As grandes batalhas (1899-1907)

A Revolta da Vacina

Charge de Leônidas publicada na revista O Malho, em 29/10/1904
Os distúrbios tiveram início no dia 10 de novembro de 1904, quando a polícia tentou prender um grupo de estudantes que pregavam a resistência à vacinação. No dia seguinte, adversários do governo e da vacina obrigatória promoveram manifestações no largo de São Francisco, no centro da cidade. Os ânimos estavam excitados, e as provocações foram respondidas com repressão policial. Cenas iguais se repetiriam no dia 12, quando, no bairro da Lapa, os manifestantes chegaram a atirar contra o carro de um comandante da polícia. Os embates se tornariam ainda mais violentos nos dias seguintes, com quebra-quebra em vários pontos do centro do Rio de Janeiro, sobretudo na Gamboa e na Saúde, conforme relataria o Jornal do Commercio em sua edição de 15 de novembro:
    As arandelas do gás, tombadas, atravessaram-se nas ruas; os combustores de iluminação, partidos, com os postes vergados, estavam imprestáveis; os vidros fragmentados brilhavam nas calçadas; paralelepípedos revolvidos, que servem de projéteis para essas depredações, coalhavam a via pública; em todos os pontos, destroços de bondes quebrados e incendiados, portas arrancadas, colchões, latas, montes de pedras, mostravam os vestígios das barricadas feitas pela multidão agitada. A viação urbana não se restabeleceu e o comércio não abriu suas portas.

A situação chegara a tal ponto que naquele 15 de novembro, uma sombria terça-feira, foi preciso cancelar o desfile comemorativo dos quinze anos da proclamação da República. Impotente, o governo mandou vir reforço de tropas do Exército sediadas em Minas Gerais e São Paulo — pois, para complicar ainda mais o quadro, estava em curso nada menos que uma tentativa de golpe para depor o presidente Rodrigues Alves.

Na Escola Militar, no dia 14, cadetes se amotinaram, arrombaram os depósitos e se apossaram de armas e munição. O comandante da escola, general José Alípio Costallat, foi deposto por um colega, o general Silvestre Travassos — que morreria horas depois, num tiroteio travado com as forças legalistas na rua da Passagem, no comando de cerca de trezentos cadetes da Escola Militar que marchavam rumo ao Palácio do Catete para depor o presidente Rodrigues Alves. Outro golpista, o senador Lauro Sodré, foi preso.

Ainda em 14 de novembro, Oswaldo Cruz apresentou ao presidente Rodrigues Alves a sua demissão do cargo de diretor geral da Saúde Pública — pedido que não foi aceito.

No dia 16, o governo impôs estado de sítio e começou a recuperar o controle da situação. Ainda assim, os distúrbios se prolongaram até o dia 23, quando, auxiliada pelo Exército, a polícia chegou ao último foco de resistência, o morro da Providência, conhecido como Morro da Favela, e o encontrou vazio.

Formidável reduto defendido com entrincheiramento de molambos e carroças quebradas, medonhamente artilhado com canhões de canos de barro e lampiões quebrados pintados a piche. O espantalho do desordeiro Prata Preta era o Stoessel caricato daquela traquitana, que fez mover forças de mar e terra. A rendição da praça efetuou-se nestas memoráveis condições: os atacantes não deram um tiro, nem encontraram ninguém dentro da praça da... Harmonia. Charge publicada em jornal carioca sobre a prisão do Prata Preta
Para prender o líder popular Prata Preta, que comandava a resistência no morro da Saúde, foram necessários, segundo os jornais, cinco homens da polícia e do Exército.

Cessado o conflito, os mortos se contavam às dezenas. O número de revoltosos detidos passava de setecentos. Conta Nicolau Sevcenko:

    Foram levados para a ilha das Cobras, na baía de Guanabara, onde eram despidos e violentamente espancados, para então ser espremidos nos porões de vapores que partiam incontinenti para a Amazônia, Lá, a pretexto de servir de mão-de-obra para a extração da borracha, os prisioneiros eram despejados no meio da selva, sem qualquer orientação nem guias, sem recursos nem ajuda médica, para desaparecer em meio à floresta.

Embora vitorioso, o governo Rodrigues Alves teve que ceder alguma coisa. O presidente recusou-se a demitir Oswaldo Cruz da Diretoria Geral de Saúde Pública, como queriam muitos — mas revogou a medida que tornava a vacina obrigatória. Em conseqüência disso, um novo surto de varíola se abaterá sobre o Rio de Janeiro em 1908, fazendo mais de 9 mil vítimas.

Por algum tempo ainda, Oswaldo Cruz seria objeto do ódio de alguns cidadãos cariocas, chegando a receber ameaças de morte.