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Material escrito, recebido ou dedicado a Paulo Freire

MINHA PRIMEIRA PROFESSORA
“A primeira presença em meu aprendizado escolar que me causou impacto, e causa até hoje, foi uma jovem professorinha. É claro que eu uso esse termo, professorinha, com muito afeto. Chamava-se Eunice Vasconcelos (1909-1977), e foi com ela que eu aprendi a fazer o que ela chamava de sentenças.

Eu já sabia ler e escrever quando cheguei à escolinha particular de Eunice, aos 6 anos. Era, portanto, a década de 20. Eu havia sido alfabetizado em casa, por minha mãe e meu pai, durante uma infância marcada por dificuldades financeiras, mas também por muita harmonia familiar. Minha alfabetização não me foi nada enfadonha, porque partiu de palavras e frases ligadas à minha experiência, escritas com gravetos no chão de terra do quintal.”

(Paulo Freire, trecho de depoimento publicado pela Revista Nova Escola, em dezembro de 1994.)

CARTA DE INDIRA GANDHI
Caro Paulo Freire,
Lamento saber que uma indisposição de saúde tenha motivado o cancelamento de sua visita à Índia. Espero que você se recupere completamente e logo. Tente vir à Índia novamente. Esperava encontrá-lo. Tenho apenas uma noção sobre suas idéias em educação. Mas isto é suficiente para despertar meu interesse. O homem é uma criatura fascinante com uma personalidade multi-facetada e capaz de tanto. Parece-me que, com exceção de um número infinitesimal, este potencial é coberto por camadas e camadas de um tipo ou outro de inibição. Nosso sistema de educação e a estrutura da sociedade desencoraja qualquer mudança do status quo e apóia apenas os interesses de uma pequena parcela da população.
Com minhas lembranças e meus melhores votos, atenciosamente,

Indira Gandhi (New Delhi, 16 de maio de 1973.)

CARTA DO EDUCADOR POLONÊS BOGDAN SUCHODOLSKI
Caro senhor Freire:
Sua carta me proporcionou um enorme prazer. Estou profundamente tocado pelo interesse que dedica às minhas obras. Lembro-me muito bem de nosso encontro, mas penso, sobretudo, na sua atividade e nas idéias que são também as minhas. Felicito-o pelo retorno a seu país e desejo-lhe muito bom trabalho. Espero que nos encontremos ainda, não somente no plano das idéias, mas também pessoalmente. Ficarei muito feliz em poder ler seus livros e outros textos publicados recentemente.
Queira aceitar a expressão de meus sentimentos pessoais e de amizade.
Bogdan Suchodolski (Varsovie, dezembro de 1983)

AOS QUE FAZEM A EDUCAÇÃO CONOSCO EM SÃO PAULO

Assim que aceitei o convite que me fez a prefeita Luiza Erundina para assumir a Secretaria de Educação da cidade de São Paulo pensei em escrever aos educadores, tão assiduamente quanto possível, cartas informais que pudessem provocar um diálogo entre nós sobre questões próprias de nossa atividade educativa. Não que tivesse em mente substituir com as cartas os encontros diretos que pretendo realizar com vocês, mas porque pensava em ter nelas um meio a mais de viver a comunicação necessária entre nós.
Pensei também que as cartas não deveriam ser escritas só por mim. Educadoras e educadores outros seriam convidados a participar desta experiência que pode constituir-se num momento importante da formação permanente do educador.
O fundamental é que as cartas não sejam apenas recebidas e lidas, mas discutidas, estudadas e, sempre que possível, respondidas.
Hoje tenho a satisfação de fazer chegar às mãos dos educadores de nossa rede um primeiro texto redigido por equipe deste Gabinete "Construindo a Educação Pública Popular" texto em que se fala um pouco de alguns pontos centrais do trabalho comum a ser realizado por nós e também o texto do Regimento Comum das Escolas para discussão e debates em toda a rede.
Fraternalmente,
Paulo Reglus Neves Freire (São Paulo, 19 de janeiro de 1989.)

