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Paulo Freire: educar para esperançar

ALFABETIZADOR
3º lugar:
Lúcia Helena Alves de Sá.
Instituição de ensino: Centro de Ensino Fundamental 104 Norte
Brasília -DF

Paulo Freire: educar para esperançar

Etimologicamente, a palavra educar origina-se do latim ec-ducere que significa eduzir. No alemão, corresponde à palavra erziehen, formada por ziehen, que significa puxar, arrancar; e pelo prefixo er que denota um movimento completo para fora. Logo, educar é trazer para fora, é extrair de uma pessoa algo que a torne transformada. É, de certo, também, uma ação interativa e dialética realizada entre as pessoas que atuam na sociedade e nela estão imersas. Bem assim, educação é o processo que renova uma pessoa, extraindo-lhe ou libertando-lhe suas potencialidades criadoras. Ou como diria Paulo Freire em Pedagogia do Oprimido: “os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo”.

Todavia, as forças contra-educativas obstaculizam a emancipação do poder criativo em crianças, jovens e adultos. Paulo Freire disso esteve sempre cônscio e evidenciou que, por um lado, cada um de nós tem de ser sujeito do processo educativo e, por outro, que educar não é se encher isoladamente de conhecimento, que “ninguém se educa a si mesmo”. Assim posto, a educação é ontologicamente política; sem mudança ela não existe. A finalidade de todo ato educativo é a transformação que, por sua vez, não ocorre sem luta pelo poder, sem o ato de modificar o mundo para quem, com quem e contra quem. Igualmente, se faz digno de nota que todo ato educativo (e aquele educador o fez) deve, sobretudo, indagar com que intensidade e alcance deve haver tal mudança, seja ela no nível histórico, social ou individual.

Desse modo, educar é produzir conhecimento inovador que dá feição nova à realidade, à sociedade. Basta lembrar dos inúmeros conhecimentos elaborados pelo homem ao longo dos séculos em filosofia, literatura, artes, ciências e tecnologia que outrora transformaram o mundo e hoje produzem saberes (no sentido mais amplo da expressão) de alta qualidade e darão um contributo de grande valor ao patrimônio comum da cultura humana. Aqui aparecem os conflitos de interesses inerentes ao fato de que conhecimento implica a aquisição, a manutenção e a reinvenção do poder. Paulo Freire, então, pensou em um ato educativo que irrompesse as forças criadoras latentes que não são apenas inatas; ao contrário, podem ser desenvolvidas no ser humano em qualquer fase de sua vida.

Especificamente, aquele educador elaborou um método que incita o pensar autêntico e original nos indivíduos, promovendo o surgimento de criativos escritores, poetas, cientistas em nossa sociedade; ou mesmo o aparecimento de matemáticos, físicos, literatos, pensadores que apresentassem conhecimento novo e fértil ao longo de suas vidas; bem como de uma Escola, uma Universidade (a chamada educação formal ou sistemática) que garantisse a pesquisa e a criatividade. Por fim, indagou-se quanto à concepção de ser humano que devemos ter para intervirmos positiva e construtivamente no fenômeno educativo. Ou seja, tentou humanizar o conhecimento e, por conseguinte, o poder.

Paulo Freire sabia tanto da necessidade de um sistema econômico e de políticas governamentais que fomentem – e não atrapalhem – a realização da educação, como de concepções pedagógicas e métodos de ensino de alfabetização que tornem o ser humano sujeito de sua própria educação. Infelizmente, a realidade histórica brasileira (com escravidão, ditadura, pobreza, exclusão social, violência e corrupção) impede a emersão de forças criadoras já envolvidas na e pela contra-educação. O problema de nossa educação consiste, indubitavelmente, na questão de como superar a contra-educação que, em termos ontológicos, é tudo aquilo que oblitera o ser humano de ser mais do que já é e cujo fim não é a transformação.

Nessa perspectiva, acredito que haja pelo menos duas vertentes com as quais posso ler o pensamento pedagógico de Paulo Freire a fim de apreender o sentido da educação para a transformação. A primeira apontaria para a sua tentativa de superar todos os obstáculos contra-educativos existentes na nossa cultura, na nossa sociedade e em cada um de nós, tanto no âmbito temporal quanto no espacial. A outra analisaria o seu pensamento, tentando encontrar a originalidade do novo caminho proposto por ele. Assim, sigo nessa direção, levando em conta as delimitações do presente trabalho, com o intuito de, na medida do possível, abordar o núcleo de sua obra.

Paulo Freire desde o começo de sua vida pedagógica enfatizou que em nossa economia capitalista, poucas pessoas se beneficiam da riqueza do país, enquanto muitos passam ao largo de usufruí-la. De um lado, há uma elite que goza o deleite dos bens materiais e o acesso a instituições de ensino que oferecem conhecimentos científico, filosófico, artístico e cultural gerados pela Humanidade; e, de outro, inúmeros indivíduos que, quando muito, freqüentam escolas cuja qualidade, em geral, não é das melhores. Essa contra-educação já era uma constante nas escolas dos anos 50, e mantida essencialmente invariável no tempo, foi por ele denunciada em um de seus primeiros textos, Educação e Atualidade Brasileira: “Não será com essa escola, hoje ainda mal preparada materialmente, sem equipamentos, sem adequado material didático, sem condições higiênicas, sem vitalidade, sem verba, que poderemos ajudar o nosso educando a inserir-se no processo de democratização e de nosso desenvolvimento.”

