
Transformação pela alegria
O fio que vai tecer estes relatos de vivências é o da alegria. Alegria que vai tecendo esperanças, unindo o que antes era disperso, isolado, sombrio, impulsionado pela paixão, na construção da vida e da cidadania.
O que poderia ser comparado à alegria daquela senhora que, com seus dedos endurecidos pelos longos anos de trabalho pesado nas faxinas que se repetiam, na busca pela sobrevivência, desenha cuidadosamente a palavra “VIDA”? Conhece-lhe o sentido, compartilha e seu saber e vai encontrando outras palavras da família, encaixando-as como em um quebra-cabeça, uma a uma, as peças com seus novos conceitos partilhados com seu grupo. Não sente vontade de ir embora. Sua voz mansa enfrenta o desafio, ensina e aprende.
A sua alegria seria semelhante à do pedreiro que já assina seu nome e o confere com sua carteira de identidade, com o polegar carimbado, letrinha por letrinha?
Ou da senhora que, enquanto aguarda a saída de suas companheiras, olha para o mural de avisos e vai identificando, sorridente, a mensagem ali contida... Ao perceber um educador que silenciosamente a observava, lhe confidencia que diariamente, no trajeto de casa para o trabalho, vai observando tudo à sua volta e se atrasa um pouco, até conseguir entender o que leu.
O filho que pede, na festa de fim de ano, um tempo para partilhar sua alegria e surpresa quando, ao lazer um encontro de casais em sua Igreja, recebe, dentre vários cartões, um especial, com a mensagem de sua mãe, com a qual conviveu desde a infância como analfabeta, como se isso fizesse parte de seu perfil doce, terno e submisso. Sabia que freqüentava a E.J.A., mas não imaginava capaz de comunicar-se tão bem!
Um senhor franzino, educadíssimo, de voz baixa, pede ajuda para passar a limpo os versos longos de sua “Folia de Reis” e corrigir os erros. Tarefa árdua. Daquelas folhas amareladas, amassadas e algumas fora de ordem, surge nova digitação. A correção é feita não nas palavras, mas no nosso enfoque diante de tanta beleza contida na forma literária quem se dedica a levar a preciosidade de nossa cultura popular na emocionante singeleza e pureza do nosso povo. Todos participam. Montam-se barraquinhas para a venda de plantas que cada um leva como um pouco de si. A festa é celebração do Dia do Folclore. A ajuda vem para a compra das fardas. Na época oportuna, a Folia, já de farda nova, se apresenta. Participa de concurso e se classifica em primeiro lugar! Era o sonho sonhado junto, virando realidade...
Aula de Ciências: cuidados com a higiene, saúde, doenças... Ninguém nunca ouviu falar em icterícia, mas todos sabem o que é “tirissa” e sabem como cuidar. Agora são apresentados a uma nova palavra. Apenas o cuidado para não desprezar o antigo, nome conhecido de suas mães e avós. É a valorização dos diversos saberes. Dar condições de que cada um expresse com a segurança e autoconfiança, na busca da organização do pensar.Isso só será possível na medida em que construímos em cima de um patamar de vivências que precisam ser reconhecidas, mesmo que baseadas, em sofrimentos, privações, negações, exclusões e angústias para, a partir daí, sem tirar o “tapete histórico” e referencial, dar sabor e sentido à caminhada de quem vai, gradativamente, ganhando novas consciências.
Aprender com rezadeiras, com as velhas senhoras que, ao nascimento de criança nova na família, segue o respeitoso ritual de apresentação à lua. Intimidade homem & natureza, que entende as falas do vento, da chuva, do canto dos pássaros... Cuidadoso equilíbrio entre manter essas belíssimas tradições, poder contemplá-las e, ao mesmo tempo, desvendar-lhes os mistérios que aprisionam, que proíbem e impõem regras assustadoras, porque não conhecem os “porquês”. É a educação libertadora.
O que dizer da alegria daquela que já não precisa de ajuda no ponto de ônibus, para saber qual o destino de cada um deles?
Ou quem sabe da outra que, após ter levado um bolo saboreado por todos, chega em casa, gasta horas na elaboração de um relato, passo a passo, da preparação do alimento tão apreciado, pois sua educadora havia espontaneamente solicitado a receita. Ao receber o presente, desculpa-se pelo exaustivo trabalho a que lhe submetera, expresso nas várias páginas do pequeno caderno, ao que ela responde: “Minha filha, eu levei setenta anos da minha vida, analfabeta. Isto para mim não é trabalho: é felicidade!!” E descobrimos que mergulhar alguém no mundo das palavras é construir um maravilhoso hino à vida.
Seria a mesma alegria da turma inteira que ao final do ano, escreveu, cada qual para alguém do seu relacionamento, uma cartinha, enviadas todos em conjunto pelo educador: uma para o presídio, outra para um parente que mora distante e que não é visto há anos...Agora vão recebendo as repostas!
Festa Junina: preparação da festa... Em todos os grupos, o tema é o mesmo. Vão criando listas de produtos que cada um deseja doar. Todos os familiares são convidados. Durante a semana, no final das aulas, as danças são ensaiadas, em momentos de inigualável alegria. Dia da festa: todos vestidos à caráter, comidas típicas... Festa da gratuidade, da fartura, da multiplicação!
Alguns estão no Projeto por não se enquadrarem nas escolas formais, por se sentirem diferentes. São os portadores de deficiência”... Fico refletindo se deficientes não seríamos nós: de alegria, amorosidade, encantamento, esperança e afeto. Outros permanecem há vários anos e alguns já conseguem, com certa facilidade, ler, escrever e não só interpretar o que leram e escreveram, mas desejam ir além: ficarem sintonizados com as notícias dos jornais e telejornais, das clonagens, eutanásias, da morte de crianças indígenas, dos programas da TV que levam o povo à unanimidade de opinião. Querem pensar mais diferente. Desejam ter suas próprias sínteses, após os debates. Não querem mais ser “cordeiros”. É a educação como processo libertador, proporcionando um arejamento de idéias, no acolhimento que nos encoraja e nos torna capazes, impulsionados pela criatividade.
A costureira que estimulada, escreveu poesia. Poesia esta que, juntamente com as de outros colegas, acabou editada um livro produzido por uma escola local, que se abriu em parceria para esta e tantas outras soluções. O livro é exibido para os parentes, amigos e vizinhos. Esta mesma pessoa recebe agora espaço no jornalzinho recém-criado em seu trabalho, para escrever mensalmente matérias sobre o assunto que lhe convier. Deseja aproveitar bem esta oportunidade. Pensa em como batizar sua coluna. Todos participam com sugestões. É a mesma batida do coração. É Paulo Freire marcando o compasso.
Do mesmo grupo, outra educanda que, no passado, chegou sofrendo de depressão: hoje livre e segura, é a mãe que provê o sustento de sua família. Continua com problemas, mas soltou as amarras que a impediam de caminhar. Segura com firmeza as rédeas de sua existência.
Emoção ao acompanhar o projeto do pedreiro que se sente responsável pela alimentação das crianças desnutridas, moradoras de sua comunidade. Ele serve, ajudado pelo biscateiro, a canjiquinha da aposentada, a multimistura da amiga agente de saúde, a casa, a panela, a mesa limpinha, o tempero de sua mãe, a refeição, após agradecer ao Deus da vida pelo alimento para o corpo e para a alma, em comunhão perfeita...
Concluímos, como ensina o nosso inspirador Paulo Freire, que ninguém educa; ninguém se educa sozinho. O homem só educa em comunhão!