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REAPRENDENDO O BRASIL

“Dezesseis anos de ausência exigem uma aprendizagem e uma maior intimidade com o Brasil de hoje. Vim para reaprender o Brasil.”
(Paulo Freire, ainda no aeroporto, quando do seu retorno ao Brasil. In Paulo Freire: uma biobibliogfrafia.)

O retorno de Paulo Freire ao Brasil foi um momento histórico para a educação no Brasil. Depois de várias tentativas de conseguir o seu passaporte nas representações consulares brasileiras, em países diferentes, Paulo Freire finalmente obtém o documento, graças a um mandado de segurança. Em junho de 1980, aos 57 anos, Paulo Freire desembarca no aeroporto de Viracopos em Campinas, regressando definitivamente ao país que havia deixado em 64, sob o comando dos militares. Sua vontade era reassumir as funções na Universidade de Pernambuco, mas as restrições ainda vigentes o impediram. Fixou residência em São Paulo. Aceitou o convite para lecionar na Faculdade de Educação da Unicamp, em Campinas e logo depois ingressou no Programa de Estudos Pós-Graduados em Educação (supervisão e currículo) da PUC/SP. Paulo Freire participa da fundação do Vereda – Centro de Estudos em Educação, também em São Paulo, cujo objetivo era desenvolver pesquisas, prestar assessoria e atuar na formação de professores dedicados à prática da educação popular. Ele envolve-se, dessa forma, nos movimentos de professores, movimentos de educação popular e na luta da classe trabalhadora com educadores jovens, valorizando-os e desenvolvendo trabalhos de aprendizado em conjunto.
Viveu momentos de grande conhecimento e produtividade neste seu reaprendizado do Brasil.

Nesse tempo, abordou assuntos variados:

  • sua posição socialista, sua religiosidade.
  • o grande poder de manipulação e domesticação da TV ao reproduzir sonhos alienadores e inacessíveis à classe dominada.
  • a constatação de que a TV está intimamente ligada ao autoritarismo.
  • o estímulo aos alunos a não aceitação do currículo imposto, tomando nas mãos sua própria educação.

“A transformação da educação não pode antecipar-se à transformação da sociedade, mas esta transformação necessita da educação”.
(Debate com professores mineiros, em 1981, in Moacir Gadotti, Convite à Leitura de Paulo Freire, da Série Pensamento e Ação no Magistério, Mestres da Educação).

No dia 24 de outubro de 1986, Paulo Freire perde sua primeira esposa, Elza Maia Costa Freire, com quem ficou casado durante 40 anos, tristeza irreparável, desolação, um enorme vazio invade sua vida. Mas o reencontro com uma amiga de infância, agora como aluna-orientanda no curso de mestrado da PUC, preenche novamente sua existência e alegra seu viver. No dia 27 de março de 1988, ele casa-se com Ana Maria Araújo Freire. Com a chegada ao poder do Partido dos Trabalhadores, que ajudou a fundar, Paulo Freire assume o cargo de Secretário de Educação da cidade de São Paulo, em janeiro de 1989, na gestão da então prefeita Luiza Erundina. Como Secretário de Educação, Paulo Freire atuou de maneira integral, reformando escolas, estruturando os colegiados, reformulando o currículo escolar, capacitando os professores e formando o pessoal administrativo e técnico. Ele mesmo diz que as mudanças estruturais mais importantes introduzidas na escola incidiram sobre a autonomia da escola, com o restabelecimento dos conselhos de escolares e dos grêmios estudantis. (Moacir Gadotti, Convite à Leitura de Paulo Freire da Série Pensamento e Ação no Magistério, Mestres da Educação.)

“O avanço maior ao nível da autonomia da escola foi o de permitir no seio da escola a gestação de projetos pedagógicos próprios que com apoio da administração pudessem acelerar a mudança da escola.”
(A Educação na Cidade, pp. 79-80, 1991.)


Em parceria com os movimentos populares, Paulo Freire criou o MOVA-SP (Movimento de Alfabetização da Cidade de São Paulo), destinado a jovens e adultos. Era a fórmula para fortalecer os movimentos sociais populares e estabelecer novas alianças entre sociedade civil e Estado. No dia 22 de maio de 1991, Freire se afasta do cargo de Secretário, mas continua ativo como colaborador. Como disse a então prefeita Luiza Erundina, Paulo Freire estava sendo “devolvido ao mundo”. Passou a se dedicar novamente a escrever artigos e livros, alguns em colaboração com outros educadores (livros falados, como os chamava), voltou à docência na PUC/SP. A partir de 1987, tornou-se um dos membros do Júri Internacional da UNESCO. Freire escreveu com os principais educadores da década de 1980, concebendo uma produção rica e essencial para a questão da educação popular, progressista, libertadora e transformadora.
O coração de imensa fraternidade, amor e paixão por todas as gentes e pelas causas do planeta solidário, cessou de movimentar no dia 2 de maio de 1997. Um infarto silenciou Paulo Freire aos 75 anos de idade, mas não encerrou sua obra. Ele deixou um legado de imensa contribuição para a educação, com reflexos em áreas como a filosofia, a arte, a física, a matemática, a geografia, a história, a literatura, entre outras.
Será para sempre um mestre, um expressivo homem de todos os tempos.





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