À LUIZA ERUNDINA. DEFENDENDO O SALÁRIO DOS PROFESSORES
Prezada Erundina:
Se há algo que não precisamos fazer, você e eu, é tentar convencer, você a mim, eu a você, de que é urgente, entre em seus números de mudanças neste país, mudar a escola pública, melhorá-la, democratizá-la, superar seu autoritarismo, vencer seu elitismo. Este é no fundo, seu sonho, meu sonho, nosso sonho. A materialização dele envolve, de um lado o resgate de uma dívida histórica com o magistério, de que salários menos imorais são uma dimensão fundamental, de outro, a melhoria de condições de trabalho, indispensáveis à materialização do próprio sonho. Sutre estas condições, a possibilidade de trabalho coletivo para a efetivação da reorientação curricular e a formação permanente dos educadores e das educadoras, o que não se pode realizar a não ser mudando-se também o que se entende hoje por jornada de trabalho nas escolas.
Se há muito estou certo e absolutamente convencido hoje de que, só na medida em que experimentarmos profundamente a tensão entre a "insanidade" e a sanidade, em nossa prática política, de que resulta nos tornarmos autenticamente sãos é que nos faremos capazes de separar dificuldades só aparentemente intensas possíveis que nos apresentam na busca da concretização de nossos sonhos.
Na verdade, querida Erundina, é isso o que você vem sendo e é isso o que você vem fazendo ao longo de sua vida de militante, amorosa da verdade, defensora dos ofendidos, entregue sempre à boniteza doida de servir.
O texto que se segue, de produção coletiva, amorosamente militante também, é uma espécie de grito manso, de apelo, em busca da concretização de nossos sonhos.
Do amigo,
Paulo Freire (São Paulo, julho de 1990.)

CANÇÃO ÓBVIA
“Escolhi a sombra de uma árvore para meditar
no muito que podia fazer enquanto te esperava
quem espera na pura esperança
vive um tempo de espera qualquer.

Por isso enquanto te espero
trabalharei nos campos e dialogarei com homens, mulheres e crianças
minhas mãos ficarão calosas
meus pés aprenderão os mistérios dos caminhos
meu corpo será queimado pelo sol
meus olhos verão o que nunca tinham visto
meus ouvidos escutarão ruídos antes despercebidos
na difusa sonoridade de cada dia.

Desconfiarei daqueles que venham me dizer
à sombra daquela árvore, prevenidos
que é perigoso esperar da forma que espero
que é perigoso caminhar
que é perigoso falar...
porque eles rechaçam a alegria de tua chegada.
Desconfiarei também daqueles que venham me dizer
à sombra desta árvore, que tu já chegaste
porque estes que te anunciam ingenuamente
antes de denunciavam.

Esperarei por ti como o jardineiro
que prepara o jardim para a rosa
que se abrirá na primavera”
Paulo Freire

RECADO DE PAULO FREIRE AO MOVA-SP
Só muito dificilmente poderia negar a alegria, mesmo bem comportada, que sinto hoje, como Secretário de Educação da Cidade de São Paulo, enquanto um entre os que pensam e fazem o MOVA-SP. A alegria de ser um dos que pensam e fazem o MOVA, tantos anos depois de haver coordenado o Plano Nacional de Alfabetização do MEC, em 1963, e que o golpe de Estado frustrou em começos de 64.
Sabemos, os educadores e educadoras que fazemos o MOVA-SP, da seriedade que um programa como este exige de quem dele participa, não importa o nível de sua responsabilidade. Sabemos da competência, sempre provando-se, a ser posta a serviço do programa; sabemos também que um Programa assim, demanda clareza política de todos nele engajados e vontade política de quem se acha ao nível de decisão.
A administração popular democrática de Luiza Erundina tem a vontade política indispensável à marcha do MOVA-SP. Nós garantiremos o nosso empenho para fazer as coisas certas, respeitando os Movimentos Sociais Populares com os quais trabalharemos e buscando o apoio conscientemente crítico dos alfabetizandos, sem o qual fracassaremos. Paulo Freire (Secretário Municipal de Educação, outubro de 1989.)

