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Redação Ensino Médio

ENSINO MÉDIO
3º lugar:

Yasodhara Passsos Lima e Soares.
Colégio Santo Antônio
Belo Horizonte-MG

Redação Ensino Médio

“Não quero mais saber do lirismo que não é libertação”. – Manuel Bandeira

República Guiné-Bissau, 6 de dezembro de 1975

Rosa,

Pela primeira vez, você pode ver como é a minha letra, de verdade. Eu que, até algum tempo atrás, nem sabia, ao certo, se tinha direito à uma letra – minha – escrevo, neste momento, com convicção de estar consciente da grandiosidade deste ato, o que me dá desenvoltura diante o papel.

Você sabe que a nossa terra nunca foi alheia à opressão que sofremos por tantos séculos. Aqui já nascemos na luta. Acredito, porém, que muito mudará à partir de agora: que eu e muitos outros poderemos escrever sobre nossas aflições, protestos, entraves sociais de qualquer origem; e estamos certos da liberdade de poder levar nossa informação para outros meios, ao fazê-lo.

Escreverei mais logo, contando como tudo começou. Agora, tenho que ir com o grupo.

Antônio

República de Guiné-Bissau, 10 de dezembro de 1975

Rosa,

Hoje me dedicarei à explicar este projeto, no qual estou envolvido.

Um grupo de Brasileiros, do Instituto de Ação Cultural (IDAC), veio até nós ampliar uma iniciativa que já havia recebido bons frutos no Brasil e em muitos países da América Latina: a alfabetização de adultos. Você está pensando que eles só querem ficar famosos pelo mundo ao fazer isso, não é Rosa? Mas você se engana. Paulo Freire, o mentor do projeto, não se permitiria estar envolvido por pura superficialidade. Pelo pouco que o conheço, já percebi que ele não precisa de reconhecimento. Ele se satisfaz, simplesmente, ao ver o que pode fazer por aqueles que estão ao seu redor: instigá-los a consciência plena, através da leitura, escrita e visão crítica da política.

E outra coisa muito importante: ele não se permite ser chamado de professor. Nos diz que esta palavra, ao longo dos séculos, adquiriu uma conotação dominadora, como se o professor fosse o detentor do conhecimento e também um comerciante deste; o aluno, apenas uma tigela vazia aonde seriam jogados os blocos de informações, como disse um escritor chamado Sartre. Como ele já nos mostrou, a educação é o processo inverso. O educador-educando e o educando-educador devem fundir seus papeis: o conhecimento está por toda parte, diz. E nos mostra como chegar até este, que é através da leitura e análise, mas nunca aonde vamos chegar.

Paulo Freire começou estes “círculos de cultura”, como são chamados, ainda em sua terra, à muitos anos. Porém, logo que eles começaram a obter alcance nacional, os militares tomaram o poder e qualquer “ameaça comunista” foi banida. A idéia de Paulo, a de uma “educação democratizadora”, era uma dessas ameaças. Ele foi exilado e suas idéias colocadas nas malas que o acompanhavam. “O regime ditatorial não permite brechas ao livre-pensamento, ou a sociedade compreenderia que seus direitos são continuamente violados com um governo deste cunho em vigor” – disse. E eu também vejo desta forma. Tenho como espelho o analfabetismo ao qual fomos condicionados pelos colonizadores. Nosso espírito libertário foi abalado, em parte, pela falta de recursos à sua contestação. Á partir de agora, as coisas poderão melhorar – e muito.

Os “círculos de cultura” foram formados com o intuito de desmecanizar o aprendizado. Não mandam-nos repetir “ba-be-bi-bo-bu” uma centena de vezes, na crença que torna-mo-nos aculturados desta forma. Paulo nos faz refletir sobre o ato de aprender, sobre a razão de sua existência – e, conscientes dele em sua totalidade, extinguí-mos qualquer desvinculação de aprendizado e prática real. “quando vocês aprenderam a desenhar, sabiam que aquela era uma forma de expressão, comunicação, e, ao longo da vida, a aprimoravam para tornaram-se cada vez melhor compreendidos. Assim será a escrita, que não pode separar-se de seu objetivo fundamental, que é retirar de vocês os vestígios coloniais, ainda tão aparentes em Guiné-Bissau. Logo, vocês serão capazes de pensar, completamente, por si mesmos”, com esta fala, começou as atividades do nosso círculo. Lembro-me que ao distribuir sílabas soltas, e pedir para formarmos palavras com elas, a primeira que fiz foi a palavra “ar-roz”. Em seguida, Paulo nos colocou a pensar a respeito das questões nas quais o “arroz” estava evolvido: geográfica, histórica, política, nutricional.. Nunca antes imaginei que “aprender” poderia ser substituído por “reconhecer”. Desde que o IDAC chegou, esta tornou-se a minha realidade!

Tudo está caminhando muito bem, como você pode perceber. Espero que também esteja aí em Angola. Espero notícias suas em breve.

Abraços do seu irmão, Antônio

República de Guiné-Bissau, 5 de janeiro de 1976

Rosa,

40 dias posso considerar-me alfabetizado! Hoje terminou o nosso “círculo de cultura”. Para finalizar, Paulo Freire nos mostrou uma canção de Tom Paxton, utilizada em protestos nos Estados Unidos no ano de 1963. Ela diz o seguinte:

- O que você aprendeu hoje na escola, meu filho?
- Aprendi que Washington nunca mentiu
  Aprendi que os soldados raramente morrem
  E que somos todos livres.
- Aprendi que os policiais são meus amigos
  E que a justiça não tem fim,
  Que os assassinos pagam por seus crimes
  Embora haja alguns enganos, as vezes.
- Aprendi que o nosso governo deve ser forte
  E que está sempre certo, nunca erra,
  Que nossos líderes são os maiores
  E que nós os elegemos sempre de novo.
- Aprendi que a guerra não é tão ruim assim
  E que já participamos de algumas
  E lutamos na Alemanha e na França
  E que um dia eu também terei a minha chance
- Foi isso que a professora disse,
  Foi isso que eu aprendi na escola.

Inicialmente, fiquei chocado ao ler tudo isso. A canção tratava de problemas que persistem, ainda hoje – a dita superioridade do homem branco, a incapacidade de pensar por si mesmo, a pregação de valores referentes à época em que se  desejava a dominação de certos povos, para a exploração. Os países mais desenvolvidos continuam com medo do “contágio” da liberdade, as classes superiores não querem perder seu posto de destaque, não querem juntar-se aos menos abastados para construir um mundo mais humanitário. Mas a revolução está começando – cada um de nós, agora alfabetizados, poderemos continuar os círculos por onde passarmos. E se depender destes olhos brilhantes à minha volta, deslumbrados pela percepção mais ativa do mundo, muitos darão continuidade ao projeto.

Também fiquei feliz ao receber sua carta. Sei que aí em Angola você passa pelos mesmo problemas. Conversamos com o grupo sobre esta alienação generalizada comandada pelas elites, em níveis mundiais. Mas estamos todos muito esperançosos: acreditamos que, se mais projetos como este forem colocados em prática nos próximos anos, no mundo inteiro, caminharemos para uma humanidade mais consciente, capaz de julgar o que os rodeia e a se rebelar contra qualquer forma de controle ou intenção de  destruição do meio em que vivemos. Logo, o IDAC vai passar por aí, também. Eu já estou encaminhando para criar o primeiro “círculo de cultura” em Angola. Nos encontraremos em  breve, Rosa. E, após isso, também poderei conhecer sua grafia, de verdade; despertar a tua consciência, por inteiro.

Antônio

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