Esteve Paulo Freire a questionar qual papel pode exercer a educação (formal ou não) na transformação de nossa realidade que privilegia poucos e afugenta muitos. Concluiu que a alfabetização pode conscientizar a camada popular primeiro, de sua situação de excluído, ou oprimido; e, segundo, viabilizar uma ação cultural, no sentido mesmo antropológico, com vistas a permitir o aparecimento de sujeitos críticos comprometidos com a mudança e engajados na luta pelas reformas nas estruturas socioeconômicas e políticas. Essa tomada de consciência pode até esclarecer aos trabalhadores se o seu objetivo é, por meio da educação, procurar ter o que a classe dirigente possui ou se é gerar conhecimento inovador que modificará a sociedade. Tal método, quase exclusivamente dedicado à educação de adultos, ao empregar temas e palavras geradoras retiradas do contexto sociolingüístico do educando, permite o enriquecimento da linguagem do povo, não deixando de lado a aquisição da chamada linguagem culta. Aliás, esta foi histórica e ideologicamente confundida como a linguagem daqueles que detêm o poder de mando no Brasil, enquanto a plebe se inundava em resquícios lingüísticos, estigmatizando-os como linguagem de pobre.

Vale dizer que Freire nunca se opôs à beleza, à importância e ao domínio da linguagem culta. Na verdade, era terminantemente contra a idéia de se introduzir, de cima para baixo, nas mentes dos educandos menos assistidos socialmente, os padrões cultos de linguagem. Ele nos certificou de que a linguagem do povo deve ser valorada para que, do contato com a linguagem culta, surja uma outra que revele como a transformação da sociedade se realiza e como cada indivíduo pode nela interferir. A linguagem é, pois, um dos meios mais sutis em que se pode aferir o grau de êxito de um processo educativo.

Embora tenha incentivado a educação popular em associações comunitárias e em outros agrupamentos sociais, Paulo Freire via, também, na escola sistemática, o lócus adequado para fazer emergir as potencialidades criadoras de educadores e educandos. Criticou, porém, a educação “bancária”, detectou e negou as forças contra-educativas que atuavam (e ainda atuam) no sistema de ensino formal a fim de superá-las e substituí-las por um outro tipo de ambiente educacional. Um ambiente que incitasse e induzisse o aparecimento de pessoas criativas nos vários segmentos fossem sujeitos do processo de estudar que o conteúdo disciplinar fosse profundamente compreendido por ambos.
Na escola idealizada por Freire realmente se estudaria e se trabalharia, nela não se diluíram disciplinas de estudo e uma disciplina de estudar como ocorre, por exemplo, na graduação. Nesse nível se ensina o que foi feito, ao passo que na pós-graduação se pesquisa o novo.

Esse dilema entre ensino e pesquisa empobrece o nosso sistema educacional visto que aqueles que cursam apenas a graduação – formados somente para transmitir saberes alheios – são os responsáveis pela educação de meninos e meninas nos ensinos fundamental e médio e ignoram que se deve ensinar para a pesquisa. Quando se ensina pesquisando e se pesquisa ensinando, não existe nenhuma dicotomia entre a transmissão de conhecimento já elaborado e aquele em fase de gestação. Seguramente, Paulo Freire estava convicto de que a pesquisa provoca a emersão de idéias novas e fecundas no ser humano e é esse momento de júbilo existencial que é inerente a um físico, a um poeta, a um matemático, a um escritor, a um artista.

De fato, Paulo Freire concebeu a educação como uma centelha sem a qual não há nenhuma transformação da realidade. Apenas na produção de conhecimento inovador, original, é possível intervir no mundo. E esse é um ato essencialmente político, transformador, porque temos de decidir para quem e contra quem esse mundo deverá ser mudado e questionar a quem interessa a contra-educação, quem se aproveita economicamente dos métodos contra-educativos ainda presentes em nossa sociedade.

Já que do ponto de vista econômico um país que não investe maciçamente em educação está fadado a se manter em um estágio de subdesenvolvimento, creio que a educação libertadora proposta por Paulo Freire, mesmo dentro de um sistema capitalista, pode aproveitar-se das contradições intrínsecas à sociedade para alavancar a verdadeira finalidade do conceito de educação: educar para a transformação.

Apesar da dominação da contra-educação, já confundida com aquele conceito, Paulo Freire recomenda uma paciência impaciente, de um lado, e uma impaciência paciente, de outro, como os pilares básicos de uma pedagogia de esperança. Portanto, não é inoportuno aproximar o seu pensamento com o de Heráclito (Fragmento 18): “Se não tiveres esperança, não encontrará o inesperado, pois não é encontradiço e não é inacessível.”

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