MANIFESTO À MANEIRA DE QUEM, SAINDO, FICA
Todos temos vivido a enorme satisfação de poder estar construindo, num esforço comum, uma nova proposta pedagógica na Secretaria Municipal de Educação. Não importa que, por nosso compromisso, tenhamos, de vez em quando, experimentado agonias e sofrimentos.
Estou convencido de que as propostas e princípios do PT, a que a prefeita Luiza Erundina dá carne, estão certos. Princípios gerais que constituem a política de governo, de que a política educacional que vimos implementando é um capítulo.
Não estou, rigorosamente, saindo da Secretaria Municipal de Educação ou mesmo deixando a companhia de vocês. Nem tampouco renegando opções políticas e ideológicas antigas, anteriores mesmo à criação do PT. Não imaginava sequer que o PT aconteceria, na minha juventude, mas sentia muita falta de sua existência. Esperei por mais de quarenta anos que o PT fosse criado.
Mesmo sem ser mais secretário, continuarei junto de vocês, de outra forma. Vou ficar mais livre para assumir outro tipo de presença.
Não estou deixando a luta, mas mudando, simplesmente, de frente. A briga continua a mesma. Onde quer que esteja estarei me empenhando, como vocês, em favor da escola pública, popular e democrática.
As pessoas gostam e têm direito de gostar de coisas diferentes. Gosto de escrever e de ler. Escrever e ler fazem parte, como momentos importantes, da minha luta. Coloquei este gosto a serviço de um certo desenho de sociedade, para cuja realização venho, com um sem-número de companheiros e companheiras, participando na medida de minhas possibilidades. O fundamental neste gosto de que falo é saber a favor de quê e de quem ele se exerce.
Meu gosto de ler e de escrever se dirige a uma certa utopia que envolve uma certa causa, um certo tipo de gente nossa. É um gosto que tem que ver com a criação de uma sociedade menos perversa, menos discriminatória, menos racista, menos machista que esta. Uma sociedade mais aberta, que sirva aos interesses das sempre desprotegidas e minimizadas classes populares e não apenas aos interesses dos ricos, dos afortunados, dos chamados "bem-nascidos".
Por tudo isso, escrever a crítica, não malvada, mas lúcida e corajosa das classes dominantes continuará a ser uma de minhas frentes de briga, tanto quanto vem sendo para muitos de vocês.
Sou leal ao sonho. Minha ação tem sido coerente com ele. Exigente com a ética, considero que ler tem a ver com a coerência com que se vive no mundo, coerência entre o que se diz e o que se faz. Por isso, não temos críticas a fazer ao trabalho que se realizou na secretaria nestes dois anos e meio em que aqui estive como secretário. Considero que a crítica, quando feita de maneira ética e competente, faz com que as nossas ações se aprofundem ou se reorientem. Aprendemos com elas.
Continuem contando comigo na construção de uma política educacional, de uma escola com outra "cara", mais alegre, fraterna e democrática.

(Síntese da fala de despedida de Paulo Freire da Secretaria Municipal de Educação do Município de São Paulo, em maio de 1991.)

CARTA ESCRITA PARA LUIZ INÁCIO DA SILVA em 21/12/1989
“Meu caro Lula,
Gostaria de fazer chegar a você meu abraço fraterno e, com ele, palavras de companheiro, carregadas de um muito obrigado pela força, pela coragem, pela dedicação com que você lutou pela democracia e pelos interesses maiores de nossa luta.
Valeu a pena viver o tempo que já vivi para ver um filho do povo enfrentando a mentira, o engodo, a farsa, engajado na reivindicação de nosso país, "sem medo de ser feliz".
Para você e Marisa, o carinho de Nita e meu.
Paulo Freire

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