PAULO FREIRE NO BRASIL E NO MUNDO
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UM LEGADO DE ESPERANÇA
REIVENTANDO PAULO FREIRE - O INÉDITO VIÁVEL
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UM LEGADO DE ESPERANÇA

No livro A voz do Biógrafo Brasileiro – A Prática à Altura do Sonho – Moacir Gadotti faz uma análise consistente sobre o legado de Paulo Freire, cujos trechos principais são reproduzidos a seguir (págs. 104 a 110)
“Paulo Freire publicou, no Brasil, nos primeiros 5 anos da década de 90, seis importantes obras: A Educação na Cidade (1991), Pedagogia da Esperança (1992), Política e Educação (1993), Professora Sim, Tia Não (1993), Cartas a Cristina (1994) e À Sombra Desta Mangueira (1995). São obras que revelam um Paulo Freire mais literário e poético e um pensamento analítico-histórico e em evolução permanente.
(...) Paulo Freire parece preocupado com uma questão: de que tipo de educação necessitam os homens e as mulheres do próximo século, para viver neste mundo tão complexo de globalização capitalista da economia, das comunicações e da cultura e, ao mesmo tempo, de ressurgimento dos nacionalismos, do racismo, da violência e de certo triunfo do individualismo?
Como ele responde, nesses últimos livros a essas complexas questões?
Responde segundo a minha leitura e percepção particular destas obras recentes que eles e elas necessitam de uma educação para a diversidade, necessitam de uma ética da diversidade e de uma cultura da diversidade.
Uma sociedade multicultural deve educar o ser humano multicultural, capaz de ouvir, de prestar atenção ao diferente, respeitá-lo. Neste novo cenário da educação será preciso reconstruir o saber da escola e a formação do educador. Não haverá um papel cristalizado tanto para a escola quanto para o educador. Em vez da arrogância de quem se julga dono do saber, o professor deverá ser mais criativo e aprender com o aluno e com o mundo. Numa época de violência, de agressividade, o professor deverá promover o entendimento com os diferentes e a escola deverá ser um espaço de convivência, onde os conflitos são trabalhados, não camuflados.

Nesse contexto global há duas dimensões que podem ser logo destacadas e que também se encontram em outras obras de Paulo Freire:

a) a DIMENSÃO INTERDISCIPLINAR . O objetivo fundamental da interdisciplinaridade um caminho para se chegar à transdisciplinaridade é experimentar a vivência de uma realidade global que se inscreve nas experiências cotidianas do aluno, do professor e do povo e que, na escola conservadora, é compartimentizada e fragmentada. Articular saber, conhecimento, vivência, escola, comunidade, meio-ambiente etc. é o objetivo da interdisciplinaridade que se traduz na prática por um trabalho escolar coletivo e solidário. Essa dimensão Paulo Freire desenvolve, com exemplos concretos de sua aplicabilidade, no livro A educação na cidade.

b) a DIMENSÃO INTERNACIONAL E SOLIDÁRIA . Para viver esse tempo presente, o professor precisa engajar as crianças para viver no mundo da diferença e da solidariedade entre diferentes. A escola precisa preparar o cidadão para participar de uma sociedade planetária. A escola tem que ser local, como ponto de partida, mas tem que ser internacional e intercultural, como ponto de chegada.
(...) A escola não deve apenas transmitir conhecimentos, mas também preocupar-se com a formação global dos alunos, numa visão onde o conhecer e o intervir no real se encontrem. Mas, para isso, é preciso saber trabalhar com as diferenças, isto é, é preciso reconhecê-las, não camuflá-las, e aceitar que, para me conhecer, preciso conhecer o outro.
(...) Três filosofias marcaram sucessivamente a obra de Paulo Freire: o existencialismo, a fenomenologia e o marxismo, como aponta Carlos Alberto Torres em seu livro Estudos Freireanos. Paulo Freire nos fala em "oprimido-opressor" (anos 50-60), em opressão "de classe" (anos 60-70) e opressão "de gênero e raça" (anos 80-90).
(...) Nesse contexto histórico que vem se desenhando o projeto e a realização prática da escola cidadã em diversas partes do país, como uma alternativa nova e emergente, fundada no legado de Paulo Freire. Ela vem surgindo em numerosos municípios e já se mostra nas preocupações dos dirigentes educacionais em diversos Estados brasilei¬ros.
Movimentos semelhantes já ocorreram em outros países. Vejam-se as "Citizenship Schools" que surgiram nos Estados Unidos nos anos 50, dentro das quais se originou o importante movimento pelos Direitos Civis naquele país, colocando dentro das escolas america¬nas a educação para a cidadania e o respeito aos direitos sociais e humanos.
Os eixos norteadores da escola cidadã são: a integração entre educação e cultura, escola e comunidade (educação multicultural e comunitária), a democratização das relações de poder dentro da escola, o enfrentamento da questão da repetência e da avaliação, a visão interdisciplinar e transdiciplinar e a formação permanente dos educadores.

Como se vê, o pensamento de Paulo Freire continua inspirando a teoria e prática da educação contemporânea na última década do século 20.”
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