EXPOSIÇÃO
LIVRO FOTOBIOGRÁFICO
VÍDEO DOCUMENTÁRIO
KIT PEDAGÓGICO
CONCURSO DE REDAÇÃO

voltar para os resultados

Um Fertilizador do Inusitado

UNIVERSITÁRIO
1º lugar:
Enrique Carlos Natalino.
Faculdade de Direito do Largo de São Francisco – Universidade de São Paulo(USP).
Bela Vista – SP

Um Fertilizador do Inusitado

“O senhor me ouve, pensa e repensa, e rediz
e então me ajuda”
João Guimarães Rosa,
Grandes Sertões Veredas

O escritor espanhol Carlos Pellicier ofereceu um fragmento épico que se aplica perfeitamente a um dos maiores educadores do século XX: “Aquele que deu liberdade ao fogo para incendiar, para destruir a sombra construída com mentiras. O Capitão das cores com voz e voto, aquele que, no meio da noite, fez estalar o sol”. Misto de educador, filósofo, cientista, escritor, político e poeta, Paulo Reglus Neves Freire foi um homem verdadeiramente apaixonado pela vida. Poeta não é aquele cujo gosto pela palavra sobressai saboroso no saber profundo que elas trazem? E que sabe unir na escritura o pensamento à sensibilidade, a palavra à ação? Diferentemente do cientista neutro, programado para chegar ao primeiro porto seguro que aparece, mestre Freire atravessou aparências, desnudou as máscaras cotidianas na busca do humano movediço e das coisas simples e complicadas desta vida: o amor, a liberdade e a esperança.

Sonhou ser possível construir-se uma utopia democrática e humanista neste país de injustiças monstruosas. Sua obra é encantada e escrita sem medo da liberdade. Pedagogia do Oprimido, livro clássico, colocou seu trabalho como a grande revolução pedagógica da segunda metade deste século. Comparável e, quanto a certos temas, superior às contribuições de outro grande filósofo educacional da primeira metade deste século, John Dewey. Paulo Freire formulou uma crítica devastadora aos fundamentos da pedagogia tradicional, apresentando uma tematização de bases antropológicas para a educação e reinterpretando as relações entre filosofia, educação e política, de maneira coerente aos pensamentos de Antonio Gramsci sobre a construção de um novo senso comum e de Habermas, da Escola de Frankfurt, com seu intento de confrontar os mundos da vida cotidiana e permitir a comunicação emancipadora entre os seres humanos.

Tudo isso era novo num Brasil que ainda reproduzia, impiedosa e secularmente, a interdição dos corpos e mentes dos desvalorizados socialmente. Plantada na terra árida em que se implantou uma modernização social autoritária e tirânica, a obra de Paulo Freire tinha sabor de fruto proibido. Cada leitura renovava o sabor da fruta apanhada na hora, comida à sombra da árvore. Era aprendizagem do prazer, contrária aos métodos tradicionais, como a catequese dos jesuítas, dos séculos XVI e XVII e a escola moderna pombalina, do século XVIII. Raymundo Faoro, em Os Donos do Poder, mostrou que as reformas pombalinas se implantaram como um modelo de modernização pelo alto, visando produzir uma elite colonial iluminada no Brasil, fiel ao rei e capaz de produzir riquezas. O modelo prosperou no Império e, por incrível que pareça, na República, que agasalhou a idéia e gerou dois de seus filhotes: 1930 e 1964. Os escritores de Paulo Freire nasceram no intervalo que separa estes dois rebentos pombalinos do século XX. Seu primeiro estudo científico surgiu em plenos anos dourados do governo Juscelino Kubitschek, que alguns autores denominam “a grande renascença brasileira”. No II Congresso Nacional de Educação de Adultos de 1958, no Rio de Janeiro, o professor Freire firmou os alicerces de seu pensamento progressista, rompendo com a modernização conservadora de inspiração pombalina. Propunha que a educação de adultos teria de se fundamentar na consciência da realidade vivida pelos alfabetizandos, para jamais se reduzir num simples conhecer de letras, palavras e frases.

