As grandes batalhas (1899-1907)

A peste em Santos

Barco equipado com aparelho Clayton espalha fumaça contra mosquitos no porto de Santos, por volta de 1905
No mesmo ano em que voltou da França, 1899, Oswaldo Cruz foi convidado para integrar uma comissão da Diretoria Geral de Saúde Pública (DGSP), chefiada pelo professor Eduardo Chapot-Prévost, que iria a Santos, no litoral paulista, para investigar uma ocorrência preocupante: a mortandade anormal de ratos constatada após a chegada de um navio que trouxera imigrantes portugueses da cidade do Porto. A suspeita não demorou a ser confirmada pelos pesquisadores Adolfo Lutz e Vital Brazil, do Instituto Bacteriológico de São Paulo: os ratos seriam os responsáveis pelo surto de peste bubônica que então se verificava em Santos.

Oswaldo Cruz endossou o diagnóstico e permaneceu em Santos por algum tempo, combatendo a doença e tomando medidas para evitar que ela se alastrasse, levada por navios, para outros portos brasileiros. Acabaria tendo uma tarefa suplementar: cuidar do colega Vital Brazil, que havia contraído a peste acidentalmente, ao realizar uma autópsia na Santa Casa de Santos.

O risco de que um médico se contaminasse era considerável o bastante para que Oswaldo Cruz revelasse seus temores numa carta a Miloca. Assim como Vital Brazil, ele próprio se contaminou, mais de uma vez, pela peste bubônica.

Ambos se curaram graças à soroterapia antipestosa — que poderia ter salvado muitas outras vidas, em Santos e ao redor do mundo, se o soro específico não fosse, àquela altura, fabricado apenas no Instituto Pasteur de Paris, e em quantidades insuficientes para atender à demanda. Para resolver o problema no país, foi criado, no Rio, o Instituto Soroterápico Federal; na capital paulista, o laboratório do Instituto Bacteriológico converteu-se em Instituto Soroterápico do Estado de São Paulo, depois Instituto Butantan.

Oswaldo Cruz estabeleceu, naquele encontro em Santos, uma profícua parceria científica com Adolfo Lutz e com Vital Brazil, diretor do Instituto Butantan. Conservada ainda hoje, a correspondência que manteve com Vital atesta não somente a cooperação científica, como também a estreita camaradagem que ligava os dois cientistas.