma reviravolta que a alfabetização progressista provocou em sua vida. Por mais utópico que parecesse seu sonho, por mais difícil que fosse a  solução, o agricultor não se intimidou.

Conforme Paulo Freire pregava, julgou ser necessário reinventar a sociedade, “de baixo para cima”. Com o coração cheio de esperanças, resolveu acreditar no sonho: se a educação foi capaz de mudar sua vida, torná-la capaz  de mudar o mundo era só uma questão de esforço coletivo.

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