A partir do conjunto das circunstâncias políticas e sociais vigentes nesse interregno democrático, Paulo Freire imaginou um método alternativo, que, do ponto de vista prático, tornava possível a realização de um trabalho educativo rápido, de baixo custo, aproveitando os elementos do meio-ambiente dos educandos e, por tudo isso, imediatamente aplicável a um número elevado de pessoas. Oferecia a grande vantagem de proporcionar, concomitantemente, alfabetização, educação e conscientização política, promovendo a inserção social dos educandos e libertando-os como pessoas. Essa conjugação de elementos é, em síntese, o chamado “Método Paulo Freire”. Através dele, educadores do mundo inteiro perceberam que uma pedagogia pode e deve ser muito mais do que um processo de treinamento e domesticação. Teve, entre outros, o efeito benéfico de demonstrar a pobreza e os graves inconvenientes de linhas pedagógicas que só procuram transmitir técnicas e exterioridades, sem atentar ao essencial, que é o verdadeiro desenvolvimento da pessoa humana, pelo estímulo ao despertar e à evolução de todas as potencialidades.

Continha ainda a percepção clara da cotidianidade discriminatória da sociedade brasileira, predominantemente patriarcal e elitista. Apontava soluções de superação das condições vigentes dentro de uma concepção de educação como ato político. Conseguiu aplicar seus conhecimentos nos lugares mais diversos do território nacional, como Pernambuco, Rio Grande do Norte e Brasília. Na nova capital republicana recém construída, Paulo Freire criou os pioneiros círculos de cultura das cidades-satélites, onde milhares de candangos analfabetos, heróis anônimos da grande epopéia desenvolvimentista, puderam aprender a ler, escrever, pensar e interpretar. O “operário em construção” podia fazer desenhos mágicos com a palavra “tijolo”. Escrever a sua palavra e ler o mundo.

A passagem dos anos 50 para os 60 é o momento em que brota o segundo modernismo brasileiro. Modernismo fabricado na sociedade, pelos movimentos estudantil, social e cultural, pela elite progressista e pelos educadores, cujas aspirações nacionais e populares se consubstanciam na Bossa Nova, no Cinema Novo, no Teatro de Arena, na poesia concreta, na arquitetura modernista, no teatro de protesto, na Nova Música Popular Brasileira, na Ação Cultural para a liberdade, na Pedagogia do oprimido e na Educação como prática da liberdade. Nos últimos meses da presidência de João Goulart, a partir de 1963-64, o professor Paulo Freire coordenou o Programa Nacional de Alfabetização, ponto alto de seu apostolado educacional. Visava com ele destruir o analfabetismo programado no Brasil, fazendo parte de um grande conjunto de políticas de Estado que ficaram conhecidas como as Reformas de Base. Tal projeto objetivava, em primeiro lugar, alfabetizar, politizando, cinco milhões de adultos até 1965. Estes poderiam, pela Carta Magna vigente, fazer parte, em futuro próximo, do ainda restrito colégio eleitoral brasileiro, de pouco mais de 11 milhões de eleitores. Em decorrência dessa meta, parte da dominação política e social, visível, sobretudo, nas regiões norte e nordeste do país, perderia a força progressivamente.

O bloqueio da educação, segundo o então secretário Paulo Freire, impedia a democratização da sociedade, a implantação da justiça social e o respeito pela dignidade da pessoa humana. Isso foi notado e claramente ressaltado por uma notável educadora brasileira do século XIX: Nísia Floresta. Nascida no Rio Grande do Norte, ela sentiu os efeitos da discriminação política e social e teve os olhos para ver a sonegação da educação como uma das principais causas, denunciando-a com veemência num pequeno e precioso livro, publicado em 1853 com o título sugestivo de Opúsculo humanitário. Eis as palavras da lúcida e corajosa educadora: “Quanto mais ignorante é um povo, tanto mais fácil é a um governo absoluto exercer sobre ele o seu ilimitado poder”. Um século depois, coube também a um nordestino ter sensibilidade e visão para perceber e denunciar a presença de um forte aparato de dominação, apoiado em grande parte na imposição de férrea limitação à educação de camadas mais pobres, que constituem a grande maioria da população da região. Mas Paulo Freire foi mais longe, tendo a percepção de que o analfabetismo, sendo em si mesmo um fato de marginalização e dependência, era usado eficazmente como instrumento de contenção do aperfeiçoamento intelectual e uma barreira ao desenvolvimento da consciência política.

