Verbetes                                                  Oswaldo Cruz  

Cabeça de Porco
Capa da Revista Ilustrada (RJ), n. 656, 1893
No início da noite de 26 de janeiro de 1893, por ordem do prefeito do Distrito Federal, Cândido Barata Ribeiro, a polícia ocupou o mais célebre dos cortiços cariocas da época, conhecido como Cabeça de Porco, no centro da cidade. A estalagem, conjunto de casinhas onde viviam de quatrocentas a 2 mil pessoas, conforme a fonte, foi em seguida desocupada, sem que se desse aos moradores o tempo necessário para recolher suas coisas — e, em poucas horas, demolida. A justificativa apresentada para a "decepação" — como escreveu o Jornal do Brasil — do Cabeça de Porco foi que se tratava de um "valhacouto de desordeiros". Para o historiador Sidney Chalhoub, sua destruição "marcou o início do fim de uma era, pois dramatizou, como nenhum outro evento, o processo em andamento de erradicação dos cortiços cariocas" — do qual decorreria, imediatamente, o surgimento das primeiras favelas do Rio de Janeiro. Não tardou para que a expressão "cabeça-de-porco" se impusesse como sinônimo de cortiço. Ilustração da mentalidade das elites, e não apenas as da época, para as quais classes pobres seriam sinônimo de classes perigosas, a brutal eliminação do Cabeça de Porco foi uma prefiguração do "bota-abaixo" que, dez anos depois, na gestão do prefeito Pereira Passos, mudaria a face do Rio de Janeiro.