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Redação Ensino Médio

ENSINO MÉDIO
2º lugar:

Jaquéli da Silveira.
E.E de Educação Básica Antônio João Zandoná.
Barra Funda - RS

Redação Ensino Médio

Durante os anos em que cursei o Ensino Fundamental, ensinaram-me que aprender era decorar regras, conceitos, fórmulas, datas, etc, ou seja, todas aquelas coisas cheias de exatidão que nem sempre faziam sentido na minha cabeça. Ensinaram-me que o conhecimento estava somente nos livros didáticos, os quais deveriam ser devorados capítulo a capítulo. Ensinaram-me também, que eu deveria guardar aquilo que eu pensava estar aprendendo dentro das gavetinhas, umas separadas das outras, era para não causar confusão. De fato, eu entendia que havia, então, a gavetinha das letras e das palavras, a gavetinha dos números, a gavetinha das equações, a gavetinha das datas históricas e por fim a gavetinha das ciências naturais.

Na verdade, eu não entendia os significados daquelas gavetas, só que elas existiam e serviam para alguma coisa. O fato é que eu adorava colecionar aquelas provas com a nota “dez”  e que melhor do que qualquer outro aluno de minha classe eu sabia de cor e salteado toda a tabuada. Mas de fato eu não sabia é que aquele método das gavetinhas era uma maneira de ensinar que a terra estava girando em torno do sol, enquanto eu estava dentro dela. Assim como milhares de outros estudantes estendidos sobre suas carteiras de frente para o quadro negro passam a vida seguindo o caminho que lhes são impostos, ao invés de trilhar sua própria estrada em busca do saber.

Devo admitir que não é  nada fácil hoje, estando prestes a concluir o ensino médio e com infinitas dúvidas e incertezas fazer uma retrospectiva de minha caminhada escolar, do que significou e vem significando a escola durante essa  etapa da vida. Essa etapa é, sem dúvida, a fase mais marcante de minha vida até o momento, e mais do que tudo, me constituirá como estudante, cidadã e sobretudo como ser humano.

E se hoje me vejo como sujeito da realidade e não apenas como objeto dela é porque em algum momento do caminho, ensinaram-me que as gavetinhas do meu processo de aprendizagem deveriam ser questionadas e foi aí que eu tive a oportunidade de começar a aprender realmente.

Isso aconteceu porque a escola onde passei a estudar, depois que com minha família transferi residência para um pequeno município, estava iniciando a organização de um processo educacional transformador  e democrático. Não esqueço quando cheguei à escola, o vislumbre de uma professora ao relacionar fatos relevantes com os ensinamentos de Paulo Freire, até mesmo o dia em que suas colegas foram até a janela de seu quarto, numa bela serenata, homenageá-la com uma paródia de termo freireanos.
Agora. Com  a contribuição da comunidade escolar, meus mestres começaram a me ensinar que a leitura de mundo precede a leitura da palavra, como sempre dizia Paulo Freire. Através da pesquisa participante, que por hora é desenvolvida na escola, ensinaram-me a fazer e a compreender o estudo da realidade, para assim construir o conhecimento e em seguida aplicá-la a fim de contribuir na mudança das problemáticas visualizadas, na perspectiva da inclusão dos que historicamente lhes foi negado a palavra.
Ensinaram-me através das novas relações entre professores e alunos que o professor aprende enquanto ensina e que assim o aluno pode aprender mais.

Eu passei a aprender mais com meus colegas no momento em que começamos a socializar os conhecimentos, durante as formações letivas, onde cada turma socializa com os demais aluno e comunidade um pouco do que aprendeu em sala de aula. Hoje, percebo que colecionar nota “dez” não é a certeza de ter aprendido e sim que nota é uma simbologia relativa. Agora, passei a ser avaliada pelo conhecimento de acordo com minha percepção de realidade e do mundo e com as informações e estudos que, com dedicação, criticidade e argumentação, fui construindo o conhecimento. Sou avaliada pelo que decorei nos livros. Mais do que isso, agora eu também tenho a oportunidade de avaliar. Por isso percebo que é um momento de aprendizagem, em que aprendemos a superar nossas dificuldades e dar novos passos.

Ser sujeito de uma formação humanizadora por uma sociedade mais justa e democrática é descobrir novas potencialidades, é aprender, através da educação, como romper com os preconceitos e ser agente transformador da sociedade, do opressor versus oprimido.
Minha escola ensinou-me a ter e formar opinião própria, ensinou-me a estudar a história do homem simples do lugar e não somente decorar datas, causas e conseqüências, para assim conhecer o passado, compreender o presente e transformar o futuro. Com isso aprendi a indignar-me com as injustiças causadas por um sistema capitalista que  nos nega até mesmo o sonho. Mas aprendi também a ter a esperança e acreditar na capacidade que temos de mudar essa realidade.

É por isso que Paulo Freire está vivo dentro de minha escola e, e sobre tudo porque hoje estou aprendendo a aprender, aprendendo a fazer , aprendendo a viver junto e aprendendo a ser, e assim, agradeço a Paulo Freire por deixar em mim e em todos a capacidade de poder sonhar, através de seu legado.
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