O golpe de força desfechado em 1964 derrubou o governo João Goulart, destruiu a democracia e mergulhou o Brasil em ditadura militar, que perseguiu, cassou, baniu e massacrou milhares de cidadãos. Paulo Freire teve que abandonar seus sonhos e partir para exílio forçado pelo mundo. Viveu mais de quinze anos no exterior. As qualidades do seu método que levaram os oligarcas do nordeste brasileiro a considerá-lo subversivo foram exatamente as mesmas que deram motivo ao seu reconhecimento e à sua acolhida por educadores humanistas e democratas de todo o mundo, inclusive pela UNESCO. Dentro de sua lógica egoísta e autoritária os oligarcas estavam certos, pois através desse método é possível transformar em pouco tempo uma sociedade desequilibrada e injusta: indivíduos dominados e explorados passivos transformam-se em pessoas e cidadãos ativos e assim se dissolve a possibilidade de dominação.

O tempo em que a obra de Freire nasceu passou, mas as aspirações que ela exprimiu sobrevivem nas camadas mais recônditas da memória individual e social. Sobreviveu à ditadura militar, ao desmonte do projeto nacional de desenvolvimento, às reformas educacionais economicistas dos anos 90 e às seguidas contingências dos orçamentos públicos de educação e cultura. Para nossa fortuna, amadurece a cada dia com a esperança diuturna que nutrimos à democracia. Segue inquebrantável junto ao imaginário do nosso povo oprimido, apartado, excluído e deserdado, mas que é gente, tem cara, tem sentimentos, tem o que dizer com suas próprias palavras e tem nome.

Infelizmente, o Brasil vivencia uma das piores páginas de sua história recente. A crise é de ética e está estampada na imprensa. Desdobra-se no colapso dos valores democráticos, no reducionismo econômico, no apartamento dos direitos humanos, na miopia social e na corrupção política. Celso Furtado já nos dizia que, em nenhum outro momento da nossa história, foi tão grande o abismo entre o que somos e o que esperávamos ser. Mestre Paulo Freire é uma brisa refrescante em meio a este mar de tormenta e vento esquivo. Evocar sua paixão pela vida é descobrir torvelinhos de protesto justo e valoroso em favor da esquecida dignidade de toda pessoa humana. Trazê-lo aos nossos dias é fortalecer a tenaz e serena vigília pela liberdade dos oprimidos. É reafirmar a convicção profunda de que todos devemos colaborar com a grande e extraordinária aventura de acesso ao conhecimento, do despertar do emblemático potencial criativo que habita cada indivíduo. É também, alçar o vôo da imaginação e do sonho, frente ao mesquinho procedimento daqueles que ficam contabilizando seus compatriotas em pesquisas e eleições, sem procurar torná-los cidadãos plenos na vida pública. É sair da resignação e abrir de par em par as janelas da criatividade, do esforço e da esperança.

O menino comum que nasceu em Pernambuco, aprendeu a ler debaixo de uma árvore, viveu a alegria de aprender futebol em campinhos de terra, nadou nas águas límpidas do rio Jaboatão, viu lavadeiras cantadeiras esfregando e batendo roupas nas pedras, brincou, aprendeu a assobiar, cantar, namorar e estudar viveu sua meninice até o fim, aproveitou e sorveu o melhor da vida, que foi de permanente aprendizagem, dificuldades, e alegrias vividas intensamente, que lhe ensinaram a harmonizar o equilíbrio entre o ter e o não-ter, o ser e o não-ser, o poder e o não-poder, o querer e o não-querer. “Podem porque crêem que podem”, proclamou Virgílio. O menino Paulo Freire fez-se homem e forjou-se na disciplina da esperança, com um traço de vida imperecível de clamor em benefício da espécie humana, tão desprotegida, criando alternativas à barbárie e à miséria. Um teimoso e imprescindível fertilizador do inusitado.

^ voltar ao topo   imprimir este texto